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Resenha: Apocalypse (1974)

Álbum de Mahavishnu Orchestra

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Diferente dos dois primeiros discos, mas emocional, poderoso e progressivo

Por: Tiago Meneses

27/05/2021

John McLaughlin e a sua Mahavishnu Orchestra atingiram um sucesso impressionante após lançarem em um período de dois anos duas obras-primas, The Inner Mountain Flame e Birds Of Fire, trazendo nelas toda a destreza do rock progressivo junto das progressões multicoloridas dos acordes do jazz, folk cigano e música clássica indiana com um toque de funk e psicodelia. Podemos dizer que aquela formação dos sonhos que contava além de McLaughlin, com Jerry Goodman, Jan Hammer, Billy Cobham e Rick Laird foi surpreendida pelo excesso de sucesso, pois até mesmo para aquela época, eles achavam seus discos complexos e intrincados demais para figurar, por exemplo, em um lugar tão alto da Billboard. Com isso, mais a intensidade da turnê, pressão da fama e as disputas internas, acabou fazendo com que a banda se separasse antes que um terceiro álbum já planejado pudesse ter virado realidade.  

Para ouvir algo novo com essa formação, a público iria ter que esperar mais de duas décadas, pois a banda lançaria só no ano de 1999 seu The Lost Trident Sessions, material gravado em estúdio do mesmo nome em Londres entre os dias 25 a 29 de Junho, para o terceiro álbum que a banda lançaria, porém, essas fitas ficaram “perdidas” até 1998. Mas John McLaughlin, mesmo estando sozinho, não só não colocou fim na Mahavishnu Orchestra, como teve que reinventar o projeto com uma formação completamente nova que contava com Gayle Moran no teclado e vocais, Jean-Luc Ponty no violino, Ralphe Armstrong no baixo e vocais, além de Michael Walden na bateria, percussão e vocais. Após a nova formação se consolidar, McLaughlin decidiu que o estilo central da banda ia ser mantido, mas também tinha algo mais ambicioso para ser entregue, assumindo em Apocalypse a sonoridade jazz-rock usual dos discos anteriores, só que também adicionando elementos de progressivo sinfônico e uma participação especial da Orquestra Sinfônica de Londres, com Michael Tilson Thomas como maestro. 

“Power Of Love” dá início ao disco de uma forma bastante suave, mostrando um arranjo orquestral simplesmente encantador liderado pelo violão lento e doce de McLaughlin. Achei essa uma belíssima peça de introdução. “Vision is a Naked Sword” é o tipo de música que segue a “regra” onde cada um dos membros possui o seu próprio turno. Começa com um trabalho orquestral poderoso, mas que logo sai de cena para dar lugar para a banda entrar e fazer o que eles fazem de melhor, ou seja, tocar um jazz-rock da melhor qualidade. Já nessa faixa a banda resume muito bem o que essa formação foi capaz de produzir. Jean-Luc Ponty com o seu violino elétrico sob a orquestra é brilhante enquanto que a guitarra de John fica por cima. Michael Walden é um baterista muito técnico e imprevisível, sendo exatamente esse tipo de bateria que ele entrega aqui, Ralph possui umas linhas de baixo muito interessantes e Gayle ataca com alguns teclados jazzísticos típicos. John com um wah-wah ataca o ouvinte com um solo frenético e maravilhoso. Tudo vai sempre acontecendo com a Orquestra Sinfônica desempenhando o papel de tocar o tema central de uma forma cheia de vigor.  

“Smile Of The Beyond” começa de uma maneira bastante doce, assim como já havia ocorrido com “Power of Love”, com um trabalho suave de orquestra ao fundo, dessa vez acrescentando os vocais adoráveis de Gayle Moran. Quando a música passa dos quatro minutos, a atmosfera onírica dá lugar a um festival de jazz-rock extremamente estimulante com McLaughlin e Ponty assumindo a liderança com alguns solos de tirar o fôlego. A música então entra novamente em um túnel de sonoridade introspectiva até chegar ao fim.  

“Wings Of Karma” mantem o disco na mesma linha, tendo sua parte introdutória feita pela Orquestra Sinfônica, enquanto que a principal atração fica por conta dos instrumentistas que entram na peça após o segundo minuto. Essa partitura sinfônica belíssima dá lugar a uma sensação jazzística com a guitarra e o violino fornecendo as principais melodias. McLaughlin e Ponty passeiam de maneira incrível sobre a orquestra enquanto desempenham com grande frenesi suas funções. A linha sinfônica de abertura então regressa e permanece até tudo chegar ao fim.  

“Hymn To Him” com mais de dezenove minutos é a faixa mais longa do disco, sendo também a que o encerra. Se o que você procura é uma música que mistura a clássica, jazz e rock de uma maneira extraordinária e original, então esse é o lugar certo. A sinfonia fornece um fundo fácil de ouvir, enquanto o violão e o violino adicionam notas floridas que sobem e descem. A orquestra começa a tocar um tema que vai crescendo até que McLaughlin vai soltando suas primeiras notas da sua guitarra, entregando a sua intensidade característica. “Hymn to Him” tem de tudo, além de seções incríveis de jazz e seções orquestrais magníficas, também tem um duelo alucinante entre McLaughlin e Ponty, linhas de baixo junto de uma bateria cheia de tecnicidade que criam uma seção rítmica impecável e invertidas muito bem certeiras de teclado. Pouco antes dos quinze minutos a orquestra ataca a música com toda a força criando um final de disco simplesmente apoteótico.  

No fim das contas, Apocalypse acaba sendo uma verdadeira erupção de musicalidade simplesmente excitante. Mas é bom deixar algo claro, você precisa ser do tipo de ouvinte que não tem problema com uma orquestra em sua música, na qual ela tem um papel principal como tema e definidor de clima do disco. Diferente dos dois primeiros discos, mas emocional, poderoso e progressivo.

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