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Resenha: Wish You Were Here (1975)

Álbum de Pink Floyd

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Um disco de abordagem apaixonada e praticamente inexplicável em palavras

Por: Tiago Meneses

27/06/2018

O que será que passa na cabeça de uma banda, na hora de lançar um disco seguinte a sua obra mais impactante, e que ainda hoje consegue causar espanto pela revolução apresentada na época? Bom, cada grupo lidaria com isso de uma maneira, mas poucos conseguiriam repetir a maestria sonora do disco anterior, onde certamente o Pink Floyd é um desses poucos. Mas quando eu digo em repetir, não me refiro em se manter em uma zona de conforto pra que não dessem algum passo errado, muito pelo contrário, a qualidade musical estratosférica é mantida em uma abordagem diferente. 

Wish You Were Here é sem a menor dúvida um disco muito bem direcionado e perfeitamente desenhado do começo ao fim. Assim como o seu predecessor, este certamente também pode ser classificado como um dos momentos mais memoráveis da história da música. Talvez o que mais chame a atenção quando se escuta este álbum pela primeira vez é a guitarra refinada de David Gilmour, mas atrativos não faltam, as letras, por exemplo, são uma das melhores de todo o catálogo da banda. Tudo se desenvolve de uma maneira tão limpa, despretensiosa, emotiva e significativa em uma abordagem extremamente apaixonada e praticamente inexplicável em palavras. 

“Shine On You Crazy Diamond Parts 1 – 5” é por onde começa essa maravilhosa viagem musical, e de fato não poderia começar melhor. O clima atmosférico criado pelos teclados de Wright dão à música uma aura sensual muito bem elaborada e organizada, enquanto que Gilmour exibe algumas notas de guitarra de forma completamente notável e irrepetível. São cerca de quatro minutos e meio até que todos os instrumentos se unam e elevem a sonoridade a outro patamar. A alternância entre momentos suaves quase psicodélicos e outros de uma intensidade emocional que bate no coração do ouvinte de maneira bruta é simplesmente sublime. Os vocais entram somente depois dos nove minutos como quem estala os dedos e tira alguém do transe (no caso o ouvinte). Waters e Gilmour então cantam de forma emotiva a homenagem da banda a Syd Barrett. A música reflete a perspectiva do mundo de Syd e como isso afetou a banda. O trabalho instrumental segue perfeito com lindos pequenos solos de guitarra e um belíssimo solo de saxofone (cortesia de Dick Parry) em sua parte mais do final. A música então vai desaparecendo aos poucos deixando apenas um som distante.

“Welcome To The Machine” é uma música que sempre achei que possui uma atmosfera que causa certa sensação de horror. Os acordes de guitarras são lindos, mas também bastante tristes. David Gilmour canta de uma maneira que mistura muito bem loucura com desespero. "Welcome to the Machine" de certa forma consegue evocar através de uma pitada irracional e psicodélica a experimentação realizada em Dark Side of the Moon. Sensacional. 

“Have a Cigar” traz um clima diferente para o álbum. Começa com um ótimo tema de guitarra dando a música uma levada um pouco funk, as linhas de baixo concretas e uma bateria bem cadenciada ajudam construir um começo que termina a sua configuração com um sintetizador que também será tocado ao fundo do excelente solo de guitarra que compõe a última parte da música. Não é cantada por nenhum membro da banda, mas por Roy Harper. Certamente um som divertido que oferece uma boa letra em uma visão cínica sobre a indústria fonográfica.

“Wish You Were Here” é certamente uma das músicas da banda mais reconhecíveis por um público em geral, até mesmo aqueles que nem devem saber o que é Pink Floyd (mas será que tem alguém que não saiba?), já a ouviu em algum momento de sua vida. Sua introdução através de uma guitarra ao fundo e o violão em primeira camada configuram o início de uma balada que se transformaria em uma das mais aclamadas no mundo do rock. Os vocais de David Gilmour estão simplesmente maravilhosos, onde o destaque está no refrão que soa cativante, épico e melancólico. Um clássico que se transpôs aos muros que cercam os fãs de Pink Floyd e foi de encontro ao amante de boa música em geral. 

“Shine On You Crazy Diamond Parts 6 – 9” é menos lenta e menos viajada, se posicionando, digamos assim, em um lugar concreto mais rapidamente, mas através de uma atmosfera igualmente penetrante lideradas por mais um solo memorável de guitarra e pinceladas de sintetizadores. Quando Waters começa a cantar a linha dá música é a mesma da apresentada na primeira parte do disco. A banda então entra em uma sonoridade influenciada pelo jazz com linhas de baixo sólidas, teclado viajantes e guitarra com excelente swing e que vai silenciando até que a música entra na sua parte final. O clima da música agora é em uma espécie de marcha fúnebre, atmosfera lutuosa e assim vai se desenrolando, marcando o término do disco de forma magistral e ao mesmo tempo meio perturbadora. 

Devo admitir que descrever esse disco, é estar diante de um daqueles casos, em que nossas palavras não conseguem transmitir nem mesmo um centésimo do que de fato estamos sentindo. Um disco de letras marcantes, além de melodias extremamente emocionantes e oníricas. Wish You Were Here (como o Pink Floyd costuma ser em geral) não prende pelo desempenho técnico, mas pela maneira emotiva e evocativa que tudo acontece. Memorável do começo ao fim, empolgante e profundo onde através de uma textura arejada, o álbum consegue elevar a mente do ouvinte ao espaço.

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