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Resenha: Trespass (1970)

Álbum de Genesis

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A Metamorfose Progressiva de "Trespass"

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

13/09/2017

O fracasso de From Genesis to Revelation  deprimiu os membros do GENESIS, mas não selou seu fim. Pelo contrário; até ganharam contrato num selo novo, Charisma Records, de Tony Stratton-Smith, que se tornaria empresário da banda até praticamente sua morte, em 1987. As mudanças não pararam aí. O baterista John Silver foi dispensado. Pouco se sabe sobre ele após sua saída. Em 1973, Anthony Phillips, Mike Rutherford e Phil Collins gravaram homenagem intitulada The Silver Song, que apareceu em diferentes versões, em álbuns-pirata da banda ou discos-solo de Ant. Silver foi substituído por John Mayhew.

Bem situados, os jovens contaram com a ajuda dos pais pra alugar uma casa no campo inglês e trabalhar no material pro segundo álbum. Esse tempo para compor e ensaiar foi vital. Deve ter sido então que Rutherford e Phillips desenvolveram o trabalho de cordas sobrepostas, marca d’água dos álbuns da primeira metade setentista. Se o leitor clicou no vídeo acima, já percebeu sobre qual sonoridade me refiro.

Tony Banks teve acesso a teclados mais modernos, como o Hammond e o Mellotron, basilares pra sonoridade de várias bandas progressivas, especialmente as que, como o Genesis, enveredaram pro rock sinfônico, mas sem deixar de lado influências folk e medievais.
Trespass foi gravado entre junho e julho de 1970, no Trident Studios, em Londres, produzido por John Anthony, que deu maior liberdade aos genesianos.

Não faltam fãs que digam que esse é o primeiro álbum do Genesis; From Genesis to Revelation não passando dum erro ou álbum de outra banda. Embora não descarte o álbum de estreia, não posso discordar de que Trespass soa como se fosse de outra banda. Ainda não é o GENESIS de Nursery Cryme porque Mayhew era um baterista medíocre, mas já é um bom álbum prog, contendo pelo menos um clássico: The Knife, a faixa mais agressiva. O resto de Trespass tem forte influência de new folk, muito comum em bandas prog da época, como a esquecida LINDISFARNE. As harmonias vocais, os arranjos delicados, os teclados melancólicos conferem um ar de pastoralismo bucólico, que, por horas se tinge de medievalidade de conto de fadas ou fica raivoso. A duração das canções atesta a guinada prog: a mais curta é a agridoce e quase-desesperançada Dusk (4:13), com sua tintura folk e delicada interconexão entre cordas e flauta, tocada por Gabriel pela primeira vez. As demais faixas têm pelo menos 6:30 minutos cada.

O álbum abre com Looking for Someone, com a voz meio rouca tomando à frente, e depois apoiada pela guitarra meio chorona de Phillips, numa letra que fala sobre alguém tentando encontrar sentido em um mundo sem nenhum. A canção já tem as características mudanças de andamento e ritmo que agradam tanto a certa ala de fãs de rock progressivo. Cada músico tem chance de mostrar o que sabe nos 7 minutos, que variam ente delicadeza e semi-agressividade. Banks consegue timbres até então inalcançados nos teclados. Só a bateria muito discreta deixa a desejar. Folk, elementos operísticos, rock. A fórmula genesiana em treinamento para atingir o topo da montanha nos próximos álbuns.

Trespass, no entanto, tem sua própria montanha, branca, que será tingida de vermelho devido a uma guerra entre lobos. Clima de conto de fadas medieval, um deslumbre que oscila entre o ligeiro, o madrigal e o marcial para narrar a história do lobo insurgente, condenado à morte e estraçalhado, revelando uma montanha vermelha ao amanhecer. Gabriel com sua primeira letra gráfica a ponto de evocar uma imagem mental perfeita da cena. Nessa faixa, o cantor começa a experimentar com alterações nos vocais, tratando-os com tecnologia. A sentença de morte de Fang é cantada numa voz meio arrepiante. O assobio final, depois do massacre na montanha, devolve a frialdade à Montanha Branca. Uma pérola subestimada.

Visions of Angels começa com um solo pianístico de derreter o coração e imagens de anjos dançando no céu. O clima de aurora de maior parte da melodia envolve uma letra que questiona a onipotência e onipresença divina, que parece ter sido abdicada pela própria divindade que “desistiu deste planeta e de seu povo há muito tempo”. Mas, no fundo, o problema é que o narrador não consegue entender a ausência da amada. Dizem que Ant estava apaixonado pela esposa de Gabriel, sem que o cantor soubesse, por isso a letra. Vai saber, mas, de qualquer modo, é uma letra sombria disfarçada por uma melodia matinal. Stagnation não faz questão de esconder sua melancolia, porém.

A canção mais famosa do álbum é The Knife, única de Trespass presente no repertório de shows por alguns bons anos. A letra fala dum revolucionário que quer levar a liberdade a seu povo, ainda que isso custe a vida de alguns: “some of you are going to die/martyrs, of course, to the freedom that I shall provide”. É uma montanha-russa, com momentos lentos de subida para depois lançar o ouvinte numa descida vertiginosa, especialmente a partir do quarto minuto, quando se começa a criar o clima pra gritaria e rajadas de metralhadora e guitarra um minuto depois. Que falta faz o talento de Phil Collins, que esmurrou tanto a bateria em anos de carreira que agora tem as mãos quase inutilizadas! The Knife é um monumento do progressivo sinfônico, sem dúvida.

A despeito de tanto progresso, Trespass não fez sucesso. Pelo menos não nos EUA ou na Inglaterra (curiosamente, o álbum ficou em 98 no Hot 100 durante uma semana em 1984). Na Europa continental a história foi diferente, iniciando uma relação de sucesso com países como a Itália, onde a banda foi copiada à exaustão. Na Bélgica, o segundo álbum do Genesis chegou ao topo da parada, ocasionando o primeiro convite para tocar fora do natal Reino Unido.

Antes de cruzar o Canal da Mancha, a banda tinha que achar um guitarrista e um batera. Descontentes com Mayhew, suas baquetas foram dispensadas após a gravação de Trespass. Ele permaneceu anos incógnito até ser descoberto na Austrália, onde se tornara carpinteiro. Morreu do coração em 2009, no dia 26 de março, véspera de seu aniversário.

O caso de Anthony Phillips foi distinto. Músico de primeira e responsável pela sonoridade que acompanharia o grupo mesmo após sua saída, Ant sofria de fobia de palco, a qual estava afetando sua saúde. Seguindo ordens médicas, abandonou o GENESIS e seguiu carreira solo prolífica, mas discreta.

Quando Trespass foi lançado, em outubro de 70, os 2 músicos já não mais faziam parte do GENESIS e seus postos haviam sido preenchidos. Iniciar-se-ia o “período clássico”.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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