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Resenha: Powerslave (1984)

Álbum de Iron Maiden

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Uma das maiores obras da história da música

Autor: Fábio Arthur

14/02/2019

Definitivamente o Iron Maiden comandou os anos oitenta com maestria dentro do Heavy Metal. Assim, o grupo seguiu uma linha segura e totalmente intensa. Para compreendermos melhor, entre 82 e 83, o Maiden reformulou seu som, atingiu os charts e elaborou um padrão diversificado e antológico na linhagem do rock pesado e/ou metal. 
Os maiores fatores foram determinados por suporte de gravadora – no caso aqui, a EMI -, profissionalismo do grupo e notadamente, um empresário de ponta e escudeiro fiel, Rod Smallwood. 
Foi então, com essas características, que o Iron Maiden traria consigo no ano de 1984 uma das maiores turnês e um espetáculo grandioso com efeitos, luzes, cenários, panos de fundo e o “mascote” Eddie, enorme e mumificado por detrás da bateria de Nicko McBrain – ele, Nicko em sua segunda tour com a banda. 
O nome do disco, “Powerslave”, fazendo referência ao Egito Antigo e com a temática estampada na arte criada pelo genial Derek Riggs, em que o mesmo trouxe a ilustração de uma forma abundante e que culminaria com o som exibido no disco. Ainda em se tratando de capa, a fotografia  do encarte remete o grupo em uma espécie de sala, como a de um sarcófago, em um clima bem direcionado ao conteúdo exibido no álbum. Essa arte - no caso a foto -, obra do fotógrafo Ross Halfin. 
Martin Birch, produtor da banda desde “Killers” de 1981, elaborou uma fonte de elementos bem criativos e dotada de detalhes específicos, que dão direcionamento incisivo para a obra. 
O material do álbum nos mostra o quão gigante o Maiden estava se tornando e o quanto o grupo tinha de talento para compôr. Steve Harris, Adrian Smith e Bruce Dickinson desta feita, exibem o seu melhor em um auge exemplar e muito amplo. 
Não há dúvidas de que o Iron Maiden, estava nessa fase muito entrosado e ainda o clima era agradável entre os integrantes da banda. O maior fator seria que o grupo, entre 84 e 85, seria uma das ou se não a maior banda de metal do planeta. 
Singles, vídeos e um álbum ao vivo duplo dariam segmento à coisa toda. Também a notável e fabulosa passagem da banda pelo Rock in Rio, em 85, faria com que o festival fosse enriquecido pela presença do grupo inglês. Alias, no dia 11 de janeiro, após a abertura com Whitesnake, o Maiden entraria ao palco antes do Queen e daria um concerto inesquecível, sendo a última vez em que abririam uma apresentação para alguma banda. Brian May, guitarrista do Queen, diria a Steve Harris após o concerto: “Vocês arrebentaram, que show fenomenal, que energia”. Harris, ficou feliz mas, ainda assim em dúvida, já que May era integrante de uma mega banda e achou que talvez o músico estaria apenas sendo educado como um bom britânico. 
Se tratando da qualidade musical, o Iron Maiden demonstrou toda sua relevância em que os integrantes, cada qual em seus respectivos instrumentos, demonstraram toda sua virtuosidade e competência, notadamente. Nicko, em seu segundo disco com a banda, traz um nível bem elevado em termos técnicos e os timbres exibidos dentro do long play são fenomenais; os sons dos tambores agregados às passagens bem marcadas e ritmadas, dão o tom necessário em toda a obra. A dupla Murray e Smith são de fato uma das maiores dentro dessa vertente, os mesmos conseguem manter a relevância em todas as suas criações para “Powerslave”, os riffs, as melodias, terças, quintas e oitavas, são cuidadosamente apresentadas e com maestria; além da timbragem de seus instrumentos. Harris, o homem líder e compositor, vem demonstrar toda sua desenvoltura, em que o mesmo se vale de arpejos e em outros momentos as linhas galopantes são também apresentadas, desta feita, sem igual. Na área vocal, Dickinson realmente nos remete em uma grandiosa interpretação das letras, assim também como o vocalista nos traz uma de suas melhores vozes entre os médios, graves e agudos, e os mesmos são todos exibidos muito acima de media e na medida certa; encaixando perfeitamente em cada canção do disco. 

Em termos de letras, as composições são realmente atrativas e fenomenais no disco como um todo. Podemos perceber as relações da banda com fatos históricos e sua cultura calcada em uma literatura abrangente, assim como também no mundo cinematográfico. O Iron Maiden nesse quesito – letras – sempre foi muito além das outras bandas, mantendo-se centrado em uma cultura muito incisiva. 

