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Resenha: Sticky Fingers (1971)

Álbum de The Rolling Stones

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Ladies and gentlemen: The Rolling Stones!

Por: Márcio Chagas

23/12/2018

Mais do que um clássico do grupo e do rock mundial, este disco representa um novo começo para a banda. No inicio dos anos 70 o grupo se recuperava da traumática perda de Brian Jones, celebrava a entrada do novato Mick Taylor, encerrava um contrato problemático com a Decca Records e pela primeira vez lançava um trabalho com a marca que ficaria mundialmente conhecida: a famosa língua idealizada pelo artista plástico John Pasche. Nada mal para começar uma nova década não é mesmo?
É óbvio que a entrada de Mick Taylor deu novo ânimo ao grupo. Bem diferente de seu antecessor, o guitarrista possuía uma técnica refinada, com raízes no blues e no rock, sendo hábil em várias técnicas como o slide. Poucos sabem, mas devido ao vicio em heroína de Keith, a maioria dos duetos de guitarras que aparecem no disco são obras de Jagger e o novato Taylor.  Em algumas faixas é notória a ausência de Keith, uma vez que a concepção do instrumento se mostra completamente diversa do que o guitarrista geralmente usaria se estivesse presente.
A capa também trouxe novidades além do citado logotipo. Idealizada por Andy Warhol, as primeiras edições possuía um zíper de verdade, que podia ser normalmente manuseado e quando aberto, mostrava o modelo da capa usando cuecas de algodão. Talvez hoje em dia ela seja considerada normal, mas você deve se lembrar que o disco foi lançado em 1971. Muitos pensaram que o modelo da capa era Mick Jagger, porém, anos depois algumas fontes ligadas ao grupo informaram ser  do modelo Joe Dallesandro, fato nunca devidamente confirmado.
As sessões de gravação foram realizadas entre varias turnês do grupo, fazendo com que as canções fossem finalizadas paulatinamente. Esse fato deu ao grupo mais tempo para repensar determinados arranjos das canções que entrariam no álbum.
“Brown Sugar” abre o disco de maneira apoteótica com seu riff marcante. É um clássico, obrigatório nos shows do grupo até os dias de hoje. Aqui começa também uma nova e prolifica parceria: a com o saxofonista Bobb Keys.  É dele o solo de sax presente na canção. Keys iniciaria uma grande amizade com Keith, e ambos travavam porres homéricos após cada apresentação. Bob acompanhou  o grupo até sua morte em dezembro de 2014. Quanto ao famoso riff da música, ao contrário do que muitos pensam foi composto por Jagger e não por Richards;

Na faixa seguinte “Sway” é claramente perceptível que quem comanda a guitarra base é Jagger, munido de sua ocasional Fender Stratocaster. Não é um rockão, mas também não é uma balada. Podemos considera-la um pop musculoso com ótimos vocais e um solo magistral de Taylor;

A balada “Wild Horses” tem um forte pegada country com um belo trabalho de violões. A canção que também se tornou clássica é um ótimo exemplo de integração da dupla Jagger/Richards;

Em seguida temos a melhor faixa do álbum, "Can't You Hear Me Knocking", um riff forte calcado em cima de uma base sólida e os vocais característicos de Mick, que aqui soam mais rasgados e fortes. É a maior faixa do álbum, com mais de sete minutos. Após os primeiros três minutos a canção se desencadeia para uma jam session genial com o sax de Bob Keys a frente amparado pela percussão de Jagger e Jimmy Miller além da guitarra de Mick Taylor. Aliás, sobre esse final em clima de jazzístico e improvisado o guitarrista declarou certa vez: ”... a jam no fim aconteceu por acidente, nunca foi planejada. Perto do fim da música, eu senti que era para continuar. Todos já estavam abaixando seus instrumentos, mas o tape ainda estava rolando e soou bem, então todos pegaram de novo as coisas e continuaram a tocar".
A curta ‘you Gotta Move” é blues tradicional, onde foram utilizados dobro e guitarras com slide características do estilo. O grupo nunca negou a influência vinda do delta do Mississippi e manda muito bem no estilo;

“Bitch” abre o lado “B” do antigo vinil de maneira atrabiliária, com um belo Riff de guitarra amparados por naipe de metais e novamente os vocais mais rasgados de Jagger. Mais um grande tema rock como só os Stones sabem fazer;

“I Got Blues” dá uma quebrada no disco. É um blues com andamento pra lá de arrastado, com influência da musica gospel e contando com Billy Preston como convidado no órgão, que se destaca com um belíssimo e passional solo;

A Cadenciada “Sister Morphine” é uma colaboração entre Jagger, Richards e a cantora Marianne Faithfull, namorada do cantor na época. Ela havia gravado a canção dois anos antes, mas os Stones mudaram os arranjos e incluíram ao fundo uma slide guitarra tocada por Ray Cooder. Nos anos 90 a cantora travaria uma batalha judicial com a banda pelo reconhecimento de sua co-autoria na canção, conseguindo o direito de ser creditada ao lado da dupla;

‘Dead Flowers” é uma canção com belos violões e guitarras slide enfatizando uma influência country. Possui uma letra melancólica que Jagger afirma ter escrito sozinho em sua casa. Já disseram que a letra fala sobre a dependência em heroína, mas ninguém do grupo confirmou tal fato;

Encerrando o petardo vem “Moonlight Mile” é uma balada folk com um belo trabalho de watts nos tambores. É como se o grupo quisesse preparar o ouvinte para o encerramento do álbum e fosse desacelerando aos poucos.
Além de trazer renovações para o grupo em todos os aspectos, é perceptível que em  “Sticky Fingers” vemos uma banda muito mais madura musicalmente, seja na construção dos temas, concepção dos arranjos ou na performance individual de cada um. O disco lançado em abril de 1971 é um clássico do rock mundial e precursor de uma nova fase na carreira da banda. Um item essencial na coleção de qualquer pessoa que aprecia o bom rock.

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