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Resenha: China (1979)

Álbum de Vangelis

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Músicas bem construídas inspiradas na música e cultura da China

Por: Tiago Meneses

02/06/2021

Em 1978, Vangelis lançou, Beaubourg, último disco do músico em parceria da gravadora RCA. Tudo até aquele ponto da discografia de Vangelis era bastante acessível, entretanto, Beaubourg foi diferente, mas para saber mais sobre ele, já fiz sua resenha aqui no site onde tento explicar um pouco a sua peculiaridade. Embora antes de China, o músico tenha lançado dois discos, The Dragon e Hypotesis, ambos são improvisações não oficiais e no caso de Hypotesis, também uma trilha sonora. China, lançado em 1979 de forma oficial e sem ser trilha sonora, foi um disco em que seus fãs de certa forma deram um suspiro aliviado pelo retorno a algo mais acessível.  

Exceto por um solo de violino na música "The Plum Blossom" e uma narração em "The Little Fete", Vangelis tocou todos os instrumentos. Até aquele ano, Vangelis nunca havia estado na China, mesmo assim, sentia-se impressionado com a música e cultura do país a ponto de tê-lo como inspiração na criação de um álbum conceitual, baseando-se apenas no que ele imaginava do lugar. Um disco composto por faixas curtas – exceto uma - que consistem em melodias simples influenciadas pela música chinesa.   

“Chung Kuo” abre o disco de forma que alude à situação política da China em uma introdução caótica, utilizando de sintetizadores sequenciadores semelhantes a hélices de helicóptero com uma multidão aplaudindo. A peça então se estabelece em uma melodia simplista e muito calma que é fácil de associar à China, sendo tocada de forma lenta em uma linha de quatro notas de sequenciador. “The Long March” possui pouco mais de dois minutos, mas tempo suficiente para que Vangelis crie uma melodia inspiradíssima ao piano. Mas é impossível não notar o material melódico semelhante à faixa anterior, como se as duas faixas fossem uma espécie de parte um e parte dois.  

“The Dragon” direciona o disco para um ambiente muito mais eletrônico com muitos efeitos e percussões legais. Possui uma sonoridade mais enérgica com alguns sons de sintetizadores que são a marca registrada de Vangelis, além de outros que criam uma melodia muito boa e que dão uma atmosfera chinesa à peça. “The Plum Blossom” é uma peça mais orgânica, um piano bastante leve acompanhando um violino virtuoso tocado por Michel Ripoche. Mais à frente a música também ganha a companhia de sintetizadores que ajudam a lhe dar mais solidez e textura em seu som.  

“The Tao of Love” usa um teclado elétrico sob um instrumento de cordas dedilhadas de maneira bastante adorável que consegue entregar ao ouvinte um belíssimo sabor oriental. É a peça mais romântica do disco. “The Little Fete” usa alguns instrumentos de sopro com eco, enquanto Yeung Hak-Fun e Koon Fook Man fornecem suas vozes para a narração de uma seção recitativa de uma velha fábula chinesa sobre um homem, a lua e sua sombra. Ela fecha o primeiro lado do disco de forma muito atmosférica.  

“Yin & Yang” use de sintetizadores e instrumentos de corda, começando de forma muito distinta e divertida, porém, eventualmente muda para uma linha que de sensação mais atmosférica e sinuosa. Mais à frente o sintetizador vai ficando pulsante enquanto que a percussão coloca mais movimento na peça. Uma das mais empolgantes do álbum. “Himalaya”, com quase onze minutos é disparada a faixa mais longa do disco. Vangelis consegue aqui utilizar de sintetizadores para pintar imagens e picos elevados, além de campos ventosos. Uma música drone dinâmica ao fundo evoca grandes extensões de terra. A percussão eletrônica marca a passagem do tempo com uma batida constante enquanto que acima disso também podemos encontrar um piano improvisado e simplista que toca levemente em torno das linhas mais altas da melodia do sintetizador. Essa peça e bons fones de ouvido, pode tornar a experiência extremamente imaginativa. Minha música preferida do disco. “Summit” segue a faixa anterior, mas seu tom é mais dramático e sombrio do que qualquer uma das anteriores. Acho uma excelente maneira de terminar o álbum. 

Ao mesmo tempo em que China é um disco que podemos encontrar as marcas típicas de Vangelis por toda a parte, elas parecem que não caberiam em nenhum dos seus discos anteriores. Algumas pessoas poderiam até ter se perguntado se isso poderia estar marcando o início de uma nova era, porém, não é nada disso, essas são faixas muito bem construídas inspiradas na música e cultura da China, mantendo-se surpreendentemente fiéis aos sons e estilos do país, mais ao longo das tradições clássicas do que das modernas.

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