“Aces High” a faixa de abertura – canção de Steve Harris – nos brinda com uma muralha sonora e a mesma se desenvolve com riffs afiados e uma bateria totalmente impulsiva, dotada de uma velocidade exuberante. A letra da faixa nos remete claramente a um fator histórico, o período da Segunda Guerra Mundial, em que um piloto britânico em uma batalha aérea, relata sua visão pessoal de combate; todo esse diferencial interpretado com maestria por Dickinson. Os solos nessa canção são muito bem cuidados e intuitivos, bem construídos, culminando com a faixa de forma sublime e coesa. Outro momento interessante na canção se faz ao final, em que o ouvinte tem nítida impressão de que um avião começa seu declínio em direção ao solo. Faixa perfeita!

“2 Minutes to Midnight” remete a um tema muito falado durante os anos  oitenta: a Guerra Fria. Aqui, a composição nos mostra o lado sombrio de um terrorismo, seitas secretas e todo aquele apanhado de espionagem. O termo título da faixa: 2 minutos para meia-noite, foi trazido pelo grupo em referência ao chamado do “Relogio do Juizo Final”, em inglês: “A Doomsday Clock”, em que uma simbologia trazida pelo comitê da Universidade de Chicago nos EUA, remete em analogia de que a raça humana estaria em minutos antes de meia–noite, condenada e a mesma por sua vez, traz a consciência em que uma Guerra Nuclear seria o ponto principal da questão. Esse “relógio” estaria agregado nessa simbologia desde 1947, dois anos depois da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente. A canção traz uma linha hard rock e assim com a junção do heavy metal, acabou sendo uma das preferidas do disco, isso porque o peso, aliado ao refrão direto entre riffs precisos, remete em um clima que direciona o som característico do grupo entre o inovador e ate mesmo com tons americanizados em suas passagens, assim, ganhando força dentro do disco como sendo um diferencial em sonoridade. 

“Losfers Words (Big Orra)” a faixa instrumental em que a banda volta a revisitar o tema egípcio e assim o grupo remete em seu passado aonde mantinha as tradições de faixas sem os vocais. No entanto, essa era uma canção que estava sendo construída com as vocalizações e o tema principal seria a métrica de “Losfers Words”, assim, de alguma forma a banda deixou de lado e se concentrou em mantê-la como ficou. O grupo chegou a tocar a canção no início da turnê em 1984, mas depois resolveram abolir e manter outra faixa em seu lugar. Fica interessante ressaltar que o iron Maiden não faria mais nenhuma canção instrumental e assim deixando de lado uma vertente muito expansiva da banda. 

“Flash of the Blade” consegue trazer a tona a força das guitarras da dupla Murray/Smith. Aqui o dueto das mesmas formam uma junção altamente encorpada e mantendo linhas melódicas com maestria. O riff inicial e os solos fazem a diferença de forma significativa, dando um ar rasgado em que culmina com um refrão pegajoso e que por sua vez traz as dobras vocais de Dickinson em camadas extensivas e tonalidades altas, que se misturam entre os medias e os graves; tudo muito bem cuidado. A letra aborda o tema entre um jovem guerreiro que culmina em uma vertente entre algo medieval e ate mesmo uma vingança pessoal sugerida na mesma. Essa se tornou uma das canções preferidas do disco por muitos fãs, além logicamente das já citadas acima como referências. 

“The Duelists”, uma faixa bem acelerada e muito bem elaborada. Segue com refrão simples, mas seus riffs e seu andamento são realmente muito bem estabelecidos, deixando a canção muito pesada e coesa. A letra baseada no livro de Joseph Conrad intitulado de Os Duelistas, traz uma batalha “eterna” entre dois oficiais franceses do Grande Exército de Napoleão Bonaparte – na verdade os dois cavalheiros, estão proibidos de duelar, pois o tempo era de guerra. Mesmo assim, a vida dos dois homens nunca mais seria a mesma, - eles em cada encontro, acabam se enfrentando com suas espadas e isso seria uma constante em suas vidas em anos a fio. Seriam na verdade dois homens frustrados e que não dariam uma trégua ao tal duelo. O enredo do livro se passa exatamente no século XIX, bem no início dele. O clima da obra literária acaba por se ambientar na Europa, em várias regiões e tendo como fundo, como já mencionado, as guerras de Napoleão. O livro acabou por gerar um filme em 1978 dirigido pelo mestre Ridley Scott (Alien O 8 Passageiro, Blade Runner, entre inúmeros outros grandes filmes), assim, muito do que se lê na letra, acaba também por envolver algo da película; o que não acabou afetando a composição e sim agregou e muito. E apesar de a canção ter sido composta por Harris, sabe-se que Bruce Dickinson se tornou esgrimista e admirador de todo conteúdo envolvendo o esporte. 

