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Resenha: Philharmonics (2010)

Álbum de Agnes Obel

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Uma marcante e curiosa estreia

Autor: Vitor Sobreira

17/01/2019

Estando eu há cerca de quatro anos escrevendo sobre Metal e Rock, confesso que este será o primeiro texto que elaboro que não seja sobre os estilos supracitados. Não escondo também que a musica de Agnes me pegou de jeito, tanto a ponto de ao menos me fazer tentar escrever sobre o seu trabalho. Bem... Vamos lá?

Até um ano atrás, jamais imaginaria que a Dinamarca de King Diamond também abrigasse esse outro talento da música – ainda que como disse, sem qualquer tipo de ligação com o som pesado que tanto aprecio -, chamado Agnes Obel. Vocalista, multi-instrumentista, compositora e produtora, é filha de músicos e como é de se imaginar, desde cedo o contato com notas e melodias se fez presente em sua vida. Após participar de alguns projetos, lançou em 2010 o seu debut ‘Philharmonics’.

O álbum nos apresenta doze músicas que transitam alquimicamente entre elementos da Música Clássica, R&B, Indie, Pop, Folk, talvez algo a mais e um direcionamento mais focado ao piano. Entretanto, tudo recebe tons intimistas e elegantes, muito bom gosto, além de facilmente conseguirem expressar um sentimentalismo impressionantemente verdadeiro. Também acho curioso notar, que climas sombrios e melancólicos também permeiam a obra, bem como a impressão de que tudo soa atemporal, já que algumas composições são mais atuais e outras dão a impressão de que foram compostas dezenas de anos atrás – mais especificamente em algum lugar fantástico do início do século XX (mas é claro, que essa observação é estritamente pessoal, e é o que sempre me vem à cabeça ao escutar-las).

Com olhar penetrante e em cores frias, a própria Agnes estampa a capa do seu primeiro disco solo, que por sua vez conseguiu boas colocações nos charts da Bélgica, Dinamarca, Holanda e França. Estima-se que apenas na Europa, o trabalho tenha vendido mais de 450.000 cópias.

“Falling, Catching” e “Riverside” iniciam muitíssimo bem ‘Philharmonics’, com a primeira sendo inteiramente uma belíssima e profunda peça de piano e a segunda (a primeira faixa que conheci, através do seriado ‘O Nevoeiro’ – que infelizmente não passou da primeira temporada), já apresenta a doce voz de Agnes junto ao piano. “Brother Sparrow” traz simples arranjos de violão, assumindo uma faceta discretamente mais atual – será que se poderia chamar de Indie? A calma “Just So” se equilibra entre melodias impecáveis e um bom refrão, até que mais uma dupla de causar arrepios dá o ar da graça: “Beast” – mais uma vez no esquema voz e piano, com andamento um pouco mais acelerado (em comparação às outras músicas) e um sentimentalismo quase épico – e a misteriosa instrumental “Louretta”, com suas melodias alucinantes.

Algo essencial em qualquer trabalho musical é a obrigatória diversidade de suas composições e, ao chegarmos ao meio dessa audição, podemos perceber isso claramente. Damos continuidade com a atual “Avenue”, a ótima faixa título “Philharmonics” e o cover “Close Watch”, de John Cale – que cá entre nós, ficou muito melhor do que a versão original, onde Agnes soube como ninguém aproveitar o ambientação misteriosa, deixando a composição ao seu estilo. Falando em mistério, “Wallflower” é mais uma instrumental quase que assustadora, que poderia ser utilizada em alguma cena, de algum filme de horror ou suspense de época.

Como se estivesse saindo de um salão sombrio, “Over the Hill” delicadamente conduz o ouvinte a um lugar um pouco mais iluminado, trazendo de volta as linhas vocais da senhorita Obel. Para finalizar “On Powdered Ground”, além do piano e vocal, traz arranjos de cordas que foram muito bem inseridos à faixa, encerrando assim este curioso, impactante e sentimental ‘Philharmonics’.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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