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Resenha: Vera Cruz (2021)

Álbum de Edu Falaschi

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O retorno

Por: José Luiz Paiz Junior

29/05/2021

Eita álbum difícil de resenhar!
Edu, Aquiles e banda criaram grande expectativa para a chegada deste disco, numa campanha de marketing muito bem-feita e bem-sucedida, criando grande antecipação e ansiedade por um disco que prometia entregar aos fãs-órfãos do “Angra 2000” o que eles esperavam. Eu particularmente fico feliz em ver o Edu de volta com músicas originais, visto que o considero um excelente compositor e artista. Sua presença ativa na cena metal brasileira é importante, já que ele é um dos grandes personagens desta desde seus tempos de Symbols. Me lembro de entrar em discussões acaloradas com amigos e colegas que consideravam o Angra como acabado quando ele entrou ou o que o criticavam por não soar como o André Matos, enquanto eu estava feliz da vida com a escolha da banda, visto que já curtia seu trabalho. Enfim, Edu fez história com o Angra, colaborou com a banda e os ajudou a progredir com seu som. E é por isso que após várias audições, fiquei com um sentimento agridoce após absorver este disco. Explico abaixo.

É inegável a devoção dos envolvidos neste projeto e nos produtos que derivaram dele. Isso não está em questão aqui. Temos orquestrações, grandes participações especiais, uma banda soando afiadíssima, músicos de técnica absurda, um engenheiro de mixagem renomado... Esforços não foram poupados para entregar o melhor aos fãs. Sim, é possível! Claro que o sucesso do disco está apoiado em grande parte nas personas artísticas e no sucesso prévio de Edu e Aquiles, e na narrativa de herói renascido das cinzas que o Edu construiu em cima da sua luta pessoal com o refluxo gástrico. Deixarei minha opinião sobre as atitudes de ambos com os seu ex-colegas de banda de fora desta resenha.
Falemos da música de Vera Cruz e, já começo dizendo que não há nada aqui que não tenha sido feito antes por outras bandas (inclusive as bandas por onde passou o Edu). Mesmo para um disco de Power metal, os clichês são muitos (muitos!). Cronologicamente, este disco já nasce datado e o sentimento de deja-vu é quase onipresente. Num balanço geral, posso dizer que esta não é a melhor coletânea de canções que Edu escreveu, com apenas duas canções realmente excelentes: Skies in Your Eyes e Bonfire of Vanities. Sem surpresas aqui, visto que Edu sempre foi muito bom para escrever esse tipo de música. Nas outras, temos momentos de excelência o que é pouco para tanto poder de fogo e tanta promessa. The Ancestry (bons versos, refrão pobre, clichê demais), Land Ahoy (vários momentos interessantes, mas o refrão mesmo é fraco), Face of the Storm (versos interessantes, refrão genérico e fraco que copia inclusive outros motivos melódicos usados no disco) e Rainha do Luar (a parte onde Elba se solta, após o primeiro refrão é realmente muito boa) se enquadram aqui. E aí temos momentos verdadeiramente medianos como Mirror of Delusion (verso fraquíssimo) e Fire With Fire, que tirando a empolgante crescida para o refrão é uma canção fraca.  