Em “Back in the Village”, aqui os riffs iniciais são de Adrian Smith e também podemos notar o peso do baixo e bateria que culminam com os vocais bem articulados e expansivos de Dickinson. Inclusive, pode-se notar um tom de Southern Rock na introdução da canção, mas com a vertente acelerada e isso não deixa de forma alguma a faixa cair em sua qualidade sonora. Adrian Smith sempre contribuiu com Maiden de forma mais ampla, sem perder o padrão concebido do grupo, isso ficaria latente mesmo em “Killers”, que foi sua estreia na banda. A letra vem nessa música dar continuidade à canção “The Prisoner”, de 82 e do disco “The Number of the Beast”. A temática mostra abertamente um agente do governo britânico que se torna reconhecido como número 6 e acaba indo para uma vila em que a mesma se faz uma espécie de prisão ao qual o tal agente tenta escapar não somente da vila mencionada, mas sim das torturas exercidas dentro dela. Um fato muito peculiar dessa canção, foi que ela acabou sendo colocada no álbum como a sexta faixa, isso em referência do número do personagem, ou seja, do agente citado. Essa canção faz a ponte para o final apoteótico do disco e acabou deixando um equilíbrio e clima perfeitos. 

A canção título, “Powerslave”, nos brinda com uma faixa nascida clássica e permeada por um clima bem ao estilo Oriente Médio, seus riffs, melodias e solos, são altamente bem construídos e as nuances junto à desenvoltura da bateria de Nicko, fazem dessa uma das melhores do álbum. A mitologia egípcia se torna latente nessa incursão e os vocais de Dickinson são muito sombrios, dando o tom necessário para interpretação. A letra sugere um Faraó que esta prestes a morrer, e assim personagens do Egito Antigo são citados dentro do enredo. Os solos são muito imponentes nessa canção, a forma como foram inseridos trazem um ápice em que após os mesmos a faixa caminha para um final apoteótico com um clima perfeito e bem uniforme, que dão a exata sensação de um épico faraônico. A música foi escrita por Dickinson e se tornou um das melhores canções já concebidas pelo grupo.

“Rime of the Ancient Mariner” é uma obra intensa e bem desenvolvida. Foi a primeira vez em que o Maiden chegou a realizar uma canção longa nos moldes progressivos – que são uma influência para Steve Harris -, assim, tanto sua melodia quanto sua letra, denotam uma expressiva qualidade musical em que, devido ao tamanho dessa, a banda optou por gravar em três partes distintas; sendo mais fácil de conduzir a montagem final em estúdio. A música foi criada por Harris e a letra inspirada no livro/conto – ou como muitos afirmam – um poema de Samuel Taylor Coleridge (1772 – 1834), o qual foi um dos autores que deu início à literatura romântica na Inglaterra. A obra foi publicada em 1798, mas hoje as versões trazem traduções para vários países, inclusive no Brasil. O inglês arcaico do conto, misturado ao enredo, torna o poema sombrio e ao mesmo tempo muito instigante. A ideia central do livro mostra um marinheiro vivenciando eventos sobrenaturais durante sua viagem em alto-mar. Um albatroz guia a embarcação por um canal ate a Antártica, mas o barco acaba sendo desviado de seu curso por uma tempestade. Assim, um bom tempo depois, o marinheiro acaba por ferir e matar a ave que guiara sua navegação, então a tripulação se vê assombrada por espíritos e culpam o velho marinheiro pelo fato. No caminho, a tripulação encontra com uma embarcação fantasma, guiada por uma “Mulher Pálida” e um esqueleto representando a “Morte”. Então, segue o conflito com a tripulação morrendo um a um, deixando o velho marinheiro ao destino e sofrimentos. Se tratando do instrumental, ao miolo da faixa, podemos em meio à calmaria, sentir o tom denso que nos remete ao discurso tirado do livro, assim envolvendo-nos por inteiro. As frases musicais, aliadas ao ranger da embarcação, trazem exatamente o Ato seguido dentro da estória e ao seu final temos a nítida sensação de sairmos de um nevoeiro obscuro; genial e profundo, a banda consegue realmente nos levar para dentro da situação. Essa faixa, com mais de treze minutos, nos mostra não somente uma das melhores, como também remete o ouvinte a um arrepio na espinha por tamanha desenvoltura das frases e alternâncias de andamentos. 
Abaixo nesse trecho do livro/poema, podemos compreender um pouco da escrita de época e de onde a banda conseguiu extrair tamanho conteúdo clássico e cultural.
“A Balada do Velho Marinheiro” por Samuel Taylor Coleridge.

Pagina 36 – A Terra do Gelo

“Sem qualquer sinal de homem ou besta, tudo era gelo à nossa vista!
Movia a mercê da correnteza
E transluzia uma cor sinistra”.

O Iron Maiden, em “Powerslave”, trouxe uma obra essencial, não somente aos fãs, mas em sua carreira. O disco acabou sendo parte do auge do grupo em vários países e assim ainda hoje permanece intacto como obra-prima em perfeição. A banda se valeu de melodias, guitarras pesadas e um arsenal de outros valores conduzidos com a maestria de uma banda profissional e que tinha cabeças jovens e promissoras. Um dos maiores feitos do metal, sem dúvida alguma, entrou para a história da música como um disco perfeito e sem fronteiras, sendo um deleite para os ouvintes e fãs. 
Up The Irons!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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