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Resenha: Melos (1973)

Álbum de Cervello

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Um dos mais belos discos do período clássico do progressivo italiano

Autor: Tiago Meneses

16/05/2018

Melos é uma obra de arte impressionante e único disco dos italianos da Cervello. A banda surgiu do nada, lançou um disco de qualidade estratosférica, marcou o rock progressivo italiano e depois desapareceu. Obscuro, misterioso, rico de ritmos mediterrâneos, letras sobre antigos mitos gregos e muito mais. Se existe algum comparativo com outra banda da terra da bota, indicaria este disco principalmente pra quem gosta do Palepoli da banda Osanna. Inclusive o guitarrista aqui (ainda adolescente) é Corrado Rustici, irmão mais novo de Danilo Rustici, também guitarrista, mas da Osanna. E como a formação da Osanna, Cervello consiste em saxofones, flautas, baixo, guitarra, bateria e claro, vocais. Uma grande influência que pode ser logo notada é a que Corrado Rustici tem em John McLaughlin. 

“Canto Del Capro” é a faixa que abre o disco descrevendo um mito em homenagem a Dioniso, onde os sátiros e as ménades dançam e bebem uma substância mágica enquanto o sangue jorra de uma cabra ritualmente abatida. Tem um início suave e de uma atmosfera misteriosa e obscura. A música então tem início e mostra músicos competentes e bastante entrosados. Flautas dissonantes, guitarras reversas, a progressão de acordes de mellotron são bastante inovadoras e criativas. Uma música que apesar de estranha, conquista pela inventividade. 

“Trittico” no seu início dá ao ouvinte uma sensação de melancolia e nostalgia. O vocal é forte e cantado sobre uma linha de violão que às vezes troca a liderança com flautas e vibrafones. Novamente a banda faz uma construção musical um tanto incomum e inventiva. A música então entra em um clima mais caótico com bateria e baixo num trabalho bastante consistente, guitarra virtuosa e saxofone enérgico. Mas tudo retorna ao clima pastoral do começo, ainda que o violão esteja um pouco mais rápido agora e novamente dividindo o carro chefe com a flauta. O seu final é um tanto estranho através de um fade in que nos leva a um coro que parece ser cantado por um grupo de bêbados em uma taverna. 

“Euterpe” começa serenamente através de violão e flauta em belas linhas melódicas, mas logo os instrumentos tem a companhia dos vocais, aliás, eu amo os vocais desta música. Euterpe é uma das nove musas da mitologia grega, sendo ela a musa da música. A música vai crescendo e Corrado Rustici mostra toda a sua inspiração em John McLaughlin em um solo de guitarra bastante ardente. Guitarra sensacional executada por quem quer fazer um som completamente voltado para a banda, e assim, não se perdendo no próprio ego. 

“Scinsione” é provavelmente o momento de menos inspiração no álbum, mas mesmo assim, a banda continua em uma linha exploratória e inovadora, o que a deixa um pouco aquém em relação às músicas apresentadas até aqui, é que não tem a mesma beleza ou fatores surpresas. De qualquer forma, possui belos vocais harmoniosos que contrastam com explosões súbitas de jazz, além de boas mudanças de ritmo e humor musical. Novamente as guitarras “agridem” o ouvinte com bastante energia. 

“Melos” é a faixa título. Novamente uma música do disco mostra um começo sereno e lindo, vibrafones, violão acústico, voz suave e em seguida em uma entrada de bateria em velocidade média. A flauta aqui é influenciada por King Crimson e também coloca uma camada rica na melodia da música. Melos é uma palavra grega que define o lado melódico de uma música, ótimo título pra ocasião. Por volta de dois minutos existe uma interação de dois vocalistas que é ótima. Já a interação entre duas guitarras soa um pouco estranha, mas o violento solo de guitarra que segue, não é algo menos que impressionante.  O final sinfônico é de arrepiar. 

“Galassia” é uma faixa que convida o ouvinte a uma busca interior. Inicia-se com sons de pratos acompanhados por flautas distantes. Os primeiros vocais parecem vir de longe do microfone. Bateria, guitarra, flautas e mellotron então se juntam. Vibrafone e guitarra elétrica se alternam sobre o violão. Tudo então silencia e somente voz e guitarra mantem o coração da música batendo, mas logo uma seção pesada e ritmada se instala de maneira frenética com direito inclusive a um solo de bateria pouco antes do final. 

“Afrfresco” com pouco mais de um minuto, é uma faixa curta e bastante calma que conclui o disco de uma maneira celestial, digamos assim. Vocais bonitos e aconchegantes, além de flautas bastante criativas e emotivas e linhas de guitarra que apenas marca presença, onde o destaque está exatamente na sua distinção. 

Um dos mais belos discos do período clássico do progressivo italiano. Uma pena na época ter passado praticamente despercebido e com isso a banda tendo que se separar no ano seguinte ao lançamento do disco. Melos é impressionante por vários motivos, onde um dos principais deles é que no mesmo tempo que consegue ter uma aparência meio “áspera”, tem um clima pastoral. Enfim, como aconteceu com tantos outros do mesmo período, Melos se tornou um clássico injustiçado, infelizmente. 

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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