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Resenha: Focus II [Aka: Moving Waves] (1971)

Álbum de Focus

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Uma coleção de músicas de grande profundidade e muito bem estruturadas

Autor: Tiago Meneses

20/03/2019

Antes de ouvir esse disco pela primeira vez, já conhecia "Hocus Pocus", uma faixa bizarra que ajudou a tornar a banda famosa, mas que apesar de eu ter gostado na época, hoje eu a considero a minha música menos favorita deste bom álbum.

Tirando o seu início, o disco flui suavemente do começo ao fim, as habilidades de Jan Akerman com guitarra acústica e elétrica, o teclado medieval ou mais precisamente barroco e flauta perfeita de Thijs Van Leer, o poderoso suporte fornecido pelo bom baixista Cyril Havermanns e, claro, a bateria precisa de Pierre Van Der Linden, em outras palavras, uma banda forte e madura. Antes de rever as músicas gostaria de mencionar que o título do álbum descreve perfeitamente o que o Focus conseguiu, pois a música flui suavemente após "Hocus Pocus" até o final como as ondas no oceano, um nome perfeito para dar uma ideia da música encontrada no álbum. 

O álbum começa com a já mencionada “Hocus Pocus”, uma música muito simples baseada em alguns acordes interrompidos quatro vezes por um solo de bateria curto e um som diferente de Thijs Van Leer, musicalmente não é sólida, mesmo quando eles provam a versatilidade e habilidade vocal de Thijs. A música possui sua graça, é divertida, mas não é nada que encha os ouvidos

“Le Clochard” é uma música extremamente bonita e que brilha ainda mais se olharmos o contraste dela com a frenética Hocus Pocus, Jan Akkerman toca violão no estilo flamenco, algo muito comum na Holanda porque a região de Flandres cobre não apenas a Espanha, mas também parte da Bélgica e dos Países Baixos. Delicada, coerente e bonita, um alívio perfeito para este ponto do álbum.

"Janis” também é uma faixa suave, mas neste caso a liderança é tomada por Thijs e sua flauta mágica, perfeitamente apoiada pelo resto da banda, mais especialmente pela bateria precisa de Pierre Van Der Linden. Uma música de atmosfera onírica que eu digo ser do tipo pra ouvir quando se está de mal humor, pois você pode instantaneamente relaxar e fazer com que o mundo seja visto de uma perspectiva mais positiva. 

“Moving Waves” é uma boa música executada exclusivamente por Thijs Van Leer, que começa com uma suave introdução de piano para abrir caminho para algo muito incomum quando falamos de Focus, ele começa a cantar e faz isso com uma voz muito agradável e apropriada que me faz pensar por que ele não fez isso com mais frequência, uma faixa bonita e novamente suave.

“Focus II” eu considero uma das melhores músicas da carreira da banda. Começa com Thijs e seus teclados que logo são acompanhados pela guitarra de Jan, a música vai crescendo até que a bateria anuncia uma pequena explosão e o resto da banda se une, mas sempre mantendo a atmosfera sonhadora e suave, por momentos eles têm uma clara influência do jazz, mas com aquele som único que só o Focus é capaz de criar, esta é uma das faixas mais progressivas que eu já ouvi, mas de uma maneira diferente de qualquer outra banda, simplesmente deliciosa de. 

“Eruption” consiste em um épico com mais de 23 minutos baseado em dois personagens da mitologia grega, Orfeuse e a ninfa Euridice (mas confesso não entender muito da história desses dois). É uma tarefa quase impossível analisar essa música parte por parte (são divididas em 16 capítulos), porque há tantas mudanças que vão desde a introdução barroca pelos teclados de Thijs Van Leer, passagens jazzísticas e seções psicodélicas até partes progressivas e até semi-hard rock. Talvez a característica mais importante e incomum dessa longa faixa seja que, mesmo quando as mudanças são realmente dramáticas, elas conseguem manter a atmosfera suave entre as partes mais pesadas. Definitivamente um épico subestimado, quase nunca mencionado em pesquisas progressivas, mas que merece muito mais reconhecimento, pois isso é rock progressivo puro produzido na maneira única do Focus fazer. 

Moving Waves é um daqueles discos que deve figurar no Olimpo do Rock Progressivo como vários outros que já resenhei aqui. Um disco que apesar de não começar bem como eu disse, afinal, “Hocus Pocus” não cai mais nas minhas graças, consegue continuar de maneira perfeita. Uma coleção de músicas de grande profundidade e muito bem estruturadas. 

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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