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Resenha: Ira (2020)

Álbum de Ira!

Acessos: 72


Conciso e consistente

Por: Jefferson Vicente

25/04/2021

Lançado em junho de 2020, durante a pandemia de COVID-19, "IRA" é o primeiro trabalho de canções inéditas da banda em 13 anos, que se separou em 2007, mas que retomou suas atividades em 2014.

Produzido por Apollo 9, o sucessor do pouco inspirado Invisível DJ (Arsenal/Universal Music, 2007) traz ainda mais vigor para a discografia do Ira!, com elementos musicais já presentes na carreira do grupo, como mod e pós-punk, aliados a momentos líricos e uma aura feminina presente em diversos momentos ao longo do álbum. Outro destaque é a nova formação do grupo, com o baterista Evaristo Pádua e o baixista Johnny Boy, que acompanham Nasi em sua carreira solo.

O álbum abre com "O Amor Também Faz Errar", que representa uma volta ao estilo que consagrou a banda em seus primeiros discos. Um som de trio, puxado pela guitarra limpa e pelos tímpanos tocados por Edgard, instrumento utilizado anteriormente na canção "O Ladrão Era Eu", lançada no disco Meninos da Rua Paulo (WEA, 1991).

"A Nossa Amizade", segunda faixa do disco é um momento lírico, com ar radiofônico e com forte influência das baladas pop dos anos 60. Também apresenta tímpanos junto a um quarteto de cordas. Os versos como “deixamos assim / alguns metros de distância / agora é assim”  podem soar atuais no triste momento que estamos passando, mas a letra é atemporal, ao falar como um relacionamento amoroso deveria ser no fundo uma amizade.

"Respostas", escrita por Edgard em parceria com Silvia Tape, é o momento mais visceral do disco. Em seus quase seis minutos, Scandurra mostra mais uma vez que é um dos grandes nomes da guitarra brasileira em solos e riffs bem trabalhados, aliado ao baixo e a bateria potente de Johnny e Evaristo. 

A música "Mulheres à Frente da Tropa" – que ganhou um videoclipe dirigido por Luciana Sérvulo – é mais um dos pontos altos do álbum. A força da mulher nos campos políticos, sociais e no dia a dia é abordada em versos feitos e interpretados por Scandurra. Sob influência do cantor, compositor e ativista chileno Victor Jara (1932-1973) com ares de Milton Nascimento, a canção traz um coro de vozes femininas, contando com a participação de Virginie Boutaud, vocalista da banda Metrô.

"Você me Toca", segunda parceria de Edgard com Silvia Tape, apresenta influência soul mesclada ao rock. O som de trio (baixo, guitarra e bateria) continua quente e preciso, além de ser o grande momento vocal de Nasi no disco.

"Efeito Dominó", também com a participação de Virginie, que é coautora da canção, já está entre as grandes músicas românticas feitas pela banda. O videoclipe, dirigido por Gustavo von Ha, teve cenas gravadas já durante a quarentena em decorrência do Corona vírus e foi lançado juntamente com o álbum.

A sétima faixa, "Chuto Pedras e Assobio", parceria de Edgard com a cantora Bárbara Eugênia, é a mais antiga canção do repertório. Lançada como terceiro single, ela foi composta em 2010, anos antes da volta da banda e permaneceu inédita até então. Com assobios e uma linha de baixo marcante executada por Johnny Boy, a banda faz uma citação à música "Poço de Sensibilidade", lançada no Acústico MTV (Arsenal/Sony Music, 2004).

Até em seus instantes finais, o disco mantém o mesmo padrão de qualidade. "Eu Desconfio de Mim" traz elementos de pós-punk presente em bandas como Talking Heads, Television, Joy Division e Gang Of Four. A última, tinha como líder o músico Andy Gill (1956-2020), sempre citado por Edgard como um de seus guitarristas favoritos. "O Homem Cordial Morreu" faz jus ao
passado da banda, influenciada pela sonoridade mod de The Who e The Jam aliado a um arranjo de cordas. Praticamente um clássico instantâneo.

O álbum encerra com "A Torre", com vocalização da cantora Marisol Jardim, que participou de Benzina (Rock It!/Virgin, 1996), segundo disco solo de Edgard. Sua gravação foi realizada via WhatsApp. O som de guitarra, aliado à percussão e ao piano fecham o disco de forma sublime.

Apesar de algumas características de "IRA" já estarem presentes ao longo da carreira da banda, o novo álbum não soa repetitivo, tampouco datado. Uma ótima retomada à vida discográfica da banda, que só havia lançado como trabalho recente o DVD Ira! Folk (Canal Brasil, 2017). É muito bom saber que uma banda com quase 40 anos de carreira está de volta com um trabalho conciso e consistente. Vida longa ao Ira!.

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