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Resenha: Legendary Tales (1997)

Álbum de Rhapsody of Fire

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Músicas lendárias!

Autor: Tarcisio Lucas

04/01/2019

Pouco antes dos filmes da trilogia do Senhor dos Anéis ganharem vida para impressionar a todos e mudar a forma como encaramos o conceito de "épico" no mundo das artes, uma certa banda italiana fazia sua estréia contando uma história fortemente inspirada por Tolkien (em maior grau) e outros escritores de fantasia medieval (em menor grau), estreando com um álbum que ousava em mesclar a musica medieval e barroca ao heavy metal melódico que fazia sucesso na época. Estamos falando, logicamente, do Rhapsody of Fire, que nessa época - 1997 -  ainda se chamava apenas "Rhapsody".
Verdade é que o som que a banda apresentava não era de fato uma novidade. Havia muitas bandas que usavam influências clássicas em suas composições, como o Stratovárius; e tampouco a abordagem fantasiosa era novidade, uma vez que o Blind Guardian (só para citar um exemplo) já fazia o mesmo desde os anos 80.
Dito isso, como podemos explicar o impacto que esse debut teve em sua época, sendo até hoje considerado um marco dentro do estilo a que se propõe?
Bom, a verdade é que certos aspectos da realidade sempre permanecerão um mistério, e o que apresento a seguir se trata apenas da minha visão das coisas.
O que o (até então) Rhapsody apresentava de diferencial era o exagero. "Exagero" é uma palavra usada quase sempre dentro de uma conotação negativa, mas não aqui. O exagero de que se serviu a banda - não apenas aqui, mas ao longo de toda sua trajetória, até os dias atuais - foi um feliz e muito peculiar caso de "exagero do bem". Deixe-me explicar.
Tudo nesse disco é exagerado; a instrumentação, que insiste em colocar passagens eruditas e sobreposição de instrumentos de banda junto a instrumentos de orquestra é uma constante, sendo muito dificil encontrar alguma passagem, por mais curta que seja, que não tenha alguma orquestração rolando. O coros, especialmente nos refrões, são grandiosos, pomposos, levados ao limite do que seria o bom senso, e ainda assim funcionam maravilhosamente bem.
Liricamente, a banda parecia ter pego todos os exageros que o Manowar já cometia, e elevou-os à milésima potência, contando uma história épica sobre um mundo medieval tomado pela eterna luta do Bem contra o Mal. Temos "guerreiros do Gelo", "Senhor do Trovão", "Terra dos Imortais", "Espada de Esmeralda", elfos, unicórnios, reis imponentes, e todos os outros clichês que esse tipo de história pede.
Resumindo, a banda tomou e aglomerou uma serie de elementos que tinha tudo para soar pretensioso e deslocado. Soa pretensioso:? Com certeza! Mas...soa deslocado? De forma alguma.
Por trás de toda essa megalomaníaca empreitada estavam músicos do mais alto gabarito, tanto na parte técnica quanto composicional. As partes barrocas e medievais realmente são compostas utilizando procedimentos de contraponto, harmonias e melodias característicos da musica do período, ao passo que a parte mais "metal" tem um virtuosismo bastante explícito, repleto de passagens velozes, solos, arpejos, ritmos complexos.
Muito mais que criar um desastre musical, como poderia facilmente ter descambado para isso, a banda criou uma fórmula que seguiria fielmente pelos anos que se seguiriam. 
Desde esse inicio, a banda parece ter se enquadrado dentro daquele seleto grupo de conjuntos que podem ser classificados entre "Ame-o" ou "odeio-o". Mas independente de qual lado da balança você se encontre, verdade é que é muito difícil ouvir 30 segundos de uma musica dos caras sem sacar imediatamente de quem e do que se trata.
Esse lançamento gerou - e volta e meia ainda gera - uma série absurda de bandas que seguiam a mesma toada, seja lirica, seja sonora. Algumas bandas se aproximavam tanto do som da banda que poderiam ser chamadas de bandas "clones".
Outra coisa que podemos dizer sobre a banda é que a mesma sempre se sentiu confortável dentro dos parâmetros que havia criado. Se você ouvir um disco da banda, terá uma visão claríssima de como são todos os outros álbuns do conjunto, uma vez que a banda nunca se afasta demasiado da sua essência.
Como fato negativo, cumpre citar a eterna e interminável troca de cadeiras que acontece no grupo, que nunca permanece muito tempo com o mesmo line up. E como se não bastasse, o guitarrista Luca Turilli, um dos membros fundadores da banda junto com o tecladista Alex Staropoli, tem o direito legal de utilizar o nome "Rhapsody" - incluindo com o mesmo logotipo - em seus projetos solos, o que torna tudo um tanto quanto confuso a vezes.
Muitos dizem que, devido a tantas mudanças de integrantes e pela passagem do tempo, a banda se tornou uma paródia de si mesma. Bom, deixo essa questão para outro momento, uma vez que aqui falamos apenas do primeiro disco, quando tudo era ainda fresco e o som da banda uma novidade. Não há como errar com esse disco aqui.

Pegue sua espada, vista sua armadura mistica, e vá cavalgando em direção ao horizonte ao som de "Legendary Tales"!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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