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Resenha: Reality Show (2015)

Álbum de Jazmine Sullivan

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Um Reality Show que vale a pena

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

03/10/2017

K. Michelle contou que atualmente os reality shows são uma das únicas vias de divulgação para cantoras negras de rhythm’n’blues. 

Exagero ou não, o álbum de 2015 de Jazmine Sullivan chama-se justamente Reality Show e segue hiato de 3 anos, quando a norte-americano afastou-se do cenário musical. Ela diz que o título é porque viu muitos desses programas enquanto estava “aposentada”, mas sabe-se lá se não é farpa contra a atual escassez de oportunidades pra quem faz som old school (meio 80’s no seu mais antigo). O que quer que signifique, Reality Show é um grande álbum. A voz granulada de Sullivan em canções produzidas por mãos diferentes, mas surpreendentemente homogêneas, prova que a cantora não pode parar para o bem da humanidade. É uma dúzia de coisas boas.

Na abertura de marcha rigorosa sincopada por hip hop, de Dumb, Sullivan já mostra quem comanda; é ela a voz, é ela a diva. O rigor continua com Mascara, mas dessa vez na letra, que joga luzes contraditórias sobre meninas que para escapar da pobreza do gueto se entregam a sugar daddies. O ponto de vista é de uma delas, que pergunta se ela também não tem direito às coisas boas da vida e sente-se insegura, porque a concorrência é enorme; se ela está com o bofe pelo dinheiro, ele também não está com ela por amor, não é enganado. Interpretada com uma nuança que necessita de várias audições para captar a insegurança. Aliás, Reality Show precisa de várias ouvidas atentas; Sullivan canta em camadas.

Às bases de soul contemporâneo, os arranjos adicionam detalhes, como o piano de salsa, em Silver Lining ou os metais de jazz, em Brand New. #HoodLove é trilha de Quentin Tarantino misturada com tema de Lana del Rey: uma mulher que carrega uma 45 na bolsa e tem macho que pode não ser bom, mas o é para ela. E a letra é cheia de bang bang, bitch e nigger. Ah, se nossos instruídos moralistas críticos da “pouca vergonha” do pancadão entendessem outro idioma que não só o português funcional...

Stupid Girl é super Amy Winehouse; que lindo ver branquela judia inglesa influenciado negras rhythm’n’blues; Stanley é neo disco que abre com palminha de Santa Esmeralda e ruído de electronica low fi. Daí chega o final catártico, com destaque para a penúltima faixa, Masterpiece (Monalisa), com sua autoconfiança inquebrantável, mas que expressa os 2 lados de qualquer um, representados pelas enérgicas guitarras e o fecho de piano suave. Sullivan sabe e pode sobrevoar e mergulhar, alternando momentos de alta potência com registros mais intimistas.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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