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Resenha: Dois (1986)

Álbum de Legião Urbana

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Os anos 80 em sua mais pura essência!

Autor: Tarcisio Lucas

13/06/2018

Quando falamos em Legião Urbana, a despeito das infinitas opiniões divergentes que certamente surgirão, uma coisa no entanto dificilmente se poderá negar: a incrível capacidade que a banda teve - e ainda tem - de despertar paixões intensas entre seus fãs, e de criar uma espécie de "culto" que não parece diminuir nunca; 22 anos depois do fim da banda, ela ainda é uma das bandas mais procuradas em sites de cifras para violão, por exemplo (se duvida, dê uma olhada em sites como "cifra club" e "cifras.com". Tanto é assim que muitos fãs se referem à como sendo a "RE" ligião Urbana!
Mas...a banda também parece ter seus detratores exaltados no mesmo patamar. 
A questão então passa a ser a seguinte: O que é que diabos essa banda tinha para exaltar tanto os ânimos, positiva e negativamente?
Bom, eu me encaixo claramente no grupo dos que amam incondicionalmente a banda, e poderei falar apenas dentro dessa perspectiva.
A primeira coisa que deve ser dita é que existem "vários" Legião Urbana; temos a banda ainda vacilante e de sonoridade indeterminada do primeiro disco, temos a banda "quase" punk do disco "Que país é esse", temos a banda poética do triste "A Tempestade", a banda que flertava com o progressivo em "V".
E temos a banda entrando de cabeça no som que estava sendo feito na época, conhecido como post-punk.

"Dois" tem a incrível capacidade de já entregar tudo aquilo que faria do Legião Urbana o mito que se tornou.
Temos sucessos enormes, como "Quase sem querer", "Eduardo e Mônica", "Tempo Perdido" e "Índios". Músicas que fazem parte do cancioneiro de praticamente qualquer pessoa com mais de 30 anos de idade (isso é, se você não fizer parte do grupo 2, aquele que nutre profundo ódio pela banda!).
Mas entre esses sucessos, encontramos canções como "Acrilic on Canvas", uma música que é puro Joy Division, tanto nos timbres dos instrumentos, na bateria quase militar de tão reta, no baixo profundo e na interpretação de Renato Russo. E claro, a letra dolorida e cheia de arrependimentos, amarguras e coisas que nunca foram. Ian Curtis, vocalista do Joy Division, certamente aprovaria a canção!
"Tempo Perdido" remete ao que os Smiths faziam na época. E não é segredo para ninguém que Renato copiou descaradamente as dancinhas que o Morrissey fazia nas apresentações ao vivo.
"Metrópole" resgata o punk da época do Aborto Elétrico, que seria a base do terceiro disco, onde por conta de um bloqueio criativo da banda voltou sua atenção paravelhas musicas que foram retrabalhadas.
"Plantas embaixo do Aquário" vem lembrar novamente que o Joy Division estava com tudo na época.
"Música Urbana" apresenta um blues acústico, na verdade uma das muitas que Renato compunha à base de muita poesia nas letras e apenas um violão, resquícios de seu tempo de trovador solitário.
Em "Andrea Doria" temos outra canção, dessa vez com algo que soa como um misto de The Cure, da fase do "Seventeen Seconds" e " Faith" com o The Smiths. Mais The Cure do que The Smiths, verdade seja dita.
"Fábrica" já vai para um lado mais rock and roll de fato, ao passo que "Ìndios", com uma letra sensacional que, infelizmente, parece nunca envelhecer, tem esse som meio post punk inglês mais uma vez.
As outras faixas não citadas aqui transitam por esses estilos, à exceção de "Central do Brasil", um tema instrumental meio fora de contexto, mas com uma melodia muito bonita de fato. Aliás, seria recorrente esses pequenos temas instrumentais nos discos seguintes da banda.
Acima de tudo, o que temos aqui é uma banda extremamente honesta nas composições. Ainda que nenhum dos músicos fosse realmente virtuoso em seu instrumento, sobrava garra, e trata-se de fato de um disco correto e que transpira emoção.
E as qualidades vocais de Renato devem sim serem ressaltadas, sendo o cantor capaz de variar grandemente sua impostação vocal e postura de uma música para outra, indo do grave quase sussurrado de "Acrilic On Canvas " até a abordagem visceral de "Fábrica".

"Dois" é um disco que não tem preocupação nenhuma em esconder suas influências, e isto acaba sendo um dos grandes trunfos da banda.
O que me parece, saindo um pouco do aspecto musical e filosofando um pouco, é que a banda surgiu em um período de muitas transições - sociais, políticas, econômicas - que certamente se traduziram em muitas transformações pessoais de toda aquela geração (a MINHA geração), e as canções da banda se tornaram uma espécie de "espelho" dessa mesma galera (seria a "geração coca cola?").

Enfim, "Dois" é Legião Urbana em sua mais pura essência, a mesma essência que viria a aparecer novamente límpida no disco "As Quatro Estações". Mas isso já é uma outra história...

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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