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Resenha: Wolffpack (2020)

Álbum de Dewolff

Acessos: 72


Um disco retrô de blues-rock, hard e soul com o frescor de um jovem trio

Por: Expedito Santana

26/04/2021

A primeira vez que ouvi falar do DeWolff foi por meio de uma matéria aqui no site 80 Minutos escrita pelo colaborador Márcio Chagas, grande conhecedor de música, intitulada “As novas bandas responsáveis pela renovação do rock!”, na qual ele rasgava altos elogios ao trio holandês, colocando-o entre as promessas da nova safra do rock. Apesar de ter considerado o texto bem interessante, acabei inexplicavelmente não correndo para escutar a banda. Até que num belo dia ouvindo minhas playlists pelo streaming fui fisgado pelos “famosos” algoritmos que me apresentaram finalmente ao som dos prodigiosos holandeses. 

Após escutar algumas faixas avulsas, resolvi começar em sentido anti-horário, ou seja, pelo último álbum, justamente o objeto desta análise. Face a inexistência, até o momento, de análises sobre o trio holandês no glorioso 80 Minutos, venho compartilhar as minhas impressões de “Wolffpack” bem como sanar a pequena lacuna.  

A banda foi fundada em 2007 nos Países Baixos, na província holandesa de Limburgo, e é formada pelos irmãos Pablo van de Poel (guitarra e vocal) e Luka van de Poel (bateria), além de Robin Piso (vocal, órgão e piano). O primeiro trabalho deles é o EP autointitulado, lançado em 2008 e que já mostrava um som bem maduro a julgar pela pouca idade dos rapazes à época (o mais velho era Robin que tinha apenas 18 anos). 

O citado EP, inspirado no rock psicodélico setentista, deu uma certa projeção à banda na cena holandesa, habilitando-a, inclusive, para tocar num show de maior porte realizado em Paradiso, Amsterdã. Depois então vieram os LP´s: “Strange Fruits And Undiscovered Plants” (2009); “Orchards/Lupine” (2011); “IV” (2012); “Grand Southern Electric” (2014); “Thrust” (2018) e “Tascam Tapes” (2019), até chegar em “Wolffpack”, lançado no ano passado pela Mascot Records nos formatos LP e CD, e também disponível em algumas plataformas de streaming.     

O dado curioso deste álbum é que ele nasce de um processo colaborativo entre a banda e os fãs iniciado em 2020 por força da Pandemia da Covid-19, já que o trio, assim como milhares de artistas mundo afora, estava impossibilitado de fazer shows. A ideia, bastante inovadora por sinal, aproximou ainda mais os fãs da banda, que por meio de uma assinatura receberam semanalmente músicas do grupo e ao final tiveram a chance de participar também da escolha das faixas incluídas na tracklist do álbum. Falando em colaboração, o disco contou também, diferente do que geralmente a banda faz, com a participação de convidados especiais, de nomes como Diwa Meijman, Stefan Wolfs entre outros.   

Em meio a esse clima de forte interação banda/fãs, o álbum acabaria também sendo divulgado boca a boca por um longo período e de forma quase exclusiva e em primeira mão dentro dos círculos mais próximos de admiradores do grupo. O fato é que neste novo trabalho do Dewolff, além de um conjunto de faixas pré-legitimadas por alguns fãs, pode ser encontrada uma massa sonora musical que busca inspiração no hard rock de bandas como Deep Purple e Led Zeppelin, num blues-rock que parece um cruzamento de Alabama Shakes/The Black Keys/Jack White, no southern rock e até na soul music. E o melhor, tudo acrescentado a doses de psicodelismo turbinado pelo órgão Hammond e reencarnado diretamente dos anais mais sublimes do rock and roll, contudo, tendo como resultado um caldo temperado com a acentuada personalidade dos holandeses, que passam bem longe de serem meras caricaturas de quaisquer de suas influências. 

O pé na porta vem nas asas da festiva “Yes You Do”, onde um Hammond vintage vai colorindo tudo enquanto a guitarra borrifa efeitos no ar nesse verdadeiro encontro do art rock pop e o southern rock, cujo refrão grudento, solos de guitarra e órgão contrapostos são de lamber os beiços. Entrada memorável!! 

A segunda faixa não deixa por menos, “Treasure Child Moonchild” é um rockão classudo possuidor de todos aqueles típicos elementos: guitarra derramando solos, órgão esfuziante (que compensa a ausência de baixo) e bateria repleta de variações. Pra mim remete um pouco a Purple, principalmente nas notas do órgão, embora caminhe geralmente por uma estrada de um blues acelerado. Para baixar um pouco a luz surge a baladinha sensual com pezinho no R&B “Do Me”, adornada por teclas formidáveis e licks elegantes de guitarra. 

Contando com a participação vocal espetacular de Diwa Meijman, uma cama de órgão sensacional e guitarrinha faiscante, as puxadas de “Sweet Loretta” balançam até defunto. A batida funk/soul de ‘Half Of Your Love”, por seu turno, bagunça ainda mais o jogo com seus incríveis vocais de apoio e órgão imutável e paradoxalmente dançante. Faixa deliciosa!  

“Lady J” é um blues-rock de arrebentar capitaneado por um chamejante órgão e guitarra alvissareira, de refrão sexy e com alguns quinhões de psicodelismo. “Roll Up the Rise” tem uma entrada curta de bateria que lembra “Two Princes” do Spin Doctors, mas trata-se na verdade de um rock charmoso de pegada soul, com direito a solinho meio firulento e que carrega algo de The White Stripes e Jack White, no qual o órgão não dá trégua e os trabalhos percussivos são o maior destaque. 

No denso blues de fio desencapado “Bona Fide” a monstruosidade da bateria salta aos olhos e a guitarra sobe o volume e a veemência num possante riff que briga para ser hegemônico. Logo em seguida vem “R U My Savior?”, um hard rock que soa meio The Black Crowes, com roteiro que inclui sedutores metais (sax, trompete e trombone) e um simpático solo de guitarra de Pablo, que já revelou ter aprendido seu instrumento tocando Jimi Hendrix (este comentário fica só a título de curiosidade, longe de mim querer fazer comparações com o Deus da Guitarra!!). 

Cabe à majestosa “Hope Train” fechar o disco. Enxergo na introdução algumas notas de “Leãozinho” de Caetano Veloso (talvez seja viagem minha...rsrsrs) emendadas a um blues guiado por uma guitarra meio acústica. Esta música apresenta uma levada rítmica progressiva que parece combinar post-rock e country, deixando uma valiosa melodia e mais um admirável solo de órgão na conta. 

Obviamente que o Dewolff ainda tem muito estrada pela frente, porém, é extremamente confortante enxergar na cena rocker atual gente criativa e talentosa que, mesmo sorvendo de fontes tradicionais, consegue arquitetar com maestria seu próprio estilo musical, expresso em composições ricas, melódicas e brilhantes que lançam uma lufada de ar fresco muito bem-vinda. Um excelente disco produzido por músicos afiadíssimos que parecem pedir respeitosamente o bastão!

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