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Resenha: Journey To the End of the Night (2000)

Álbum de Green Carnation

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Uma jornada obscura e bela!

Por: Tarcisio Lucas

26/09/2018

Muitas coisas podem ser consideradas interessantes quando o assunto é a banda Green Carnation. Primeiro, pode causar espanto que o som arrastado, introspectivo e até mesmo progressivo do conjunto seja feito por músicos oriundos, basicamente, da cena black metal da Noruega, como Emperor e In the Woods. 
Em segundo lugar, podemos nos espantar que o segundo álbum da banda - Light of day, Day of Darkness - possui uma única musica, com mais de 60 minutos, sendo uma das musicas mais longas de toda a história do heavy metal.
Também podemos nos espantar com a sonoridade da banda; ainda que este debut e o lançamento subsequente, o já citado "Light of Day..." sigam uma linha bem homogênea, calcada no doom metal com toques de progressivo, os lançamentos seguintes apresentariam uma sonoridade mais acessível, com estruturas musicais mais comerciais e uma nítida pegada de gothic metal.
Mas vamos tentar nos ater apenas ao que é apresentado nesse "Journey...". 
O que temos aqui é música melancólica em sua mais pura essência. Mesmo nos momentos de peso do disco, paira na ambientação e no clima uma tristeza inconfundível. Tudo aqui soa arrastado (e isso é bom, dentro da proposta), sem pressa de se resolver, sendo este justamente a maior qualidade da banda, que seria levada até a estratosfera no já mencionado segundo disco.
As musicas são longas, mas nunca tediosas, sendo cheias de variações, mudanças de ritmo, cuidado nos timbres dos instrumentos...tudo soa perfeitamente encaixado. 
Um destaque deve ser conferido ao trabalho de guitarras, muito coeso e criativo. Alguns riffs realmente ficam em nossa memória logo após as primeiras audições, o que por si só é louvável dentro do estilo.
O trabalho vocal também tem seu destaque, alternando vocais masculinos( mais presentes) com vocais femininos mais etéreos (menos frequentes). Vocais dobrados, harmonias vocais. Até os trechos mais simples sempre oferecem algum elemento interessante. O trabalho com os vocais feminismos se destacam, uma vez que o compositor buscou constantemente conferir as vozes uma certa qualidade diáfana, distante, ancestral.
O trabalho de bateria também é um destaque. Músicas lentas oferecem um desafio a qualquer baterista - o risco de se fazer muito ou pouco dentro do tempo estabelecido é grande - e aqui temos um excelente exemplo de execução correta e precisa. Eu chego a dizer, correndo o risco de estar exagerando, que aqui em "Journey Through the end of the Night" temos um ponto perfeito onde nenhuma nota está sobrando, e nenhuma nota está faltando. O que fica claro aqui é que se trata de um projeto pensado e gestado de forma completa e sem pressa. Tudo se relaciona entre si. As letras acompanham o clima geral das longas canções (ou seria o contrário?), e até mesmo a enigmática capa retrata perfeitamente a estética do grupo. Mesmo se não gostarmos do resultado final, precisamos reconhecer a homogeneidade do projeto, as raízes fortes que foram estabelecidas.
Ao contrário do que veríamos no futuro, tudo que ouvimos aqui é feito com o básico do rock, à dizer, guitarras, baixos, bateria, um pouco de teclado...e só.
O doom metal, certamente a identidade presente aqui, não esconde flertar com o progressivo em certos trechos. 
É difícil classificar a banda e compará-la à algum outro conjunto. Instrumentalmente, alguns trechos lembram um pouco os momentos calmos de um Opeth, mas isso será o máximo que realmente será possível dizer. Alguns timbres de guitarra lembram um pouco o My Dying Bride. E muitos riffs poderiam estar em algum álbum perdido do Black Sabbath.
A produção soube criar o clima obscuro, cru e claustrofóbico que o álbum exigia, sem comprometer a identificação dos elementos presentes em cada canção.

Enfim, se você é fã de musica introspectiva e melancólica, Green Carnation deve necessariamente ser uma parada obrigatória. O segundo disco, ainda que traga praticamente uma orquestra para dentro do álbum, mantém fielmente todas as qualidades desse aqui, o que por si só é digno de nota. Na minha opinião, ainda que a fase mais comercial e gótica da banda que se seguiu tenha tido seus bons momentos, esse debut aqui é insuperável.
Evite apenas indicar esse álbum para pessoas tristes, melancólicas e/ou depressivas; os resultados podem ser consideravelmente sombrios!

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