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Resenha: Days Of Future Passed (1967)

Álbum de The Moody Blues

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Obra-prima de relevância transcendental para o desenvolvimento do prog rock

Autor: Tiago Meneses

28/03/2020

Assim como eu vejo discussões em relação ao Pink Floyd, também percebo em relação ao The Moody Blues e o fato da banda ser uma banda de rock progressivo ou não. Acho que banda teve sim muitas vezes uma abordagem progressiva e alguns elementos distintos que caracterizam o gênero. Isso é o suficiente? Vai de cada um, vamos falar sobre a música que é o mais interessante no momento. 

Mas independente do que uns acham ou não, algo completamente inegável é que eles se tratam de um dos predecessores do gênero, principalmente devido ao seu disco Day of Future Passed, um disco com muitos elementos progressivos como o mellotron e a inclusão de uma orquestra, além de uma fusão de gêneros. Tudo bem, nenhum desses elementos era novidade dentro do rock, mas foi uma das primeiras vezes - pra muitos a primeira – em que todos eles foram usados juntos. 

Esse disco é um disco conceitual – um tipo de trabalho mais comum em bandas de rock progressivo - onde o tema nas palavras da própria banda é sobre, "uma jornada comum da existência humana, do nascer do dia ao pôr do sol". Em sua defesa estão aqueles que o colocam como o primeiro disco conceitual da história do rock, pois embora outros discos lançados antes como Sgt. Pepper's (Beatles), Little Deuce Coupe (Beach Boys) ou Freak Out (The Mothers of Invention) sejam vistos como conceituais, lhes faltam a mesma solidez que tem em Days of Future Passed, onde claramente a história de cada música está perfeitamente uma na outra.

O ano de 1967 foi bastante importante para o rock, a psicodelia britânica estava atingindo sua maturidade, onde também lhe foi necessária uma mudança de direção para se transformar no rock progressivo. Days of Future Passed é certamente um desses primeiros passos, o clima agressivo e muitas vezes até lisérgico dessa época não foi encontrado tanto assim no álbum, o disco é muito mais lírico e ambicioso. 

“The Day Begins” é a primeira música do disco e como costuma ser em muitos discos conceituais, faz uma releitura dos temas que serão encontrados no decorrer da obra, mas feita de forma apaixonada através de um forte trabalho orquestral. Há também um poema recitado que a orquestra responde gentilmente ao fundo. Um começo de disco que já antecipa que o ouvinte não está diante de um álbum qualquer. 

“Dawn: Dawn Is A Feeling” é onde de fato a banda começa a se apresentar. Uma música descontraída com arpejos de piano e uma das marcas registradas da banda que é o mellotron. Se a ideia é mostrar o dia de uma pessoa, esse começo carrega muito bem a atmosfera do dia que se inicia por um nascer do sol. As letras são muito boas e soam sofisticadas, mas ao mesmo tempo, parecem um pouco influenciada por ácidos. 

“The Morning: Another Morning” é a música de Ray Thomas, onde ele escreveu, cantou e tocou flauta. É uma música bem divertida, mas também meio brega. Eu poderia dizer que é uma música fraca se eu a ouvisse isoladamente em outro lugar, mas dentro de toda a experiência do álbum funciona muito bem, principalmente quando a orquestra se junta a ele. 

“Lunch Break: Peak Hour” começa com um trabalho da orquestra trabalhando de maneira agitada e alegre. Essa música tem uma sonoridade que é impossível não lembrar os filmes antigos da Disney. Em seguida ela se transforma e o agito agora é sem dúvida a parte que mais soa como uma genuína música 60’s. Inclusive nos remete um pouco ao som do Pink Floyd da época. 

“The Afternoon: Forever Afternoon (Tuesday?) / Time To Get Away” pode facilmente ser considerada a melhor música de toda a carreira da banda, inclusive, eu mesmo a considero dessa maneira. É perfeita em todos os sentidos, destacando o interlúdio orquestral no meio que depois se junta a uma música sombria. Há também um bom uso de mellotron e um final belíssimo em que a flauta flui para uma orquestra de som feliz. 

“Evening: The Sun Set: Twilight Time” é basicamente um conjunto de três partes, a primeira sendo, “Evening” que apresenta algumas orquestrações, a segunda, “The Sunset” que é a mais sinistra das três e por fim, “Twilight”, que é a minha preferida, com seu piano de cauda e melodias vocais fantásticas. Mas o resumo é que as três partes são ótimas e proporcionam uma excursão musical agradável e até meio excêntrica. 

“The Night: Nights In White Satin” é a faixa que encerra o disco e com certeza uma das músicas mais conhecidas da banda. Arrepiante em tudo, o solo de flauta - algo creio eu que era inclusive incomum naquela época em uma banda de rock – os estilos sinistros dos vocais e a pura vulnerabilidade da narrativa fazem dessa música um clássico atemporal absoluto que por mais que escutemos várias vezes seguida, sempre soa com o mesmo frescor e jamais enjoativa. Uma música perfeita que finaliza um disco igualmente perfeito. 

Às vezes me pergunto se a banda quando estava gravando Days of Future Passed, também estava consciente de que estava ajudando a criar um novo gênero. Independente de sim ou não, algo diferente eles queriam e isso certamente eles fizeram. Uma obra-pima onde a sua relevância no desenvolvimento do rock progressivo é tão transcendental que toda pessoa com a mínima simpatia que tenha pelo gênero deveria conhecer esse disco.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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