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Resenha: Ideologia (1988)

Álbum de Cazuza

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Revelando o verdadeiro Cazuza

Autor: Marcel Z. Dio

26/09/2018

Cazuza foi o ultimo penúltimo porta voz do rock nacional, quase o meio termo entre o sarcasmo e inteligência de um Raul Seixas e a poesia jovem, gritada por Renato Russo.
Se o mesmo não morresse pela AIDS no início dos anos 90, por certo morreria de desgosto, ao ver outra geração fracassada e facilmente manipulada por todas as esferas cabíveis. 
Independente do aporte financeiro de seu pai (o homem forte da som livre) Cazuza nunca teve medo de ousar. Saiu do Barão Vermelho no auge, e provou ser maior do que a ex-banda, que perdeu em criatividade com sua saída.
Em seu terceiro e melhor trabalho, a maturidade dos diversos temas e arranjos, só encontram frente no derradeiro Burguesia (1989). Poesias de amor ficaram em segundo plano, a mira foca em canções políticas, religiosas e existenciais.

Na faixa homônima, em parceria com o antigo parceiro Frejat, o poeta do Leblon mata dois coelhos com uma paulada, ao vomitar a limitação que a doença estava lhe causando, desaprovando também a política e a falta de direcionamento dos jovens.

"Boas Novas" era o prenuncio de sua morte, o cantor sabia que estava encurralado, e fez sua confissão :
Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva/ Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva - viva!).

"O Assassinato da Flor" é a melhor faixa do álbum, isso, analisando a parte instrumental. Cazuza sempre tocou com músicos do mais alto calibre. Ouçam as rápidas frases de Rafael Rabello ao estilo flamenco e a linha estonteante nos graves de Nilo Romero e tirem a prova.

"Brasil" era mais uma crítica a manipulação do brasileiro, e obviamente a classe politica. Fez reboliço na época, sendo exposta como trilha da novela Vale Tudo. E Somente uma coisa mudou após trinta anos da canção, a globo desaprendeu a fazer novela. E o Brasil ? bom ... deixa pra lá.

Em "Um Trem para as Estrelas", composta com Gilberto Gil, Cazuza poe o dedo na ferida novamente. A faixa tem duas versões, uma, bem animada, que deve ter saído em algum disco do baiano Gil, e a do referido disco, acústica e melancólica, fazendo mais sentido a letra.
Realista ao extremo, Cazuza enxergava de longe a escravidão diária, pondo em cheque a crença num Deus inoperante ao seu ponto de vista.

"Vida Fácil" pode ser uma rejeição de Cazuza aos seus, ele vivia as grandes festas da burguesia, tinha propriedade para falar dessa gente rica no bolso e fútil no conceito geral. Apesar do status social, ele conseguia separar as coisas e ver os dois lados da moeda.

Egocentrismo é o tema primário de "Blues da Piedade". Ótima canção, com solos bem estruturados de Ricardo Palmeira. Os vocais femininos apoiando Cazuza, também são interessantes.

"Obrigado (Por Ter Se Mandado)" é uma volta ao Barão Vermelho. Pode passar despercebida na comparação, um tanto pelo sax cafona, a lá David Sanborn.

"Faz Parte do Meu Show" foi sucesso imediato. O direcionamento inicial mantinha o foco nas guitarras, de ultima hora, Cazuza e o convidado Walter Franco, resolvem criar uma bossa nova, e o resultado foi além do esperado.
Ideologia contava ainda com as faixas "A Orelha de Eurídice", "Minha Flor, Meu Bebê" e "Guerra Civil" - feita em parceria com Ritchie, aquele mesmo do hit Menina Veneno.
O grande obra de Cazuza, ganhou o prêmio Sharp, como o melhor disco de 1988.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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