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Resenha: DaDa (1983)

Álbum de Alice Cooper

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Audição interessante, até...

Autor: Vitor Sobreira

14/02/2019

Caríssimo leitor, gostando você ou não dessa personalidade da Música Pesada – que segundo a lenda, obteve seu pseudônimo por meios sobrenaturais – conhecida como Alice Cooper, é fato que precisará admitir a importância dele no cenário mundial ao longo dos seus muitos anos de história. Começando ali no final dos anos 60 e adentrando a década seguinte ainda com sua banda, Alice almejou caminhar sozinho, carregando exclusivamente o seu nome. Mas, hoje, voltemos brevemente ao ano de 1983…

O dia 28 de setembro viu o lançamento de ‘DaDa’, o décimo quinto trabalho de Alice, lançado pela Warner e com nove composições integrando o track list. A misteriosa capa foi inspirada na obra “Mercado de escravos com o rosto de Voltaire desaparecendo”, de 1940, do artista espanhol Salvador Dali (1904-1989), quase que recompensando – mesmo que involuntariamente – a total falta de inspiração com a capa do trabalho anterior, ‘Zipper Catches Skin’.

Alice Cooper enfrentava um período negro em sua vida, devido aos abusos de álcool e drogas, refletindo inclusive em sua obra, entre o final dos anos 70 e inicio dos 80. Entretanto, se o ouvinte empregar alguma boa vontade, ainda poderá encontrar bons momentos em meio a esse “trecho esburacado”.

Apesar do som da década de 80 estar cada vez mais sendo definido, ‘DaDa’ ainda apresentava reflexos da década anterior e soa sim como um bom disco de Rock. Não sei se é impressão minha, mas um leve aroma de Progressivo permeia toda a audição – que se por um lado perdeu grande parte da “sujeira” e peso de outrora, ganhou em diversidade e momentos um pouco mais elaborados. Já em relação ao curioso título, ele faz referencia ao dadaísmo – um movimento da chamada vanguarda artística moderna, criado na Suíça durante a Primeira Guerra Mundial (para mais informações, consulte o oráculo de Google, ok?).

O álbum (quase) não conta com faixas ruins e o desempenho dos músicos é bem aceitável, mas aquele sentimento de que faltou algo a mais, não vai deixar você em paz – mesmo levando em consideração os fatores negativos da época, relatados brevemente acima.

Faixas de abertura são um caso complicado; ou são introduções instrumentais ou são faixas empolgantes ou são momentos de desperdício em um disco, que faz com que a pulemos nas próximas visitas sonoras. Aqui, “DaDa” se enquadra nesse último caso, com seus quase cinco minutos de enrolação e repetição. Cá entre nós, vá direto para “Enough’s Enough”. Isso mesmo, vamos poupar tempo e ir direto ao que interessa, pode ser? Enfim, a dita cuja é muito boa, mas logo vemos que as guitarras perderam um pouco do seu espaço, e ainda por cima tendo que dividi-lo com os teclados e sintetizadores de Graham Shaw e do produtor Bob Ezrin. Mas, quanto a isso, nenhum problema e seguimos a diante com a baladinha macia “Former Lee Warner”, que supostamente é uma beliscada na gravadora Warner.

“No Man’s Land” é um Rock bem agradável, já apresentando as guitarras mais na cara, com alguns riffs mais fortes e solos bem tocados. “Dyslexia” pode gerar curiosidade em seus segundos iniciais com uns efeitos malucos, tipo o Queen daquele mesmo círculo de anos, mas logo se acostumará a eles, pois a composição se mostra também bem interessante e com boas melodias (como as demais, verdade seja dita, para economizar no pleonasmo). “Scarlet and Sheba” é sobre uma espécie de fantasia sexual bizarra com duas mulheres (aparentemente barra-pesada), com alguns momentos mais pesados, mas meio que ofuscados por uma gravação que não foi das melhores.

Trazendo à tona o tradicional patriotismo estadunidense, Alice Cooper não poderia perder a oportunidade de fazer uma ode ao seu (superestimado) país em “I Love America”, clamando em tom quase narrativo o gosto por diversos aspectos da sua cultura, como a bandeira, apelidada de “Old Glory”, comidas, esportes, história e estilo de vida. Apesar do nauseabundo cheiro de ovos com bacon no ar, sinta a força do coro “I love America!”. Mudando totalmente de assunto, agora falando sobre um vampiro e sua ânsia por sangue fresco, “Fresh Blood” não segue o tema sombrio, mas tem um ritmo sensual, que me trouxe vagamente à lembrança os filmes da franquia ‘Rocky Balboa’ – no entanto, sem a adrenalina das lutas (!!). Investindo em um refrão quase forte, “Pass the Gun Around” encerra bem o álbum, de uma maneira mais contida.

Enfim, ‘DaDa’ pode não ser o trabalho mais apreciado da carreira de Vincent “Alice Cooper” Fournier, mas após uma honesta conferida, é fácil dizer que os bons momentos nunca mais serão esquecidos. Além disso, o trabalho começa a colocar um ponto final nos anos sombrios do vocalista e serve de prelúdio ao retorno em grande estilo aos dias dourados, que aconteceria a partir do sucessor ‘Constrictor’, lançado cerca de três anos depois.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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