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Resenha: Korn (1994)

Álbum de Korn

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Korn - "Are You Ready?"

Por: Marcio Alexandre

24/07/2018

Em meados dos anos 90, o grunge acabava por "morrer" prematuramente devido à alguns fatores, Kurt Cobain morria, começava uma divisão no Alice in Chains, Soundgarden se via correndo para uma pausa e o Pearl Jam se estagnava com lançamentos de discos e quando o fez não foi o esperado. Dentro desse mesmo período, cinco garotos de Bakersfield iniciavam ali uma nova roupagem dentro da música, não intencionalmente, assim como o próprio grunge ganhando um novo rótulo, o famigerado New Metal. Em 1994, o Korn aparecia ao mundo trazendo seu debut e com ele um divisor no estilo, música pesada com afinações baixas, muito groove, quebras de tempo e um vocal hora raivoso hora com o peso do mundo as suas costas. "Korn" traz uma carga de melancolia, angústia, tristeza, loucura, tudo em uma atmosfera sombria.

As primeiras palavras do disco são "Are You Ready?", que inicia "Blind", e acho que a resposta é, ninguém estava pronto para que viria pelos próximos minutos. A faixa começa com cada instrumento dando as caras por vez até Jonathan Davis chegar e chamar pro mosh! Daí em diante a coisa descamba até o final do disco, peso, raiva e a presença de Davis nos vocais que se tornaria tão característico e se tornando um dos melhores vocalistas de seu tempo. A faixa se tornou ícone da banda e sempre abre grandes rodas nas apresentações, ou até mesmo em casa na frente do som.

"Ball Tongue" é recheada de grooves e tempos quebrados, que delicia esse baixo e bateria correndo juntos, e há de se falar do característico baixo estalado de Fieldy aqui. O refrão é entoado por Brian e Jonathan numa mistura de gritos cheios de raiva. A guitarra aqui também desempenha um ar meio assustador com uma espécie de grito que fazem base para os versos parecendo uma pessoa gemendo. A mudança de tempo aos 1:50 é espetacular, deixando tudo ainda mais pesado. Finaliza com Jonathan fazendo suas scats pela primeira vez e virariam sua marca, enquanto a parte instrumental vai abaixando, mais gritos de ódio vão surgindo! 

De novo baixo e bateria dão as caras em unidade em "Need To" sem dar tempo para o pescoço descansar. Destaca-se aqui o trampo de batera de David Silveria, cheio de detalhes e cadências. Mais uma vez há uma mudança de tempo drástica na metade da faixa com um Davis insano xingando à plenos pulmões, até um baixo ir chamando o resto da banda para voltar ao peso. 

"Clown", que também se tornou um clássico da banda é um dos destaques do disco. Pesada, arrastada e sombria é uma das maiores expressões de Davis sobre sua adolescência enquanto atormentado pelos marombas de sua escola. Percebe-se a tristeza e ódio se chocando em sua voz e na letra da faixa. Munky e Brian criam aqui um som hipnótico das guitarras que nos leva a viajar e entrar no clima de tudo. É palpável o sentimento de tudo por aqui. 

Rápida e cheia de fúria, "Divine" chega como um trator passando por cima de quem está na frente. A dobra de bumbos duplos e baixos da mais peso à tudo e exceto uma passagem mais calma, não há tempo de se respirar por aqui. 

"Faget" é mais um momento marcante. Por muito tempo, Jonathan foi perseguido ao ser chamado de gay pelos demais ao seu redor, e é nessa faixa que ele expurga seus demônios ao falar sobre isso. De novo angústia e raiva aparecem por aqui num suplício de explicação e pedido de paz. O ritmo arrastado da música consegue dar mais drama à tudo que é falado ali. 

Um certo estranhamento se faz nos primeiros momentos de "Shoots and Ladders", uma gaita de fole surge em meio à essa baderna. O instrumento é tocado pelo próprio Jonathan, mas é só um momento, logo ele passa a ser acompanhado pelos demais e de novo o peso surge e lá vamos nós para um novo delírio. A faixa reproduz trechos de uma cantiga infantil, mas que também já deu as caras em filmes de terror, tem um andamento lento até sua metade e depois descamba numa histeria coletiva. 


"Predictable" continua o ritmo lento apesar de pesada, talvez seja a faixa mais apagada do disco, mesmo tendo um refrão muito bom e ainda quebras de tempo bastante pesadas. "Fake" segue quase o mesmo padrão, alterna entre momentos mais pesados e calmos, sem muitas novidades ou surpresas, mas boa faixa. 

"Lies" volta a deixar as coisas mais interessantes. Uma guitarra bastante pesada surge logo sobreposta por outra e aí as coisas vão andando. Jonathan divide de novo aqui o refrão com Brian numa dobra muito interessante, e de novo Silveria brilha pelos detalhes que compõe na faixa. O final é insano, feito para quebrar o pescoço e gastar a garganta nos berros.

O ritmo lento volta, mas não como antes, a cadência da faixa é divina, e mesmo mais "leve" que as demais, nos induz a bater cabeça quando toca. "Helmet In the Bush" é das melhores e muito querida pelos fãs do Korn. O refrão é matador e nos faz cantar junto com Davis. Seu final também é bem doido com o vocalista fazendo sons estranhos no meio de um gutural.

A apoteose da loucura e melancolia se dá na faixa final do disco. "Daddy" é até hoje uma das coisas mais catárticas que o rock já produziu. A letra fala sobre o abuso sexual que Jonathan Davis sofreu quando criança e como o fantasma disso o atormentou por anos e anos o levando a exilar a canção por um longo tempo, até o aniversário de 20 anos do disco onde a cantou e em todas as noites terminava destruído por o fazer. Começa com Davis entoando uma prece em tom melancólico, pedindo perdão e ajuda, sua voz é melancólica e amedrontada como de uma criança, todo o peso de sofrimento ali está. Um baixo seco e pesado inicia a parte instrumental, e quando os demais surgem, tudo fica sombrio e denso. Durante os minutos da faixa, a voz de Jonathan alterna de vários modos e como não se compadecer do que ele está ali cantando com aquela voz trêmula e angustiante. Há momentos extremamente pesados aqui e pode causar até desconforto no seu decorrer, principalmente ao saber o que é falado. Conforme o final se aproxima, tudo que Davis sente dentro de si vai saindo e explodindo em sua voz até o próprio cantar chorando e terminar em prantos angustiantes e descontrolados, ele chora, xinga, odeia tudo e a todos e a si próprio. Termina com uma voz feminina tentando acalmar aquele choro com uma canção. 

Há verdade, há sentimento, há musicalidade e há originalidade aqui. Korn, mesmo que tenha criado seus detratores é sim das mais importantes bandas daquele período e aí está há mais de 20 anos na ativa, sendo muitas vezes mais do que música, uma terapia e um ombro para vários que se veem em situações do tipo. É do caralho o que se tem aqui! 

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