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Resenha: Blow by Blow (1975)

Álbum de Jeff Beck

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O Guitarrista se encontra nas ondas sonoras do fusion!

Autor: Márcio Chagas

23/12/2018

Em 1973 Jeff Beck havia encerrado seu power trio Beck Boggert & Appice e procurava novas formas de se expressar.  O músico começou uma amizade com o guitarrista John Mclaughlin e passou a se interessar por bandas de jazz rock como o Mahavischnu Orchestra.

Na mesma época começou uma improvável parceria com Sir George Martin (considerado o quinto Beatle), e os dois se reuniram no Air Studios de propriedade do produtor para idealizarem o que viria a ser “Blow By Blow. O guitarrista reuniu um time invejável de músicos como o pianista Max Middleton, que havia tocando no Jeff Beck Group, combo do próprio guitarrista, o baixista jamaicano Phil Chen, com forte influência soul e funk, e o baterista Richerd Bailey  

Em sua primeira viagem instrumental pelo fusion, o guitarrista envereda por novos caminhos musicais usando e abusando do groove vindo da cozinha experiente de Chen e Bailey,   mostrando seu lado soul e trazendo reinvenções inspiradas de compositores consagrados, tudo sob a batuta do produtor George Martin

O álbum começa com "You Know What I Mean", que possui um groove genial entre a guitarra de Beck e o piano de Middleton amparado por uma cozinha segura e coesa. No decorrer do tema, o guitarrista exterioriza seu lado rockeiro com excelente solo em meio ao balanço do tema;

A faixa seguinte "She's a Woman” é um tema da dupla Lennon e Mccartney. Beck subverteu a canção utilizando uma base reggae e adicionando efeitos de Talbox, recurso em que o músico canta com um efeito na boca ligado diretamente na guitarra. Este efeito ficaria famoso anos depois com Peter Frampton;

O fusion realmente dá as caras em "Constipated Duck",  um curto tema de autoria de Beck. Os teclados de Max servem de base para os solos de Beck que aparecem duelando com a bateria sincopada de Bailey. 

"Air Blower" é o único tema creditado a a todo grupo. Começa com um groove monstruoso de Chen, seguido rapidamente pelos demais músicos. É um dos melhores temas do álbum e uma faixa sempre muito subestimada inclusive pelo próprio guitarrista. Não há um destaque entre os músicos, todo o grupo se torna uma só unidade na construção do tema.  Detalhe: preste atenção na quebra de andamento no final da canção;

Fechando o lado “A” do antigo vinil temos "Scatterbrain", um clássico do repertório do guitarrista. A composição de autoria de Beck e Middleton poderia facilmente estar em um disco da Mahavischnu Orchestra tamanha a complexidade do tema. A guitarra de Jeff obviamente tem destaque, mas vale mencionar que todo o grupo trabalha em torno do instrumento do líder, valorizando o tema e criando um contraponto com a guitarra. Aqui há ecos de jazz, funk e soul music de maneira bem homogênea;

"Cause We've Ended as Lovers"  inicia a segunda parte do álbum, ou lado “B” como preferirem. é uma composição de Stevie Wonder e que o guitarrista dedica sua versão  a Roy Buchanan. É uma balada totalmente calcada na guitarra com um lirismo de deixar qualquer guitarrista de rock progressivo com inveja. Basta dizer que Beck executa a canção até os dias de hoje em suas apresentações;

“Thelonius"  é outro tema de Wonder e conta com o próprio nos teclados. A admiração mútua entre Beck e Wonder era notória nos anos 70, com o guitarrista participando do disco “Talk Box” do cantor. Em “Blow By Blow”  Stevie retorna a gentileza e ambos homenageiam uma dos maiores pianista do universo do jazz, Thelonius Monk.  O tema é bastante influenciado pela soul music, com guitarra e teclados em evidência boa parte do tempo;

A próxima faixa "Freeway Jam" ou jam da auto estrada como o nome sugere,  é um improviso que teve como inspiração as loucas auto estradas americanas com seu caos controlado e seus carros velozes. Nem preciso dizer que o tema é dinâmico e sincopado como a inspiração de Jeff, que mais uma vez  arrasa em seu instrumento;

Encerrando o álbum temos “Diamond Dust". A última faixa é também a mais longa do disco.   Um tema lento e contemplativo, com ares cinematográficos e belos dedilhados de guitarra acompanhados de arranjos orquestrais idealizados pelo produtor George Martin;

O álbum foi lançado em março de 1975 e chegou em 4º lugar nas paradas da Billboard, um feito notável para um álbum completamente instrumental. Tal sucesso de crítica e público deixou o guitarrista ainda mais animado a se enveredar pelos caminhos do jazz rock, atingindo seu amadurecimento musical em “Wired” seu disco seguinte.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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