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Resenha: Darwin! (1972)

Álbum de Banco Del Mutuo Soccorso

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Na falta de mais palavras, digo apenas: Perfeito do início ao fim

Autor: Tiago Meneses

19/03/2019

Queria começar essa resenha fazendo uma reflexão. Percebo que costumamos considerar uma obra-prima muita coisa, que a expressão parece não ter o seu valor que deveria ter. Às vezes são dadas 5 estrelas a discos que são ótimos e até mesmo excelentes, mas não são uma obra-prima. Mas também acontece um problema quando estamos diante de um disco que é absolutamente perfeito do seu primeiro ao seu último segundo. Como é o caso de Darwin! dos italianos da Banco Del Mutuo Soccorso. Todas as palavras que posso usar pra descrevê-lo e o status de 5 estrelas de obra-prima parece ser algo muito pouco para o disco. 

A combinação entre os gêmeos Nocenzi nos teclados e a perfeita voz operística e doce de Francesco di Giacomo não pode ser comparada com quase nenhum outro álbum que eu já ouvi. Ainda podemos adicionar aquele metrônomo humano imaginativo chamado Pier Luigi Calderoni na bateria, Marcello Todaro nas guitarras e Renato D'Angelo no baixo, você tem a banda e o álbum perfeitos, a musicalidade e o treinamento clássico é mais do que evidente, simplesmente não há maneira de ignorar isso desde a primeira vez que se ouve. É um álbum maravilhoso.

“L 'Evoluzione” é a faixa que abre o disco. Começa com a introdução suave, uma mistura de mistério e expectativa pode ser sentida na atmosfera densa que quase pode ser cortada com uma faca, então a voz incrivelmente doce de Francesco Di Giacomo com a companhia de um piano incrivelmente belo e depois uma banda completa nos deixa com disposição para o que está por vir. A parte vocal vai "crescendo" até que uma fuga de piano e guitarra anuncia a explosão, toda a banda e Di Giacomo mostram todas as suas versatilidades, rock progressivo no sentido mais puro da palavra com direito a mudanças radicais e arranjos perfeitos. É difícil descrever com palavras simples esta excelente faixa que está apenas começando o álbum. 

“La Conquista Della Posizione Eretta” "é uma semi-instrumental que descreve a batalha entre os instintos proto hominídeo para continuar usando quatro pernas e a necessidade de adquirir a posição ereta para completar a evolução. Normalmente músicas instrumentais são incapazes de transmitir um conceito claramente, mas neste caso não apenas a música frenética, mas também os efeitos sonoros que se assemelham aos grunhidos de nossos ancestrais, conseguem  descrever bem  a cena. Após seis minutos de música, Di Giacomo acrescenta uma breve passagem vocal, na qual esclarece ainda mais a ideia que expressaram tão bem nas notas. Mais do que explicativo, esta seção é importante porque temos a chance de ouvir sua incrível voz.

“Danza Dei Grandi Rettili” é uma faixa mais suave e jazzística que acalma um pouco o humor do álbum, até porque os corações do ouvinte devem estar batendo a 150 batimentos por minuto depois das duas primeiras (risos). Há momentos em que a influência do Emerson, Lake & Palmer é evidente, mas principalmente é puro jazz com os gêmeos Nocenzi tocando juntos de maneira sublime. Mais um pedaço da perfeição bem concluído. 

“Cento Mani E Cento Occhi” começa freneticamente com toda a banda e vocais batendo no nosso ouvido com tudo o que eles têm, agora eu sinto alguma influência crimsoniana, mas que é suavizada pelo sentimento melódico italiano característico da banda e novamente uma bela passagem de piano, apenas para voltar a uma cacofonia muito controlada e depois para o sintetizador barroco. A sonoridade desta faixa descreve a música progressiva como poucas. Vale ressaltar que nesta faixa o guitarrista Marcello Todaro acrescenta sua voz áspera que faz um contraste perfeito com a clareza de Francesco. Simplesmente perfeita. 

“750,000 Anni Fa ... L'Amore?” é o tipo de música que sozinha já é motivo para que se tenha esse álbum. Uma performance incrível de piano com vocais de Francesco Di Giaccomo que são simplesmente de tirar o fôlego. Em qualquer dicionário a palavra dessa música deveria está em um dos significados de beleza. Então que a música entra em uma linha de mistério e escuridão que são fornecidos pelo sintetizador e novamente a melodia vocal e piano original volta para o prazer do ouvinte. Existem muitos vocalistas elogiáveis no progressivo, mas Di Giaccomo parece está em um nível a mais da classificação máxima. 

“Miserere Alla Storia” começa com uma introdução instrumental vibrante que me lembra "L Evoluzzione", mas é apenas uma pequena reminiscência, então que a sonoridade muda radicalmente para uma passagem mais suave e misteriosa, onde o clarinete assume a liderança e novamente Marcello Todaro acrescenta sua voz para criar um cenário primitivo e que leva a outra passagem influenciada por King Crimson, onde o piano e os sintetizadores dominam acrescentando um toque de Emerson, Lake & Palmer e Rick Wakeman sucessivamente. O trabalho de guitarra e baixo merece menção especial porque se encaixa como uma luva na música. Estamos diante de um grupo de virtuosos que conhecem o significado da frase "trabalho em equipe".

“Ed Ora Io Domando Tempo Al Tempo Ed Egli Mi Risponde ... Non Ne Ho!” começa com uma seção vocal medieval por um vocalista que eu acho que é Marcello Todaro (ele é o único creditado nos vocais ao lado de Francesco), mas parece muito claro, esta introdução é seguida por algum tipo de música carnavalesca (não a nossa aqui do Brasil), muito estranha e tradicionalmente italiana, uma faixa curta, mas interessante o suficiente para finalizar o disco não menos que brilhantemente do que esteve até aqui. 

Considero que nenhuma coleção de rock progressivo vai está completa se no seu meio não tiver Darwin! Não importa quantos outros mil discos você tenha, sei que sem ele a coleção ainda vai está faltando algo. Na falta de mais palavras, digo apenas: Perfeito do início ao fim. 

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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