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Resenha: Pollen (1976)

Álbum de Pollen

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Um disco fortemente sinfônico com arranjos muito complexos

Por: Tiago Meneses

01/05/2021

Costumo dizer que ao escutarmos esse disco, estamos diante de uma banda canadense, cantando em francês enquanto soa como uma banda de rock progressivo italiana – embora a influência inglesa também seja forte. Um disco de rock progressivo sinfônico simplesmente maravilhoso que já começa a ser belo a partir da sua arte na capa. A música da banda oferece uma eletricidade sinfônica e um rock técnico cheio de leveza, acrescentado de um folk acústico e tendências pastorais. Além do progressivo italiano já citado, é possível notar uma influência do Genesis clássico em algumas partes – principalmente em momentos mais agitados do álbum.  

Lançado em 1976, este disco autointitulado contém algumas das melhores e mais impressionantes peças de rock progressivo produzidas na América do Norte. Ao lado da Harmonium e Maneige, podemos dizer que a Pollen formava a trinca das maiores bandas da cena progressiva de Quebec dos anos 70. Mas a sua música era a que mais se enraizava no gênero sinfônico em comparação aos seus compatriotas, que tinham suas músicas mais orientadas para o folk, caso da Harmonium, ou fusion, caso da Maneige. A banda uniu uma forte musicalidade e efeitos especiais deslumbrantes, contribuindo assim, de forma sinfônica e em um grau significativo para o mundo do rock progressivo.  

" Vieux Corps De Vie D'ange” é a faixa de abertura e que já começa a escalada do disco de maneira soberba, com a banda tratando de dar imediatamente ao álbum seu tom e um excelente exemplo do seu estilo musical único. A faixa oferece uma mistura dramática de pompa e atmosfera sinfônica repleta de lindas incursões de teclado e vocais extremamente dramáticos. Falando em teclas, se você - assim como eu - é um fã delas, você vai ter muito o que apreciar aqui, piano, órgão e sintetizadores, além de um adorável solo de vibrafone são utilizados lindamente na música.  

“L'étiole” direciona o disco para um caminho mais suave. Abre primeiramente com uma flauta que logo em seguida ganha a companhia do violão e a chegada dos vocais. O resultado disso é um som de uma grande suavidade e muito agradável. Esse clima mais pastoral encontrado aqui é muito interessante para que a banda mostre que eles também eram capazes de fazer peças mais amigáveis até mesmo para tocar em uma rádio.  

“L'indien” faz com que o disco permaneça em um clima de balada. Dessa vez voz e violão começam simultaneamente. É impressionante como Jacques Rivest consegue colocar sua própria marca na peça e seu vocal melancólico e violão são dolorosamente comoventes. Ainda que seja a faixa “mais simples” do álbum, ela não deixa de ser verdadeiramente requintada. Em resumo, mais uma peça de qualidade e que mantém o alto nível do disco.  

“Tout'l Temps” é a faixa mais curta do álbum. Traz o disco para um ritmo mais acelerado que é construído sobre uma bateria jazzística e um teclado quase sempre frenético. Os vocais são ótimos e as teclas apesar de se destacarem o tempo todo, acho válido citar o solo de sintetizador no meio da música que é incendiário. A banda consegue mostrar mais uma vez que apesar de criar algumas peças de caráter mais pop, não deixa de oferecer toques sinfônicos. A música vai ter terminando em fade-out.  

“Vivre La Mort” é sem dúvida alguma um dos destaques do disco. Começa com um órgão poderoso que logo ganha a companhia dos vocais. A estrutura musical da peça é construída sobre uma poderosa bateria e acordes teatrais de órgão à medida que a faixa segue em uma crescente. Na parte central a banda novamente mostra toda a sua natureza sinfônica, as guitarras também vão ganhando força enquanto que a música vai se tornando cada vez mais épica antes de chegar ao fim de forma abrupta.  

“La Femme Ailée” é a faixa que encerra o disco e também a mais longa – e melhor - delas com mais de dez minutos de duração. Começa com algumas suaves passagens de violão e um vocal delicado, criando assim um clima bastante pastoral. Lentamente vamos percebendo que a faixa vai aumentando em intensidade, agora com alguns sintetizadores também fazendo parte do corpo da peça. Então que pouco depois dos quatro minutos essa sensação melancólica explode de uma forma grandiosa. A partir disso, o que temos é uma verdadeira aula de músicos incríveis criando mudanças complexas de andamento e linhas instrumentais superlativas. Pouco depois dos seis minutos há um solo de órgão simplesmente arrepiante e que antecipa uma poderosa percussão de bateria. A peça ainda entrega um pequeno solo de mini moog e uma excelente guitarra. Os dois minutos finais são simplesmente um exercício de clímax sinfônico brilhante e que agradará a qualquer fã do gênero. A peça ainda possui trechos emocionantes e uma execução bem pensada e nítida antes de voltar ao tema principal para poder chegar ao fim. Um final de álbum apoteótico.  

Apenas uma cópia do que já era feito a muito tempo na Europa? Negativo, Pollen através desse disco vai muito além, tendo suas influências britânicas e italianas muito bem assimiladas e recicladas de acordo com uma proposta musical original e autêntica. Um disco fortemente sinfônico com arranjos muito complexos que considero essencial para qualquer amante de rock progressivo que admire principalmente o uso extensivo de teclados.

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