Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Milton (1970)

Álbum de Milton Nascimento

MPB

Acessos: 589


Porque vocês não sabem do lixo ocidental!!!

Autor: Glauco Scaglia

08/11/2018

O negro príncipe desvela-se nesta que é uma de suas obras-primas.
Milton!

Lembro-me de, em um 3 em 1 - Duplo Deck da Pionner que era de meu pai, ouvir na rádio pela primeira vez os versos:
"Eu sou da América do Sul
Eu sei, vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do ouro, eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais"

E a pergunta que surgiu logo após a música (que havia me deixado paralisado) acabar foi: "O que foi isso? Qual o nome da música?".
Claro que, a esta altura, eu já sabia quem cantava. 
Só podia ser Milton!
Mas e agora? Qual era o nome da música? Pra quem perguntar?

Minhas aventuras na MPB nasceram comigo. Meus pais nunca foram fãs deste estilos, bem como meus irmãos. E assim, das perguntas, procurei as respostas no ar.

Saí por aqui e ali perguntando para qualquer um disposto a falar de música se já haviam ouvido o trecho "Sou do mundo, sou Minas Gerais".
E a resposta veio de onde eu menos esperava: Numa fita K7, guardada no fundo de uma caixa, dentro de minha própria casa!
Juro que até hoje não sei quem gravou. Cheguei a perguntar pra todos dentro de casa, mas sequer se lembravam à época que aquela fita existia.
Isso já não importava mais: Eu tinha a música! Mas qual era o nome?
Ouvi umas 15 vezes. Sempre que a música terminava, eu pausava e dava um "rewind", nunca deixando ela terminar. Aquele som não podia acabar!
Confesso que nunca fui bom em medir tempo e distância. Tudo sempre foi muito intenso e é muito comum não dar tempo ao tempo. Porém, o tempo sempre ganha e me ensina muita coisa.
E neste dia aprendi que, quando uma fita é gravada da rádio, ao fim (geralmente) o locutor diz o final da música. Obviamente, se a pessoa que grava é daquelas mais metódicas, jamais permitiria que a voz do locutor saísse na gravação.
Sorte a minha que estas pessoas não existiam em casa!
Ao final da 16ª repetição, já no meu rádio portátil Aiwa, presente de meus padrinhos, o locutor aparece e diz: "Para Lennon e McCartney"!

Os garotos de Liverpool me foram apresentados bem mais tarde pelo meu amigo André Luiz Paiz, entretanto, neste momento, já os conhecia de nome.

No primeiro momento, a dúvida: Estaria o locutor da rádio homenageando a dupla de compositores com uma música do Milton? Ouvi mais umas 3 vezes, até perceber que ele também dizia que a música pertencia ao álbum Milton. Ali, tive a certeza que eu precisava: Esse era o nome da música!!!

Jamais me esqueci então desta música e do sentimento!

Já tinha então, um ponto de partida. Faltava descobrir que álbum era esse tal de "Milton".
E minhas busca começou.

Na época não tínhamos internet. Meu Pentium 166 servia para jogar paciência e acessar o Word para fazer pequenos trabalhos para a escola. Então, onde buscar? Como encontrar este álbum?

Perguntei para todas as pessoas que eu conhecia sobre o tal álbum e... nada! Ninguém sequer sabia me dizer como era a capa!!!
Procurei, procurei, procurei...e desisti...
Aceitei o fato de que este álbum eu jamais veria...
...
Alguns anos passaram e (já com internet), reatei minhas buscas pelo tal álbum.
Desta vez, encontrei!
Obviamente, fui correndo ouvir "Para Lennon e McCartney".
Que música!!!
Porém, ela teria que esperar as outras 15 repetições novamente. Era hora de conhecer o resto do álbum que tanto busquei.

Para começar, a capa: Um desenho maravilhoso de Kélio Rodrigues mostra Milton como um Rei Negro. Fantástico!!!

Melhor que isso, somente a união de um belo desenho com músicas absurdamente lindas!

Me perdi pelas linhas de "Pai Grande" e acho que até hoje não me encontrei. Tudo nesta música é bom!
"Canto Latino" me mostrava a força da Latino-América desde jovem.
Não podia terminar de outra forma: "A Felicidade", de Tom Jobim e Vinicius na voz de Milton.

Após uma viagem musical que deve ter durado umas boas 4 ou 5 horas, consegui me lembrar que estava no planeta Terra. E, de súbito, me enchi de orgulho de ser brasileiro e de ser da mesma nacionalidade que este lindo cantor!

Descobri, assim, que este álbum é raro, o que talvez explique o porquê d'eu nunca ter pego em mãos.
...
Mas, sinceramente, não fico triste por isso. A música e as letras de "Milton" estão comigo e isso me faz muito feliz!

E você, meu amigo, minha amiga, seu gosta de um bom som, se gosta de boas letras, se gosta de se emocionar e, principalmente, se gosta de Milton, não pode deixar de ouvir este álbum que, na opinião deste que vos fala, é um dos melhores (Se não o melhor) álbum da música brasileira!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: