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Resenha: UFO 1 (1970)

Álbum de UFO

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Um Blues Psicodélico vindo do espaço

Autor: Tarcisio Lucas

22/10/2018

A banda britânica UFO é um exemplo de que o rock e o metal pode sim ser ambientes ás vezes muito injustos. Afinal, a importância da banda é enorme, sendo que bandas gigantes como o próprio Iron Maiden já falaram abertamente da influência do grupo em suas composições. mas mesmo sendo uma espécie de unanimidade entre outros músicos e crítica, a banda nunca foi realmente gigante, pelo menos não aqui em nosso país.

Entre os muitos atributos do UFO, acredito que o mais facilmente lembrado é o de ter projetado o nome do guitarrista Michael Schenker, que antes de entrar na banda - ele não é um dos membros fundadores, como muitos pensam - havia fundado com alguns amigos (e seu irmão mais novo) um outro grupo de rock, chamado Scorpions.
Mas aqui estamos falando do primeiro disco da banda, e Michael Schenker ainda não havia ingressado ao conjunto. Temos aqui as cordas de Mick Bolton, que faz um trabalho muito bom, e Phil Mogg, Pete Way e Andy Parker completando o line up.
E a estréia da banda não poderia ter sido melhor.
O som é ligeiramente diferente daquele que viria a ser característica da banda no futuro próximo - mas nem tão diferente assim. As doses cavalares de blues estão lá, seja nos vocais poderosos de Phil Mogg, que fez uma excelente estréia, aos solos de guitarra de Mick, tudo aqui remete ao blues, ao melhor que o blues tem a oferecer.
Mas estamos falando do início dos anos 70. O movimento hippie pipocava ainda por todo o mundo, o fenômeno dos Beatles ainda era onipresente, o Jefferson Airplane estava nas paradas, e bandas como Pink Floyd, Yes e Deep Purple (que começou com um som similar a dessas outras bandas) estavam se firmando no cenário.
Sendo assim, nada mais natural que encontrar aqui muitos elementos de psicodelia. Muitos gostam de chamar esse estilo apresentado no disco de Space Rock. Nunca me dei bem com esse título, mas a julgar pelo próprio nome do conjunto, me parece justo chamar assim.
E essa é justamente a impressão que a banda passa na primeira musica, a instrumental "Unidentified Flying Object", uma música viajadíssima, com solos de guitarra que mais parecem viagens de LSD no melhor estilo "Peace and Love" da época.
Na sequência, "Boogie for George" escancara o Blues como base, e assim, em menos de 7 minutos, temos uma banda que deixa claro sua identidade musical!
A banda aposta também em covers nesse debut - uma prática absolutamente comum nessa época - e aqui temos "C'mom Everybody", de Eddie Cochran, Jerry Capehart, onde o guia é o baixo de Pete Way.
"Shake it About" é outro blues rock fenomenal, essa sim com cara do UFO que conhecemos. Essa musica poderia estar presente em qualquer outro disco da banda, tamanha a identidade apresentada.
"Melinda" se apóia na psicodelia, parecendo uma música perdida do Jefferson Airplane que foi colocada no disco por engano. Mas não se engane, é uma excelente musica.
Claro, a produção é vacilante; o baixo está muito alto, algumas vezes os vocais parecem deslocados na mixagem, e a guitarra possui alguns trechos em que soa muito mais aguda do que deveria. Mas estamos no ano de 1970, e a produção, apesar das limitações técnicas, é uma das coisas que servem pra criar essa aura nostálgica nos lançamentos da época. Muitos álbuns que são clássicos hoje seriam totalmente descaracterizados se fossem produzidos com as possibilidades técnicas que temos hoje. É como se as limitações dos estúdios da época forçassem os músicos a apostarem em vários outros aspectos musicais e experimentações. Isso pode parecer um paradoxo ou uma opinião de "gente velha", mas creio que no mundo do rock anos 70 isso seja verdade.
"Follow you Home" está aí para provar tudo isso, com uma produção extremamente vacilante, sendo contudo uma música absolutamente contagiante. E o som segue, entre composições próprias e mais 2 covers.

Ouvindo todo o álbum, é fácil chegar a conclusão que o grande destaque de tudo é de fato o baixo de Pete Way. Tempos depois, quando Mick dá lugar ao genial Michael Schenker, o UFO encontraria a união perfeita das cordas do conjunto, e criaria peças imortais dentro da discografia da banda.
E uma coisa é fato: Enquanto bandas como Deep Purple, Pink Floyd, e o próprio Scorpions tiveram estréias apresentando sonoridades bem distintas daquelas que caracterizariam o som do conjunto, o UFO começou de forma bastante próxima de tudo o que desenvolveria no futuro, apenas aumentando o blues e diminuindo a psicodelia. Mas a fórmula estava toda aqui.

Espero que o nome da banda UFO cresça cada vez mais. A banda merece figurar entre os gigantes do rock e do metal, desde seu primeiro disco! 

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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