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Resenha: Record (2018)

Álbum de Tracey Thorn

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Ex-Everything But The Girl Continua Afiada

Autor: Roberto Rillo Bíscaro

25/04/2018

Com Anne Lennox e Alison Moyet, Tracey Thorn compunha a trindade de vozeirões femininos da Grã-Bretanha nos anos 80. Helen Terry poderia ser elencada se tivesse feito qualquer sucesso sem estar por trás de Boy George. 

O contralto de Thorn serviu para a punkice folk das Marine Girls, para a jazzice bossanovada do Everything But the Girl, que nos anos 90 se reinventou como divindade jungle/drum’n’bass. Sempre colaborativa, Tracey já cantou com gente do calibre de Paul Weller e Massive Attack; já fez cover de Pet Shop Boys e Bruce Springsteen; já lançou aclamadas memórias; é colunista de jornal. 

Com tantos afazeres – sem contar a vida de amantíssima mãe de família – a inglesa de vez em quando acha tempo para lançar álbuns-solos, embora com largo espaço entre eles. O mais recente datava de 2010.
Dia 2 de março, Tracy Thorn retornou com as nove faixas do conciso Record. Se em Love And Its Opposites, a chanteuse surpreendia-se com tantos divórcios entre amigos e aceitava divertida e estoicamente a diminuição de seus hormônios em comparação com a ebulição dos de seus filhos, em Record canta sobre a divorciada amarga que passa o tempo monitorando seu ex pelas redes sociais, em Face, que sonicamente pertence mais ao álbum anterior. Os filhos já têm idade para sair de casa e em Go, Tracy canta em falsete sobre a síndrome do ninho vazio.
 
Mãe coruja, protetora até a agressividade, Thorn é inteligente demais para reduzir suas letras a odes parnasiano-eletrificadas à maternidade ou às crianças. Na new wavy Babies, ao descrever como é tentar fazer uma criança pegar no sono às três da madrugada, os versos vem afiados “lay your pretty head now/get the fuck to bed now. Mas tudo isso só a fez amá-los mais ainda. Não, pera, se ser mãe é padecer num paraíso, então as letras são meio parnaso, sim?

A idade da cantora (55 anos) e a escolha pelo predomínio da electronica dos 80’s e 90’s quase garantem que Record não atinja jovens ouvintes casuais e, como no caso da maioria de artistas antigos, pregue a convertidos. Então, os oito minutos e meio extremamente bem produzidos do synthfunk de Sister não afugentarão quem já ama Thorn há décadas. Respaldada pela sempre interessante Corinne Bailey Rae, Tracey dá aula de militância e empoderamento feminino. Não mexa com ela ou com os rebentos, que ela luta como uma garota! 

Record é confessional e pró-ativo. No arejado pop oitentista de Air, o eu-lírico se denomina desajeitada, muito alta, invisível para os garotos, ao passo que a também new wavy Guitar, denuncia o garoto que a ensinou a tocar violão, mas fugiu depois de uns amassos. Mas, daí, ela escolhe vê-lo como catalista (imagine uma letra pop com essa palavra, Tracey é preciosa!) que a propulsionou ao estrelato. E é sobre esse papel de rainha que ela se pergunta na pulsação synthdisco contagiante de Queen, abertura de um álbum que também termina perfeito, com Dancefloor, que orgulharia vô Giorgio Moroder e Tia Neil Tennant. 

Record é tão impactante em sua grande maioria que até dá pra ouvir de boa o synthfolk de Smoke, com aquela estruturinha rítmica vagabunda de teclado de churrascaria. Quando Kate Bush a usou em Delius (Song Of Summer) era moderno e high tech, afinal era 1980. Em 2018, é qualquer coisa menos isso.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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