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Resenha: Holy Land (1996)

Álbum de Angra

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A obra-prima do Angra

Por: Marcio Alexandre

29/06/2018

Entre amor e ódio, entre fãs e haters, entre gostar ou não, o fato é que André Matos pode gritar à plenos pulmões e de cabeça erguida que duas das maiores obras do metal nacional aconteceram com muito de seu toque e seu nome está impresso em ambas, uma é o álbum de estreia do Shaman, "Ritual", e o outro trabalho é o "Holy Land", a obra-prima do Angra. Sucessor de "Angels" Cry", em seu segundo disco a banda conseguiu atingir um nível mais alto que no anterior, construindo uma obra musicalmente rica, cheia de detalhes e tão quão rico em sua história, pois aqui se conta a chegada do portugueses ao Brasil em 1500, numa mescla de metal, música clássica, musical indígena e regional e folclore.

Produzido por Charles Bauerfeind, que já havia trabalhado no disco anterior do Angra, e por Sasha Paeth, que se tornaria amigo de longa data de André e produziria futuramente o "Ritual", o disco abre com uma missa de Giovanni Pierluigi da Palestrina, compositor italiano da época da Renascença, mesclado a sons da natureza, é o interlúdio "Crossing", que fecha com som de trovões e chuva. 

Em seguida, o desenrolar é de peso e muita paletadas em cordas soltas de Kiko e Rafael, e um baixo cavalar. "Nothing to Say" é uma belo chute na porta, um lindo cartão de boas vindas. Rápida, pesada, seca e tem um refrão contagiante. Seus quase 7 minutos passam voando. A mescla com música clássica remetendo a presença dos europeus na história contada casa de forma perfeita ao peso dos demais, há ainda um pequeno flerte com o maracatu em seu final. Mesmo hoje uma das melhores faixas que o Angra já escreveu. 

"Silence and Distant" começa calma com a voz de André acompanhada por um piano em um melodia muito bonita e harmônica, para logo explodir num tempo quebrado e passagens de bateria trincada, com Confessori mostrando sua presença nas composições, já que no disco anterior não havia gravado todas as linhas. Aqui ainda temos um belo solo acompanhado de instrumentos de sopro. 

Quarta faixa do disco merece um destaque maior, sendo até hoje a música mais bem composta e rica feita pelo Angra. "Carolina IV" começa ao som de tambores que remetem à levadas de maracatu, marujadas e congadas numa relação direta com a música regional nacional, em seguida entoando uma prece à Iemanja. O ritmo segue cadenciado com André entrando numa área melódica que nos faz pensar em um mar calmo com alguma brisa, até quando numa quebra tudo descamba para um ritmo acelerado, com a banda em perfeita harmonia e um André super inspirado e desse momento agitado caímos em um refrão calmo, que dá vez à um solo de baixo acompanhado de uma passagem de "Bebê", música de Hermesto Pascal, solo de guitarra, uma bela passagem de piano tocada pelo pelo próprio André e uma sequência de música clássica. O loop termina de volta à percussão do início, que trabalho foi feito aqui, que coisa mais linda! 

A faixa título aparece em seguida com um piano entoando as notas de rodas de capoeira, e no crescendo, podemos notas a semelhança com uma espécie de baião. Mesmo quando as guitarras aparecem, "Holy Land" se liga direto com o Brasil, mostrando que a banda quera sim mostrar de onde veio, era nossa cultura exposta ao mundo em forma de metal. 

"The Shaman", é uma faixa que começa bastante pesada. Aqui André dá indícios de seus vocais rasgados que seriam mais característicos na sua vindoura banda, que inclusive teve seu nome retirado dessa faixa pelo baixista Luis Mariutti. 

Em seguida temos um momento de calma com a balada "Make Believe", e que balada... Com um começo bem calmo, a música tem um andamento gostoso de se ouvir, subindo aos poucos até chegarmos num refrão enérgico e melancólico ao mesmo tempo. Lindo trabalho entre guitarras e violões. A ponte para o segundo refrão é ainda melhor. Faixa muito bonita e talvez a melhor balada do Angra. 

A próxima faixa foi até pouco tempo um mistério de seu significado ao fãs da banda, "Z.I.T.O" é rápida, bem ao estilo power metal, com um solo bastante complexo, recheado de quebras e notas disparadas à milhão.

"Deep Blue" começa com o que parece uma espécie de canto cerimonial, muito bonito com André acompanhado por um órgão que invoca um rito religioso. A melancolia permeia toda a faixa, o que a torna ainda melhor, mas não recomendada para se ouvir naqueles dias de chuva ou que o humor não está dos melhores. Destaque ainda pela passagem de canto gregoriano em sua metade que dá um ar mais carregado à tudo. Bela faixa.

Fechando o disco temos uma faixa com violão e voz somente. "Lullaby for Lucifer" é o encerramento perfeito de uma bela obra, calma, harmônica e associada a sons de pássaros e da água que vai ficando na cabeça do ouvinte como um presente entregue com paixão e vontade. 

Ha ainda na versão japonesa do disco a faixa "Queen of the Night", que deveria fazer parte da edição normal, pois se trata de algo muito bom, cheia de quebras de guitarra na introdução, peso e um belo vocal de André que abusa dos agudos no final. 

"Holy Land" é mais que um álbum, é uma história, é uma identidade. Temos aqui um trabalho impecável e de alto nível mostrando que o Brasil tem sim sua música de qualidade, e que qualidade! 

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