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Resenha: Faith (1981)

Álbum de The Cure

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Fé e desespero, lado a lado

Por: Tarcisio Lucas

11/06/2018

O The Cure, na figura de seu líder absoluto, Robert Smith, sempre recusou veementemente o título de "banda gótica". Mas a verdade é: não dá para ser mais gótico do que os 4 primeiros discos da banda ("Faith" é o terceiro). Ao londo dos anos posteriores a banda teve várias "recaídas" góticas, como no fabuloso e dolorido "Disintegration", de 1989.
Mas, demagogias a parte, verdade é que o The Cure É SIM um dos pais do rock gótico, e "Faith" é um marco fundamental dentro do estilo, juntamente com todos os seus predecessores!

Ainda que músicas como "Primary" ou "Doubt" tentem ser "animadas", verdade é que tudo nesse disco é permeado de tristeza, depressão e um clima extremamente obscuro. Ou seja, The Cure sendo The Cure, em sua essência.
Todos os elementos do The Cure estão aqui potencializados: as linhas de baixo absurdamente marcantes, com aquele timbre "estalado" que caracteriza tanto o som da banda, em músicas como "Other Voices" e "Faith"; O vocal agoniado de Robert Smith, que torna incrível saber que esse cara chegou até os anos 2000 sem nenhuma tentativa de suicídio registrada em seu currículo (pelo menos que a gente saiba...); E uma bateria quase militar, que muitas vezes remete ao que o Joy Division do Ian Curtis ou o The Sisters of Mercy estavam fazendo no mesmo período.
Os teclados criam verdadeiras camadas harmônicas, extremamente econômicas quanto a quantidade de notas e acordes, mas que contribuem imensamente ao som criado.
Esta sempre foi uma grande qualidade da banda; eles SEMPRE souberam que muitas vezes, menos é mais.
Outra característica que o The Cure trabalha magistralmente e que em "Faith" ganhou sua forma definitiva é o fato de trabalhar canções sem pressa. As introduções, ainda que contenham poucas (ou mesmo nenhuma) variação duram um tempo longo de maneira geral, como em "Drowning Man"; os vocais de Robert são espaçados, como na música "The Funeral Party".
Quanto às letras, parecem todas elas verdadeiros lamentos do movimento romântico do século passado. Não as leiam no meio da noite!
Para nós, brasileiros, essa primeira fase do The Cure soa estranhamente familiar, e logo se percebe o por quê. Muitas bandas nacionais que surgiram naquele período, especialmente o Legião Urbana dos primeiros discos, beberam muito na fonte do The Cure! Especialmente na timbragem dos instrumentos, que soam extremamente próximos para os fãs brasileiros que acompanharam essa época.
O grande destaque do álbum vai para a faixa título, um monumento gélido, fúnebre e lindo à sua maneira. A sonoridade dessa canção seria a tônica do futuro álbum "Disintegration".
Seria muito difícil levar a sério uma coletânea de rock gótico dos anos 80 que não contenha essa música!

Enfim, um álbum essencial para quem quer conhecer o que foi feito na música post punk dos anos 80.
Recomendado para quem?
Recomendo esse disco para todos os fãs de Joy Division, Sisters of Mercy, The Mission, Bauhaus e similares.
Fãs de Gothic Metal se identificarão com o clima criado. Também acredito que fãs do Legião Urbana, especialmente do dosco "Dois" irão curtir bastante.

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