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Resenha: Happy Sad (1969)

Álbum de Tim Buckley

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Mais uma pérola essencial de Tim Buckley

Por: Expedito Santana

22/04/2021

Tim Buckley sempre manteve uma postura artística inquieta e jamais se acomodou nas próprias zonas de conforto (folk tradicional), ainda que isso lhe custasse queixas vindas das gravadoras ou dos fãs em geral. “Happy Sad” é o terceiro álbum de estúdio do cantor/compositor e foi lançado pela Records Elektra em julho de 1969. Embora não seja o seu trabalho mais acessível, obteve uma ótima receptividade, principalmente da crítica. Vale lembrar que o período de composição de “Happy Sad” foi tão prolífico para Tim a ponto de ter gerado sobra de material que seria utilizado nos dois álbuns subsequentes, “Blue Afternoon” (1969) e “Lorca” (1970). 

“Happy Sad” é uma jornada reflexiva sobre o amor e a lembrança, que desnuda sem restrições a faceta poética do inveterado romântico Tim Buckley. A música deste álbum é predominantemente orgânica, com a guitarra leve e melódica de Lee Underwood, o baixo acústico de John Miller e os trabalhos preciosos de marimba, vibrafones e congas deixando a voz maravilhosa de Buckley flutuar livremente. Aliás, nunca é demais ressaltar que Tim era um cantor intenso e de uma entrega emocional inigualável, conhecido por mergulhar profundamente nas interpretações e transbordar uma melancolia absolutamente autêntica, só possível àqueles que viveram verdadeiramente os momentos de dor que cantam. Neste álbum, Tim Buckley afasta-se às vezes da linha folk/rock de orientação mainstream de seus dois primeiros trabalhos e aproximasse corajosamente de um jazz/blues mais experimental. 

A abertura com “Strange Feelin”, um blues desértico inspirado no mestre Milles Davis, delineia claramente para onde as coisas caminhariam. A voz de Buckley parece um pouco estranha no início com um registro baixo e meio destoante do instrumental, mas logo à frente se ajusta e nasce uma bela canção de refrão cativante e cama jazzística feita pelo vibrafone de Friedman na qual o cantor passeia com seus gritos e uivos característicos.      

A mais solicitada nos shows, para azucrinação do próprio Tim, “Buzzin Fly”, é provavelmente uma referência às suas viagens e alucinações narcóticas. Esta faixa mais convencional recupera um pouco da verve folk de Tim, lembrando "Goodbye And Hello" (1967). 

A densidade melancólica estampada em maior variedade nos dois primeiros álbuns aparece fortemente na suíte “Love From Room 109 At The Islander (On Pacific Coast Highway)”, que tem a onipresença de sons de ondas e carrega texturas delicadas como um eirado que serve para aflorar as memórias de um romance, e segue calcada num vibrafone introspectivo e na voz apaixonada de Tim. Roteiro lamentoso que se repete na faixa seguinte, a comovente “Dream Letter”.    

"Gypsy Woman" é mais longa do disco, outra faixa esplêndida e que chama a atenção principalmente por sua atmosfera hipnótica. Conquanto mostre-se pouco palatável no início, suas melodias crescem gradualmente e revela-se mais empolgante à frente, com direito a improvisos meio blues e atonalidades. As congas de Carter C.C. Collins desempenham aqui um ótimo papel rítmico juntamente com a marimba de Friedman. Buckley solta todos os demônios e sua voz alcança o ápice, lançando uivos espetaculares e lembrando aquele Tim de “Greetings From L.A” (1972). “Sing A Song For You” fecha o disco e apela para o mais trivial e seguro, ou seja, uma singela canção de amor padrão Tim de qualidade. 

Com uma produção sólida e que deixa uma sensação orgânica de gravação ao vivo, “Happy Sad” é um álbum fascinante de Buckley. Aqui ele está definitivamente começando a tomar forma como um artista diferenciado. "Happy Sad" poderia ser descrito como um álbum de transição, juntamente com "Blue Afternoon”, relativamente aos dois primeiros álbuns de estúdio mais mainstream, e a fase mais experimental e, às vezes, vanguardista presente em "Lorca” e "Starsailor”. Em meio a recortes musicais ora convencionais ora mais experimentais surgiria mais uma pérola essencial de Tim Buckley!

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