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Resenha: Animals (1977)

Álbum de Pink Floyd

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Uma obra conceitual maravilhosa baseada em um clássico da literatura

Por: Márcio Chagas

25/10/2018

Animals começou a ser composto pelo grupo no ano anterior ao seu lançamento. Foi o primeiro a ser gravado no amplo estúdio construído pela banda em Britannia Row, Islington.  Aqui o grupo começava suas primeiras rusgas, sendo evidente o desgaste emocional e psicológico de seus membros. A personalidade de Waters começa a se sobressair entrando diretamente em conflito com os demais integrantes, principalmente o Tecladista Rick Wright. Não é de se espantar que este é o primeiro trabalho do grupo sem uma composição do músico que foi paulatinamente relegado a segundo plano.
Além dos 4 membros originais, o grupo contou com o apoio do guitarrista Snowy  White, músico inglês com origens no blues, e que posteriormente participaria de uma das formações do Thin Lizzy. Além de auxiliar nas gravações, White participou da turnê de divulgação do disco.
Para que o ouvinte entenda melhor a proposta apresentada pela banda em “Animals”, é essencial que se conheça “A Revolução dos Bichos”, livro do escritor inglês George Orwell, que o grupo se baseou para escrever as letras. No livro, Orwell conta a história de uma pequena fazenda onde os bichos se revoltam e passam a dominar seus inimigos, no caso, os humanos. O autor usa ares de história infantil para fazer uma dura crítica a sociedade moralista, um história surpreendente e atual, que em momento algum parece ter sido escrita e lançada no ano de 1945.
Inspirado pelo livro, Roger Waters usou o figura do porco (pigs), para nomear os políticos corruptos, sempre atrás de poder, o Cachorro (dogs) para representar os burgueses e as ovelhas (sheep) representando a população trabalhadora. 
O instrumental é um pouco diferente dos demais trabalhos do Floyd, o grupo continua progressivo, mas um pouco menos psicodélico e viajante. Apesar do conceito ser dominado por Roger, a guitarra de David Gilmour se faz ainda mais presente, com grandes solos e linhas dobradas.
O disco abre com Bucólica “Pigs On The Wing Part 1”, com pouco mais de um minuto de duração, funciona mesmo como um prelúdio do que está por vir. Na verdade ela surgiu de última hora, como uma pequena declaração de amor de Waters a sua nova namorada. 
“Dogs”, épico com seus mais de 17 minutos, traz o melhor trabalho de guitarra de David Gilmour. Dos violões pungentes usados na introdução até os solos dobrados de guitarra no meio da canção, tudo é perfeito. Até mesmo Roger Waters que nunca foi um baixista excelente, conseguiu fazer um trabalho diferenciado nesta faixa. Rick Wright usou os teclados na medida certa, criando uma ambiência diferenciada, adicionando alguns solos viajantes e ambiências elaboradas deixando o tema com cara de uma pequena obra prima. 
"Pigs (Three Different Ones)"  é a faixa seguinte. Teclados etéreos precedem a guitarra esquizofrênica de Gilmour, com Waters tentando cantar de maneira sincopada por cima da base do instrumento do colega. Genial! O instrumental é tão rebuscado quanto o tema anterior, onde a unidade do conjunto dá força ao tema. A letra, como não poderia deixar de ser, é uma dura crítica aos políticos: “Grande homem, homem porco, ha ha, que falso você é / Seu magnata endinheirado,  / ha ha, que falso você é...” mais direto impossível.
Em seguida vem “Sheep”,  que começa com piano jazzístico e vai crescendo com a ajuda do baixo até explodir inesperadamente com os vocais insanos de Waters, acompanhados do hammond e da guitarra um tanto despojada de Gilmour.  É possível encontrar ecos do tema “One of Theses Days”de Meddle. Com pouco mais de 10 minutos,  Waters destila sua filosofia Niilista ao cantar: “O que você ganha fingindo que o perigo não é real? / Submissos e obedientes vocês seguem o líder  / Descendo pelo trauteados corredores, em direção ao vale de Aço...”
 “Pigs On The Wing Part 2”, praticamente a mesma faixa usada na abertura e com a mesma duração, encerram esse grande trabalho dos ingleses. 
Foi essencial um lançamento como “Animals” naquele ano de 1977, pois muitos acreditavam que o rock progressivo se limitava a falar de fadas, duendes ou viagens cósmicas. Roger Waters e Cia mostraram que o estilo podia sim, fazer uma dura crítica a sociedade de maneira inteligente, rebuscada, e sem toda a raiva gratuita usada pelo punk rock.
Apesar de tudo, o disco dividiu opiniões. Alguns críticos acharam que a banda tinha finalmente saído de sua zona de conforto, outros taxaram o grupo de pessimista e ranzinza. De todo modo “Animals” angariou as primeiras posições do top 10 dos principais países ocidentais.
A capa do trabalho também tem uma história curiosa. Responsável por varias capas do grupo, os ingleses da Hipgnosis sugeriram duas idéias reprovadas de imediato: uma criança com um ursinho observando os pais fazendo sexo, e dois patos presos na parede por um prego. Waters ao lado dos desenhistas concebeu a idéia de um porco inflável sobrevoando as torres do Battersea Power Station, uma usina de força próxima ao rio Tâmisa. Apesar de terem arrumado um porco inflável enorme, amarrado em cabos de aço, as fotos não ficaram boas e o porco inflável foi colocado entre as torres posteriormente, através de computação gráfica.

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