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Resenha: Machine Head (1972)

Álbum de Deep Purple

Acessos: 49


Um disco essencial com música de excelência, pesada e contundente.

Por: Tiago Meneses

03/05/2021

Se tem algo que muitas vezes considero um grande desafio é escrever sobre um disco como o Machine Head, afinal, o que ainda não foi dito e que possa fazer com que eu prenda alguém lendo isso aqui?  Sinceramente, eu não sei, mas vamos seguira assim mesmo. Machine Head está repleto de ideias musicais marcantes, que se mantém muito bem diante da linha do tempo mesmo depois de quase cinquenta anos, se trata de um verdadeiro tesouro do hard rock e que serviria de grande influência para bandas e músicos que surgiriam nos anos seguintes.  

Cada músico em Machine Head está na sua melhor fase - não só em Machine Head, mas naquele período que marcava o início dos anos setenta. A incomparável voz de Ian Gillan, as passagens proeminentes de órgão do mestre Jon Lord fazem desse disco um verdadeiro prazer auditivo. Ian Paice desempenha um excelente trabalho, entregando alguns dos seus melhores “golpes” na bateria de toda a sua carreira, com batidas sempre inteligentes e quebras ótimas. O virtuosismo por trás da guitarra de Ritchie Blackmore dispensa qualquer tipo de apresentação, um músico artesanal de composições e performances de tirar o fôlego. Por último, mas não menos importante, temos Roger Glover, uma máquina que junto de Paice criam, seções rítmicas avassaladoras.  

Machine Head não é famoso apenas pela sua tempestade de músicas arrasa quarteirão, mas também por outras frentes, a mais conhecida delas com certeza sendo entorno da sua gravação que estava planejada para ser no Montreux Casino, na Suíça, uma enorme arena construída - e como o nome já diz – em um complexo de cassinos, além de restaurantes e locais para vários tipos de entretenimento. O local estava planejado para ser fechado após um concerto final de Frank Zappa and the Mothers para que o Purple gravasse o seu show ali, porém, alguém da plateia disparou um sinalizador na direção do teto, provocando um incêndio que deixaria o Cassino em cinzas. A banda ainda tentou gravar em outro teatro, mas teve essa tentativa abortada. No fim, a banda acabou gravando o disco no The Grand Hotel, fora de Montreux, com a “Rolling Stones Mobile One”, unidade de gravação móvel de propriedade dos Rolling Stones.  

“Highway Star” é a faixa de abertura do disco. Uma das músicas mais incríveis da história, matadora e extremamente vibrante do começo ao fim. A peça nos mostra a banda em perfeita forma, possui um solo de guitarra impressionante e um solo de hammond furioso, ambos fortemente influenciados pela música clássica, uma prerrogativa do som da banda. Os vocais de Gillan estão fora de série e a seção rítmica de Glover e Paice é sólida como uma rocha. Sempre me pergunto qual foi o impacto das pessoas que na época pegaram o vinil pra ouvir pela primeira vez e logo de cara receberam uma “pedrada” dessa.  

“Maybe I'm A Leo” possui mais um riff memorável de Blackmore – dessa vez com um aceno mais no blues. A faixa possui uma certa influência e uns vocais menos intensos de Gillan. Aqui a banda se direcionou para um ritmo mais suave, sendo o solo de Blackmore, de puro blues. O solo de órgão também é mais discreto e menos incendiário do que poderíamos esperar depois de um começo tão impactante, mas de qualquer forma, acho que a música funciona muito bem no disco.  

“Pictures Of Home” começa com um pequeno solo de bateria que parece querer avisar o ouvinte que algo grandioso está para acontecer novamente, sendo no fim das contas, o que realmente acaba acontecendo, pois se trata do Deep Purple na sua forma mais pungente. Os vocais se Gillan mais uma vez estão arrebatadores. O órgão de Lord estão distintos e com uma distorção que o deixam maravilhosos. Até mesmo Glover – que através de linhas sólidas de baixo consegue muitas vezes se destacar – aqui ganha tempo para um pequeno solo antes que Blackmore faça mais um ótimo solo de guitarra que guia a música para um final falso seguido de um retorno que conseguiu deixar a música mais peculiar ainda.  

“Never Before” a princípio traz o disco novamente para uma direção mais lenta, mas dessa vez não é usado o blues como influência, tudo soa de forma mais funky nos primeiros trinta segundos, mas então a banda quebra o ritmo e segue em uma linha hard rock. Gillan consegue cantar essa peça de uma forma bastante apaixonada e isso parece que “contagiou” a banda. Apresenta uma excelente combinação de vocais melodiosos e uma melodia hard padrão, porém, intensa. Grande quebra de guitarra na seção intermediária e algumas tonalidades fortes no final. Por último, mas não menos importante, Lord deixa sua marca registrada com um excelente solo de órgão antes da peça chegar ao fim.   

“Smoke On The Water” é certamente a música mais conhecida da banda e que traz com ela um dos riffs mais conhecido da história do rock. Particularmente eu já inclusive enjoei dela e raramente a escuto, sendo nesse caso uma faixa que não envelheceu bem para os meus ouvidos - porém, jamais vou me opor contra em relação a sua qualidade ou status de clássico absoluto. Começa com um riff de guitarra isolado antes de cada membro ir entrando em momentos diferentes até começar os seus primeiros versos – em que a banda conta a história cheia de complicações envolto da gravação do disco. O título da música foi cunhado por Glover depois que ele sonhou com a fumaça do incêndio do cassino se espalhando pelo Lago de Genebra. 

“Lazy” é o momento em que o espirito de jam entra no disco. São cerca de quatro minutos e vinte segundos de uma instrumental cheia de vigor e muito blues, jazz e funk – citaria a The Allman Brothers Banda como uma boa influência aqui. Algo óbvio que acontece em uma introdução dessa é que tanto Blackmore quanto Lord tenham seus momentos de brilho através de solos excitante até enfim chegar em um arranjo blueseiro mais otimista. Até Gillan também ataca de instrumentista, deixando uma marca de gaita entre alguns versos. “Lazy” é certamente mais uma das músicas que figuram entre as melhores de todo o catálogo do grupo.  

“Space Truckin'” é a faixa que finaliza essa obra prima. Mais um desfile de riffs poderosos, órgãos esmagadores e uma seção rítmica - principalmente a bateria - sólida e pesada. Na sua parte central, Blackmore faz o ouvinte crer que mais um dos seus solos incríveis vai dominar a faixa, porém, ele sai do caminho e é Paice com suas baquetas quem ofusca o momento antes que Ian Gillan retorne cantando o refrão. Um final de disco bastante forte e enérgico, embora eu ache que terminar a última faixa de um álbum dessa magnitude em fade-out seja uma bola fora.  

Machine Head é um verdadeiro marco e um dos discos mais influentes para a história do hard rock e do metal. Trata-se de um daqueles álbuns onde cada música oferece algo diferente que a deixa independente, enquanto ainda trabalha coerentemente como parte de um todo maior. Esse som os levou ao estrelato completo e mostrou ao mundo o quão o Deep Purple merecia ser grande. Por muito pouco eu ainda consigo gostar mais do In Rock, mas de qualquer maneira, Machine Head é um disco essencial com músicas de excelência, pesada e contundente.

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