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Resenha: Criminal Record (1977)

Álbum de Rick Wakeman

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Uma mistura muito bem dosada de tudo feito por Wakeman até então

Autor: Tiago Meneses

24/03/2019

Depois de um disco um tanto sem muita inspiração como White Rock, o mago do teclado surpreendeu a todos com o excelente Criminal Record. Não tão pomposo como Journey To The Centre Of The Earth e The Myths And Legends Of King Arthur And The Knights Of The Round Table, mas quase tão cuidadosamente elaborado como The Six Wives Of Henry VIII, com a vantagem de ser muito mais descritivo, sem necessidade de letras (The Six Wives... é um ótimo álbum, mas não consigo sentir nenhuma relação entre a música e o conceito), Criminal Record é uma mistura de tudo o que Rick fez antes, a atmosfera sórdida relacionada com assuntos judiciais é perfeitamente alcançada e Wakeman brinca com o ouvinte passando de excessivas faixas barrocas para baladas mais suaves.

"Statue of Justice" já abre os trabalhos no disco de uma maneira poderosa, uma das minhas favoritas deste álbum, começa com um piano suave e misterioso que quase imediatamente muda com uma explosão de violência e complexidade difícil de alcançar, uma excelente faixa onde Wakeman provou porque é o melhor solista do rock progressivo (pra mim, claro). 

“Crime of Passion" soa mais como uma música clássica de Wakeman, complexa e elaborada, começa agressiva e assombrosa como se ele estivesse descrevendo o ciúme (elemento principal de um crime passional) e se deixa passar por seções contrastantes que descrevem os passos desse crime, incluindo a violência e depois arrependimento, enfim, esta faixa possui um desenvolvimento excelente. 

“Chamber Of Horrors” é sem a maior dúvida a única música fraca no álbum. Não consigo encaixá-la no conceito de uma câmara de horrores. Uma faixa muito veloz e uma seção no meio simplesmente terrível que lembra muito mais uma comédia do que qualquer coisa. Um som muito feliz e leve para o assunto que deveria abordar. 

“Birdman Of Alcatraz” é outra canção extremamente bonita onde Rick toca piano como o virtuoso que ele é e mostra todas as suas habilidades incríveis. A faixa apresenta uma melodia suave onde Rick conta a história de Robert Stroud, um cafetão violento e assassino que teve que ser transferido da prisão por causa de seu comportamento violento, incluindo esfaquear e matar um guarda, mas que também encontrou a paz observando pássaros, escrevendo enciclopédias completas e em trabalhos veterinários. Wakeman trabalha mais na personalidade do observador de pássaros do que no criminoso. O nome da faixa é o mesmo dado ao filme que conta a história de Robert e lançado em 1962. 

"The Breathalyzer" é a única faixa que apresenta vocal, sendo esse de Bill Oddie. Considero está a música divertida do álbum e que proporciona um determinado humor antes do final mais dramático do disco. Tem um som jazzístico muito agradável e que deve ser encarada quase como uma brincadeira para ser compreendido. Não é uma faixa séria como as demais do álbum. 

“Judas Iscariot” fecha o disco de maneira simplesmente perfeita. Tocando um órgão ao melhor estilo Barroco de Bach. A música vai a cada momento crescendo e ganhando força em uma combinação de atmosferas obscuras predominantes no álbum e linhas sonoras quase angelicais alcançado com a ajuda do Ars Læta Choir of Lausanne, entre a traição e o arrependimento, não existe momento de descanso nessa faixa ou alguma nota fraca. Simplesmente intensa e perfeita do começo ao fim. 

Eu acredito que ninguém mais além de Rick Wakeman ousou fazer um álbum sobre criminoso, traidores e horror com tamanha beleza. Sempre digo que apesar de possuir uma discografia de infinitos discos, a essência e genialidade do mago estão expostas de maneira ferrenha em apenas uns cinco ou seis deles, onde certamente Criminal Record é um destes. 

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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