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Resenha: A Child In The Mirror (2010)

Álbum de Ciccada

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Canções complicadas e progressivas no sentido mais lisonjeiro da palavra

Por: Tiago Meneses

29/04/2021

A Child In The Mirror é o primeiro disco da banda grega de rock progressivo e folk, Ciccada. O álbum possui uma música que é muito agradável e cálida, mas também suave e calma. O domínio com que as flautas e os vocais definem bem o som da disco é o elemento que permeia todo o álbum e cria toda a sua atmosfera e charme. Todas as músicas aqui repousam em um “rock sinfônico”. Muito melódica, com forte influência folclórica - principalmente inglesa, não grega -, a música é uma espécie de progressão sinfônica contemporânea. Sem toques obscuros ou sombrios, mas com alma ensolarada do Mediterrâneo, a música quente e leve pode realmente atrair uma grande variedade de ouvintes e não apenas aqueles que procuram uma música progressiva.  

“Ciccada” é uma faixa homônima a banda e que também começa o disco através de um baixo solitário que logo vai ganhando aos poucos companhia da flauta e do órgão, até que perto dos quarenta segundos todos os instrumentos se unem e a peça passa a ter um ritmo médio e bem cadenciado. Ela silencia rapidamente mais a frente, flauta e violão tomam a dianteira até que uma bateria meio militar vai emergindo, trazendo com ela uma linha de guitarra – esse processo acontece algumas vezes, mas a bateria voltando com outro tipo de batida.  

“Isabella Sunset” começa com piano e violino antes da bateria, baixo e guitarra se juntarem a eles – esse início possui um toque barroco. Não sei se a letra tem, mas a melodia vocal consegue passar uma grande sensação de Nil ou Thieves' Kitchen, onde o canto feminino consegue ser um importante instrumento na peça - nesse caso a voz de Evangelia Kozoni é lindamente operística. Uma bela música e com construções de composição às vezes bem intrincadas.  

“Ένα παιδί στον καθρέφτη - A Child In The Mirror” é uma das faixas em que a banda mostra o seu lado grego, sendo cantada em seu idioma nativo – ao menos eu imagino que seja. Possui um começo bastante suave e descontraído, com os vocais sendo apresentados de forma mais reservada. Esse clima é o que permanece basicamente por toda a faixa. É bom deixar claro que essa faixa é um pouco influenciada pelo jazz – o que acaba não funcionando para alguns ouvintes desse tipo de banda. Apesar de não ter exatamente a mesma qualidade das faixas anteriores, também gosto do que escuto aqui.  

“A Storyteller's Dream” é uma faixa incrível, certamente a minha preferida do disco. É principalmente instrumental – tem no máximo alguns “ohh e ahh” - e com uma base forte nas tradições folclóricas. Começa lindamente através de um violão, órgão e flauta. É possível lembrar um pouco de Strawbs - então aconselho aos fãs dos britânicos, ouvir essa aqui também. Muita influência na música medieval. Os trabalhos de flautas são simplesmente brilhantes. É difícil decidir o que mais se destaca aqui, se flauta, violão ou órgão, de qualquer forma, a música é fantástica em todas as formas possíveis do começo ao fim.  

“Raindrops” tem uma sensação muito pastoral e folk, com flauta, violão, fagote, piano elétrico e voz constantemente entrando e saindo das linhas melódicas umas das outras. A banda também utilizou aqui um xilofone – algo que não havia feito nas faixas anteriores. Bastante suave, funciona muito bem para o momento do disco. Uma peça de excelente composição e bela instrumentação.  

“An Endless Sea” é mais um dos melhores momentos do disco. O sentimento que essa peça traz é bastante retrô. Possui um pouco de vocal logo no início, mas novamente o que se desenvolve novamente é uma faixa quase inteiramente instrumental. Ótimo violoncelo, linhas de baixo criativas, guitarras pesadas - até muito pesadas se comparado com as demais músicas do disco -, bateria enérgica em vários pontos da peça, flauta mágica e o piano elétrico muitas vezes proeminentes. Uma faixa incrível.  

“Epirus - A Mountain Song” começa através de um piano, clarinete e um vocal bastante doce, criando uma cena quase semelhante à de uma música erudita. Mais à frente a peça é embelezada com a introdução dos demais instrumentos. É nítido o quanto que essa banda se influencia pela música medieval – todos os seus integrantes devem serem fãs do gênero.  

“Elizabeth” é outra faixa completamente instrumental que começa com grandes inclinações folks acústicas antes de se direcionar para algo mais clássico e erudito – talvez até um pouco renascentista. Quando a bateria de fato de posiciona – em pouco depois de um minuto -, sua sonoridade a princípio é construída até mesmo em uma cadencia simples. Então que não demora muito e a peça recebe alguns ataques instrumentais mais pesados – principalmente da guitarra e bateria, além do piano mais uma vez sempre em evidencia -, voltando em seguida para sua sonoridade acústica e pastoral, porém, complexa e sofisticada. A bateria novamente guia a peça quase em uma batida pop – com uma instrumentação sempre sofisticada de fundo. A faixa sofre o mesmo “ataque” pesado que anteriormente. Como aconteceu em todas as faixas até aqui, uma boa quantidade de instrumentos apimentou e evitou que ela se torne muito repetitiva, previsível ou chata.   

“Η Στιγμή (I Stigmi - The Moment)”, é a faixa mais curta do álbum e onde eu acho que se tem muito pouco a ser falado sobre. Basicamente uma música com uns poucos vocais iniciais e depois uma seção instrumental simples, porém, sem deixar de ser bela. Vocais esses que eu imagino que também sejam em grego.  

“A Garden Of Delights” é a faixa que encerra e é a mais longa do disco. Começa de uma forma extremamente influenciada por Jethro Tull, mas logo os vocais quase operísticos de Evangelia mudam isso – assim como o refrão cativante que consegue dar para a música uma identidade própria. É aquele tipo de música que é melhor ouvir com um bom fone de ouvido, pois assim é mais fácil de ir percebendo quantidade enorme de instrumentos que ela possui. Música e letra - além de vocais expressivos – leva o ouvinte a uma grande jornada, onde existe muitas voltas e reviravoltas, tentando nos fazer ver sentido e alegria contra o pano de fundo de uma vida muito árdua de dor e luta. Uma música extremamente poderosa e complicada, com passagens instrumentais brilhantes, produzindo aquilo que pode ser chamado do mais puro rock progressivo clássico.  

O maior problema com essa banda, é que ela deixa o ouvinte por anos com aquele gostinho de quero mais, pois desde que ela estreou na cena progressiva mundial, através de, A Child In The Mirror, até hoje, só lançaram três discos – sendo o último agora mesmo em 2021. As texturas musicais em todas as canções são complicadas e progressivas no sentido mais lisonjeiro da palavra. Uma mistura verdadeiramente obrigatória, tanto para os fãs de progressivo retrô, quanto para os fãs de progressivo geral – acho inclusive que vai agradar mais esses.

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