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Resenha: Nostalgia Da Modernidade (1995)

Álbum de Lobão

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Sem medo de ousar

Autor: Marcel Z. Dio

11/12/2018

Vamos esquecer um pouco as ideologias políticas de João Luiz Woerdenbag Filho, e mergulhar na sua obra mais eclética. 
Nostalgia da Modernidade (que nome contraditório hein?) é seu trabalho mais arriscado e evoluído, seja em produção ou letras maduras, compostas em boa parte, com sua mulher e o sambista Ivo Meireles. Trocando em miúdos, trata-se de uma fusão entre rock, blues e samba.

A angústia suicida exposta em "A Queda", é por muitos, o elemento principal do disco, pela alta exposição nas FMs, mas isso era só a superfície de um trabalho cheio de variáveis, de faixas pouco divulgadas e tão boas quanto.
E como é agradável ouvir canções como o "Jogo Não Valeu", e ver tudo funcionando como uma banda, aliando boas letras e um instrumental preciso, sem ficar refém de um cantor "estrela".
E se Lobão reclamou tanto da produção precária nos anos 80, aqui não tem o que tirar e nem por !!.

"Flor do Vazio" rivaliza com "Hora da estrela" como melhor balada de sua carreira. De uma beleza única, assessorada por sublimes arranjos de cello, viola, piano, violinos e oboé. Bela e delicada, a letra poética fica acima de qualquer suspeita. Sinto pena por quem acha que a trajetória de Lobão acabou nos anos 80.

Cantada em tom de ironia, "Samsara Blues", é esquisita e saborosa ao mesmo tempo, um tapa em luva de pelica, que segundo ele, é contra a rebeldia estereotipada, e a caretice moderna.
Seu refrão incongruente, dá um nó na cabeça !!, o ouvinte pode ficar horas imaginando o que ele quis dizer com a frase : "Fé Cega é remorso na contramão", e não chegar a conclusão nenhuma ...

O samba a moda antiga, dá as caras em "Luz da Madrugada", já em "Coração Aberto" ele aborda temas de música nordestina com o rock.
A grande sacada do velho Lobo, foi espantar o esteriótipo roqueiro criado nos anos 80, ao mesmo tempo desmontado a força, no fatídico episódio no Rock in Rio, foi ali que ele acordou e cresceu como artista. Afinal, misturar estilos que vivem no extremo, tal qual o rock e o samba, demanda ousadia e bagagem musical.

Misturando disco music, rock e outros "utensílios", a surpresa vem com o "Diabo é Deus de Folga". A letra deixa em aberto algumas questões sobre a fé como forma fantasiosa, fazendo as pessoas refletirem sobre coisas que são meramente obra do acaso e não um milagre.

Não vou comentar sobre "Hora da Estrela", seria um pecador se assim fizesse, apenas ouça e surpreenda-se !.

"Dé Dé Dé Dé Déu" é uma tiração de sarro tardia com os headbangers e a rebeldia de boutique, uma forma de canção resposta, (muito usada no ramo sertanejo). Preste atenção na letra, e dê altas risadas !.

O samba partido alto da faixa título, consuma o álbum nos padrões de "Ai, que saudade da Amélia" na versão moderna (imortalizada na voz Nelson Gonçalves). Quem gosta de samba, vai adorar, quem não é adepto, é só pular e degustar a parte convencional.

Nostalgia da Modernidade é capital para entender a evolução de Lobão, que ao contrário de seus companheiros de profissão, progrediu nos anos 90.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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