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Resenha: Country Life (1974)

Álbum de Roxy Music

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Fluindo Art Rock numa obra absolutamente essencial para o ouvinte da boa música

Por: Expedito Santana

08/07/2021

Este disco de 1974 é o quarto de estúdio do Roxy Music e com ele a banda talvez tenha atingido o equilíbrio perfeito entre a altivez garbosa do início de carreira e a sobriedade vista no antecessor “Stranded”. A excelente produção de John Punter preservou o espírito Roxy e ao mesmo tempo lapidou algumas arestas de outrora, proporcionando uma sonoridade que combina o art rock com um pouco de glam, sem prescindir de algumas pitadas do pop rock sedutor e requintado que seria uma das características mais proeminentes da banda, notadamente nos trabalhos da década de oitenta (Flesh + Blood / Avalon)  

A arte de capa (pra variar) traz a fotografia de duas belas jovens alemães, Constanze Karoli e Eveline Grunwald, que Ferry conheceu em Portugal quando escrevia as letras do álbum. O único problema (para alguns pelos menos!) é que as moças aparecem seminuas na estampa, fato que fez com que alguns lugares proibissem a comercialização do álbum, principalmente o puritano Estados Unidos da América. Essa polêmica gráfica, inclusive, talvez tenha prejudicado um pouco o desempenho de vendas de “Country Life” nos EUA. Já na Inglaterra o disco teve uma ótima aceitação da crítica. 

Da formação original restou o quarteto da pesada integrado pelo líder inconteste e alma do grupo Bryan Ferry (teclados e vocal), Phil Manzanera (guitarra), Andy Mackay (oboé e sax) e Paul Thompson (bateria), todos, ressalte-se, em ótima forma. Mas é importante dizer que a entrada de Eddie Jobson (sintetizador, cordas e teclados) acrescentou notável astúcia e requinte à música do Roxy. Enquanto John Gustafson, por sua vez, assumiu em tempo integral as quatro cordas e garantiu certa musculatura à cozinha. 

Embora a ausência de Brian Eno não seja nada desprezível, vale lembrar que ele saiu logo após o lançamento do segundo disco, o álbum é uma prova inequívoca da impressionante evolução de Ferry como compositor (Bowie assegurou que ele é um dos seus favoritos), agora mais aberto às parcerias com os colegas de banda, apesar de assinar aqui a maioria das canções e letras. 

Ao todo são 10 faixas coesas e repletas de arranjos primorosos e momentos marcantes, não havendo quaisquer deslizes e tampouco a possibilidade de nascer o menor sentimento nostálgico quanto aos primeiros discos.    

A primeira impressão não poderia ser melhor, vindo por meio da empolgante "The Thrill of It All", um rock otimista que conta com ótimo trabalho de bateria e uma guitarra poderosa de Manzanera. Em seguida aparece a singela "Three and Nine", uma canção honesta cantada fleumaticamente por Ferry, que tem um excelente sax de Mackay e uma gaita marota decorando a paisagem.  

Em "All I Want Is You" emerge uma batida espetacular que mistura aquele frescor juvenil que a banda imprimia principalmente nos primeiros discos. Aí então surge o que considero um dos melhores momentos do álbum (adoro a versão ao vivo desta faixa em Viva! Roxy Music), "Out of the Blue" consegue criar um diálogo dinâmico entre os teclados, sintetizadores, baixo e guitarra, criando uma ambientação propícia à psicodelia, cuja cereja do bolo provavelmente é o solo de Manzanera. 

A divertida "If It Takes All Night" não passará em branco, consegue criar um clima cool com seus acordes emulados de piano e textura glam. A teatral "Bitter Sweet" é uma balada sensível e meio esquizóide. Seus trechos em alemão foram traduzidos pelas garotas da capa (Karoli e Grunwald), evoca a corajosa "Ópera dos Três Penny" de Bertolt Brecht e Kurt Weil, assim como os cabarés da República de Weimar em Berlim.  
 
"Triptych" mantém um pouco da vibe majestosa da anterior, encarna uma representação poética e sonora da crucificação de Jesus Cristo, enquanto "Casanova" mostra-se mais rápida e moderninha, carregada de balanço e art rock fervilhante. As coisas acalmam em “A Really Good Time”, quer seja pelo sax relaxante, quer pelas notas lentas dos teclados, ou pelo vocal delongado de Ferry, tudo aqui está sob controle.   

O concerto alcança seu clímax na derradeira e monumental faixa "Prairie Rose", nada menos que rock and roll na veia! Da abertura elegante vinda da guitarra de Manzanera, ao sax inquieto e sexy de Mackay, ao baixo e bateria latejantes, esta ode orgástica é um verdadeiro êxtase e implora para ser desfrutada sem parcimônia, de preferência num mergulho hedonista.   

“Country Life” é uma fonte artística rica que antecipa inúmeros conceitos estilísticos e experimentações de vanguarda que serviriam de base para diversos artistas e bandas muito além da cena inglesa. Uma obra absolutamente essencial para o ouvinte da boa música.

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