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Resenha: Jards Macalé (1972)

Álbum de Jards Macalé

MPB

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Minimalista, mas profundo, Macal trouxe um disco inusitado e experimental

Por: Lucas Alves De Araújo

23/04/2021

No início dos anos 70, Jards Macalé já vivia em crescente na música. Havia gravado um compacto no ano de 1969 e já tinha colaborado com artistas como Nara Leão, Maria Bethânia e Caetano Veloso – sendo este último fazendo parte da gravação do disco Transa (1972) –, além de ter músicas gravadas por outros importantes nomes, como Gal Costa. Diante desse cenário, Jards decide fazer o que mais desejava: Gravar o próprio disco. E aconteceu em 1972, com um trabalho homônimo que mudaria muito os rumos de sua carreira. O disco é tido como um dos trabalhos mais importantes – tratando-se principalmente de sua mesclagem pop ao transitar pelo rock, samba, Bossa nova, jazz, blues… – da história da música brasileira. Foi gravado com características minimalistas, tendo como contexto o que se é apresentado instrumentalmente, contando com o guitarrista já famoso na época da Tropicália, Lanny Gordon, com o expressivo baterista Tutty Moreno e pela produção, que por não ter tido muito investimento aconteceu de uma maneira praticamente ao vivo.

Algo importante também sobre o álbum é o seu momento na história. A ditadura pegava no pé, era um momento péssimo, e as letras, compostas por poetas subversivos – foram eles: José Carlos Capinam, Torquato Neto, Duda Machado e Waly Salomão –, deram ao trabalho uma força e uma diferença a mais quando se fala em criatividade, além de ter dado seu aspecto de dureza e enfrentamento. Participaram também Gilberto Gil e Luiz Melodia, fechando e fazendo desse processo um excelente resultado.

O disco começa com ‘’Farinha do Desprezo’’, uma música cheia, com uma notável presença de um samba rock. A forma em que ela entra eu gosto bastante, com Tutty fazendo uma virada na bateria com uma pausa que vou te contar, deixa você acreditando que a música vai começar em um momento e, ela acaba começando é em outro. É interessante a maneira que ele ataca o chimbal e depois sobe para os tons. Quebradas fazem parte e uma delas é caindo numa Bossa, mas que logo desaparece, voltando para o que era antes e entrando num solo lindo demais de se ouvir. Seu fim é entrando numa harmonia ‘’agressiva’’, marcada por um baixo bem aveludado. Em todos os momentos, tudo é destacado e a música soa estranhamente, o que é uma característica que o Jards deixa bem clara no disco. Sobre a letra, composta por Capinam, se descreve bem a situação em que eles estavam, tendo que conviver com o desprezo que sentiam daquele momento político imposto pela ditadura.

‘’Vapor Barato/Revendo Os Amigos’’, é uma faixa onde Jards abre cantando a capela, sua voz vem de baixo e vai subindo, e, por fim, sumindo. ‘’Vapor Barato’’ é uma canção que com alguns arranjos fez muito sucesso na interpretação de Gal Costa, e acredito que muitos a devem conhecer assim. Quando começa ‘’Revendo os Amigos’’ é a música e o momento que mais curto do trabalho. A letra, composta por Waly Salomão, quando saiu na música voltou da censura: Na letra original falava no final ‘’volto pra cuspir’’ e isso deu problema, daí cortaram essa frase e Waly acabou colocando o ‘’curtir’’. A letra também reforça um momento ruim na vida de Waly com a ditadura, ele acabou sendo preso enquanto andava pela cidade e quando saiu ficou paranoico, claro, com as coisas que aconteceram, medo da cidade grande, etc. Seu sentimento diante da morte é colocado, então, em poesia: ‘’Eu vou, mato, morro, e volto para curtir.’’ Existe uma mistura de rock com forró, um violão cheio de puxadas, com um baixo bem firme e uma bateria ora com ataques rápidos, ora fazendo um leve acompanhamento, mas sempre no ritmo de um Jards incisivo, cantando para soar atrevido e num tom quase debochado. Aqui, o disco apresenta bem seu ar de coisa crua e anticomercial.

‘’Mal Secreto’’ é mais uma letra de Waly Salomão e outra música que Gal Costa tinha em seu repertório. Uma música que soa melancolicamente, com pitadas de sofrimento e uma inquietação danada. É possível notar o blues expressivo que soa com algumas derivações de samba e jazz. Uma coisa que não deixo de notar sempre que a escuto é umas travadas que o Jards faz em alguns momentos com a boca, sugando o ar com a saliva, um troço bem esquisito (risos) deixando à mostra um aspecto seu peculiar que aparece também na faixa a seguir.

‘’78 Rotações’’ é uma faixa com liberdade sonora individual, e que mostra bem o entrosamento e o talento da banda, destacando-se muito pelo teor jazzista. Existe na letra de Capinam uma metalinguagem que transmite o desenrolar sobre a ideia de gravar, a situação em que acontece sendo descrita juntamente, claro, com a gravação sonora.

‘’Movimento Dos Barcos’’ para mim, é a faixa mais linda do trabalho. Uma letra – também do Capinam – marcante, um eu lírico repleto de desabafo e desejo que Jards musicou singelamente, fez a letra fluir com calma e cair diretamente, sem repetições de frases. A faixa é uma quebrada diante das experimentações mais agudas que o trabalho estava propondo.

‘’Meu Amor Me Agarra E Geme E Treme E Chora E Mata’’ é um samba canção, por assim dizer, com umas entradas estranhas de violão e com uma atmosfera triste, meio surreal, de fantasias, onde Jards a interpreta com um certo grau de agonia.

‘’Lets Play That’’ é um samba rock cheio de progressões. Um poema de Torquato Neto musicado com muita improvisação por uma banda bem arrumada. Acho descarado o jeito que Jards canta, cheio de mungangas diante da letra.

‘’Farrapo Humano/A Morte’’ é uma junção de duas músicas, que são as únicas do disco que não são composições do Jards. ‘’Farrapo Humano’’ é de Luiz Melodia e ‘’A Morte’’ é de Gilberto Gil, sendo que a composição do Gil só entra na última faixa do disco, ‘’Hotel Das Estrelas’’. Jards deixa ‘’Farrapo Humano’’ com uma cara de rock desses de breque e uma pegada de blues também é notada. Um som bem cru, principalmente pela forma que é executado.

‘’Hotel Das Estrelas’’ é a última faixa do disco, como foi colocado. A letra é de Duda Machado e teve gravação também com uma interpretação bem impactante feita pela Gal Costa. O início da música é com Jards interpretando ‘’A Morte’’, do Gil, em uma levada meio samba canção. A letra do Gil transmite uma coisa meio turva, um pensamento do que é a morte, de como e deve ser sua chegada. É lindo. Depois é que Jards começa a cantar, de forma leve, ‘’Hotel Das Estrelas’’, num blues meio troncho, trazendo junto uma expressão bem subjetiva e a terminando de forma reflexiva: ‘’Rio E Também Posso Chorar.’’

Ser um artista com ousadia naquele momento, pro país, não funcionou muito frente ao público e era de se esperar pela profundidade que o disco teve. Entretanto, a música brasileira não seria tão conceituada se não fosse por artistas como Jards Macalé, que por experimentar e atrever-se diante das circunstâncias em que se encontrava, conseguiu não só fazer um trabalho de fuga as mesmices da época, como também influenciou e influencia artistas até hoje.

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