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Resenha: The Sum Of No Evil (2007)

Álbum de The Flower Kings

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A música de The Sum Of No Evil é dinâmica, imaginativa, melódica e versátil

Por: Tiago Meneses

10/07/2021

Quando falamos da música do The Flower Kings, quase sempre estamos falando de algo complexo, imprevisível e compacto. The Sum Of No Evil apresenta todas essas características, além de entregar algumas melodias cativantes. Desfrutar esse disco, para alguns ouvintes de primeira viagem, pode ser um desafio não muito fácil, mas se você - igualmente a mim -, já possui uma experiência acumulada para lidar com a banda, The Sum Of No Evil pode abraçá-lo já na sua primeira audição. Uma maneira mais fácil de desfrutar do disco é apreciar segmento por segmento do seu arranjo, em especial captando a maneira de como todos os instrumentos constroem uma composição bonita e firme, independentemente da linha melódica.  

"One More Time", canção que abre o disco, pode ser vista como aquelas do tipo feliz e otimista e que a banda sempre costuma compor. A peça possui algumas melodias irresistivelmente doces e encantadoras. Assim que eu a ouvi pela primeira vez, senti que estava diante de um clássico instantâneo e de um refrão maravilhoso. A guitarra, teclado e sintetizadores soam bastante retrôs, fazendo aceno a Steve Howe, Tony Banks e Emerson, Lake & Palmer. A seção rítmica também está maravilhosa e trabalha de forma eficaz e brilhante. Considero "One More Time" inclusive uma boa porta de entrada para apresentar a banda a alguém, pois é acessível, musicalmente rica, calorosa, convidativa e contém todos os ingredientes que tornam a The Flower Kings um dos baluartes do progressivo moderno.  

“Love Is The Only Answer” é o grande épico do disco com os seus mais de vinte e quatro minutos. Em termos de épicos, considero ela um pouco mais difícil, pois não tem o tipo de seções distintas e melodias vocais imediatas de canções como “Stardust We Are” ou mesmo “The Truth Will Set You Free”. Abre com alguns versos melancólicos. A peça é uma espécie de montanha-russa de incríveis emoções, sendo um pouco difícil de digerir tudo na primeira audição, contendo partes que a fazem possuir uma espécie de novo recomeço a cada três minutos. Por volta dos seis minutos, a banda produz uma seção jazz fervorosa e por volta dos dez o ouvinte é presenteado por uma seção bombástica de jazz-rock. Devo admitir, que mais pelo seu núcleo, a música possui alguns ingredientes que não me agradam muito, pois carece um pouco de uma grande melodia. Por volta do último terço de “Love Is The Only Answer”, as melodias incríveis do início ressurgem, trazendo também um excelente e belíssimo solo de guitarra e que serve como clímax, com direito também a um solo de saxofone liderando o fade out. Um final bombástico de um dos melhores épicos já feitos pela banda.  

“Trading My Soul” é uma balada com variedade em tons menores, considero uma peça bastante necessária depois de termos elevado o “progressivo ao máximo” na faixa anterior. Aqui a banda busca um lado mais melódico e sombrio, com vários detalhes sendo colocados em camadas por todo o lugar, fazendo com que assim, tudo se torne denso, porém, permanecendo acessível devido boas escolhas de melodias e estrutura musical padrão, além de uma guitarra fantástica.  

“The Sum Of No Reason” é quando a banda parece querer canalizar uma vibração King Crimson – o que pra mim é sempre maravilhoso - já que eles assumem uma postura mais ousada e espalham acentos fortes por toda parte. O primeiro terço alterna entre versos muito melódicos - porém sombrios – com linhas pesadas quase de heavy metal. O núcleo da faixa certamente é onde está seu trecho de maior valor – mesmo sendo o mais inacessível. Ataques de puro metal e cantos frenéticos junto a muito temas diferentes que são apresentados em um curto intervalo de tempo. Uma enorme massa de harmonia vocal é seguida pelo início melódico reintroduzido com arranjos musicais fantásticos, sendo o momento concluído pela bela composição da harmonia vocal e um dos melhores solos de guitarra do álbum ou até mesmo da carreira de Stolt. Mesmo assim, o último terço de música contém alguns momentos abaixo da média - para esse álbum -, além de uns vocais distorcidos que não parecem ter combinado muito. De qualquer forma, uma belíssima peça.  

“Flight 999 Brimstone Air” tem um começo que alterna entre alguns temas de órgão de igreja e algo que eu definiria como uma espécie de sintetizador moog sendo tocado por meio de um tubo theremin. O som então fica um pouco bobo, onde podemos ouvir um vocal distorcido sinistro e assustador, sendo seguido por alguns estranhos acordes de sintetizadores e um riff contundente de guitarra. A peça então entra em um clima mais silencioso, exceto por algumas notas de bateria e piano, que crescem eventualmente e mostra que Zoltan Csorsz certamente deve ser colocado na prateleira entre os grandes nomes do progressivo moderno quando falamos de bateristas. Há até a utilização de alguns acordes de vanguarda aqui. Possui um final bombástico.  

“Life in Motion” é a faixa que fecha o disco, onde apesar de ser muito boa, não chega a ter o mesmo nível das demais. A instrumentação encontrada aqui de fato é quase tão bem cuidadosamente pensada como qualquer uma das demais do disco, porém, o problema entra quando percebemos que cerca de metade da música carece de boas melodias vocais – com Froberg soando até meio irritantes em alguns pontos. A música entra um momento silencioso e depois toma uma linha ascendente, tornando-se harmonicamente muito rica, poderosa e de um clímax extremamente edificante. A instrumentação nesse momento é de dar arrepios. Froberg, que critiquei no início, agora está perfeito, cantando com extrema sinceridade e força. Apesar de não ser uma faixa que empolga inicialmente, possui um final digno para um disco dessa qualidade.  

No fim das contas, o disco entrega tudo que podemos esperar da banda no seu melhor. Possui uma música dinâmica, imaginativa, melódica e versátil. Das seis peças, quatro são épicos entre treze e vinte e quatro minutos, onde a banda realmente tenta valorizar todo o material musical incluso em cada uma delas – mesmo que eu ache algumas partes desnecessárias. Mais um álbum onde a The Flower Kings entrega ao ouvinte aquilo que qualquer amante de rock progressivo sinfônico pode querer.

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