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Resenha: Love And Its Opposite (2010)

Álbum de Tracey Thorn

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O amor e seus opostos, segundo Tracey Thorn

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

16/03/2019

No início da década de 80, dois universitários ingleses – Bem Watt e Tracey Thorn - formaram o  Everything But the Girl, que durante sua longa carreira, incursionou pelo pop, folk, samba, jazz, até desembocar no trip-hop e drum’n’bass de sua última fase, já na virada do século. Além dos arranjos sofisticados e letras tangenciando temas políticos e amorosos, destacava-se a voz quente de Tracey Thorn. Depois de Temperamental (1999) a dupla silenciou. Embora ainda vivam juntos, Ben e Tracey não gravam como EBTG desde então. À parte, algumas colaborações aqui e ali, Tracey Thorn ficou criando seus três filhos e não lançou álbum até 2007, quando saiu Out of the Woods, bastante salpicado de eletrônica. 

Em maio de 2010, Tracey lançou Love and Its Opposite, ainda informado pelo electro-pop, mas  temperado com momentos que lembram o EBTG pré-drum’n’bass/trip-hop.

O álbum abre com Oh, the Divorces, misto de valsa com canção de ninar, que começa ao piano até incorporar cordas. Thorn reflete sobre a quantidade de divórcios a seu redor (And this one is different/And each one of course is/And always the same) e questiona se o próprio coração está em mãos seguras. Em 1985, Phil Collins já se perguntava por que ninguém ficava mais junto. Tracy, uma década mais jovem que o ex-Genesis, demorou mais para se dar conta.

Singles Bar, com sua melancólica levada folk, fala com sensibilidade sobre os medos, dúvidas, inseguranças e desejos de uma mulher madura que passa boa parte de seu tempo procurando alguém em um bar para solteiros. Can you guess my age in these jeans? Can you tell me what any of this means? A canção termina com a questão que parte o coração: Can you smell the fear? Medo da solidão. Thorn não julga a personagem, a maturidade a fez compreender os subterfúgios usados para mascarar a falta de amor.

O ponto alto do álbum é Hormones, que compara uma mulher na menopausa e uma adolescente. A letra inicia com Yours are just kicking in/mine are just checking out e segue comparando os diferentes estados emocionais e comportamentais das duas etapas, até chegar à pergunta da garota a respeito de por que se sente daquele jeito. A mãe apenas balança a cabeça e diz “Hormones, babe.”, e repete os versos iniciais. Outono e primavera dialogando. Mas, o clima não é de velório. A melodia brejeira exala o aroma das flores. Uma estação não é melhor que a outra, apenas distinta. Dá vontade de sair saltitando por entre eucaliptos.

A linguística nos ensina que não existe sinônimo perfeito. Sendo assim, não deve haver apenas um antônimo para as palavras. O oposto de amor, indicado pelo título do álbum, não é apenas ódio. Varia de acordo com a significação que se empreste ao termo amor. Pode ser solidão, separação, medo, insegurança. Quem sabe até morte? Tracey canta sobre diversos amores e distintos opostos num álbum maduro e coeso, que reúne pontas a princípio tão opostas como folk e eletrônica.

Love and Its Opposite é prova de que Tracey Thorn ainda tem muita coisa relevante a dizer. Ao contrário da alfinetada da letra de Oh, The Divroces, onde deseja “bad karma” para um marido galanteador, só se pode pedir por um ótimo karma para ela.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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