Vou tirar um parágrafo aqui para falar da produção e dos arranjos, visto que estas afetaram muito a minha percepção do disco. Aquiles é fenomenal enquanto baterista e usa todo o seu arsenal aqui. Um monstro. Aliás, o nível técnico de todos os músicos aqui é absurdo, mas isso vêm como uma benção e uma maldição: os arranjos de guitarra em muitos momentos arruínam (sim) a experiência auditiva do disco, com arpejos velocíssimos e escalas sendo jogadas gratuitamente a cada dois compassos.  Me peguei várias vezes desejando pular de faixa devido aos exageros, irritantes, da dupla de guitarristas. Quando os caras engatam uns riffs que chamam a atenção, você acha que vai engrenar e aí... arruínam tudo de novo com um arranjo gratuito que não adiciona em nada, mas que quebra o groove. Em certos momentos chega a frustrar. A introdução de The Ancestry é quase ridícula na sua tentativa de “mostrar tudo que sabemos fazer em menos de um minuto”. Faltou finesse e é uma pena, pois onde os dois se controlam mais, o resultado é prazeroso. E aí temos o Edu, com quase 50 anos e em (muito) melhor forma do que quando deixou o Angra, mas é nítido o esforço para atingir certas notas e... não soa bem. Infelizmente, não soa bem. Pessoalmente não acho demérito o artista reconhecer suas limitações e abraçá-las, como fez Fish, ex-vocalista do Marillion, que mesmo com um alcance limitadíssimo nos entregou seu melhor trabalho solo ano passado. Atingir nota em estúdio não é problema (ainda mais com a tecnologia disponível hoje), mas tem que soar bem e negar que ele soa forçado aqui é passar pano para uma escolha artística desconectada com a qualidade atual da voz do cantor. Não é à toa que as melhores músicas são as baladas citadas, onde a tonalidade se encaixa melhor na sua voz e os exageros guitarrísticos não estão presentes. E isso é problema da produção, que não podou estes excessos ou trabalhou melhor as canções para funcionar com ele. Em contrapartida, devo também dizer que a produção acertou muito com o uso dos coros, percussões e arranjos de cordas (excluo aqui as desnecessárias introduções e intervenções à lá filme da Disney) – espetaculares! Enfim, tudo nesse disco é intenso, como se a tentativa fosse ser “mais” (entendedores entenderão), mas infelizmente passaram do ponto e acabaram sendo menos. Sobraram notas, (e novamente) faltou finesse!

E eis que, chegamos à parte mais dura deste texto, uma que infelizmente não posso deixar de falar.
É compreensível que Edu tenha decidido oferecer aos fãs-órfãos da sua presença no Angra e saudosos do som que a banda fazia na primeira metade dos anos 2000 o que eles queriam. Também compreendo a razão pela qual eles decidiram gravar um disco cheio de clichês do gênero já que, comercialmente, seria sucesso certo (como de fato aconteceu). Agora, o que temos aqui é lamentável pois não ouvimos somente influências de seu tempo de banda e clichês do estilo, mas uma tentativa forçada de emular (ou reviver) o Temple of Shadows. Edu declarou recentemente que o Angra é parte do seu DNA e que seria inevitável que o som de sua banda solo carregasse estas influências mas, novamente, não estamos falando de influências aqui. Falamos de estruturar intencionalmente  o disco (ordem das faixas) como o Temple of Shadows, escolha dos convidados, estilos das músicas, instrumentos, tudo cheira como uma tentativa de recriar o referido álbum, e com pitadas adicionais de outros discos e de outra era do Angra. Quando Sea of Uncertainties começou a tocar eu involuntariamente comecei a rir, pois não acreditava que os caras criaram uma introdução que remete imediatamente à Angels and Demons dessa maneira na cara dura. Aí vem a ponte antes do refrão e Wings of Reality vem imediatamente em mente. Ali eu já não estava mais rindo. Temos também “homenagens” à Running Alone, The Shadow Hunter, Waiting Silence, Wishing Well, Spread Your Fire e por fim, Late Redemption. Me desculpem, mas isso não acontece naturalmente, diferentemente do que chamamos de “estilo” ou “influências”. Ao chegar no final do disco, a palavra que me veio em mente, automaticamente, foi “decepcionante”. Sim, decepcionante pois o cara (Edu) é um baita compositor e ótimo cantor, com um time de dar inveja e a escolha de lançar o seu primeiro disco completo autoral com essa formação contendo essas “homenagens” manchou em certa parte esse início, dando à obra uma cara inegável de caça-níquel. Edu pode (fez!) muito mais. Mas como disse no início deste parágrafo, foi uma escolha comercial e muito bem-sucedida, diga-se de passagem. Deixo, porém, uma pergunta: quantos discos “no estilo Angra anos 2000” serão bem-sucedidos assim antes que até mesmos estes fãs-órfãos se enjoem?

Finalizando, Vera Cruz é um álbum com uma produção portentosa, composto e gravado por gente com muito talento e experiência, mas que soa datado por conta dos clichês. O disco é abundante em excessos e no cerne de toda a grandiosidade apresentada aqui, encontram-se, em maioria, músicas medianas, com raros momentos de real excelência.

Em tempo, desejo boa sorte à banda e espero sinceramente que eles possam se libertar das amarras que se autoimpuseram em trabalhos futuros.

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