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Resenha: RDP Vivo (1992)

Álbum de Ratos de Porão

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A fúria viva do punk nacional

Por: Expedito Santana

21/04/2021

Não curto muito comentar discos ao vivo, salvo quando eles têm algo de singular que possa ser digno de registro, caso desse exemplar do Ratos de Porão, tendo em vista estar cravado nas minhas memórias afetivas mais deliciosas, um tanto rebeldes (rsrsrs), também, obviamente. Lá pelos idos da década de 90, quando a dificuldade para adquirir discos era enorme e nem se falava de streaming, foi por meio de uma fita cassete (olha eu falando delas novamente), tocada num walkman plugado a uma caixa amplificada que ganhei de presente de meu saudoso padrasto Waldé (que Deus o tenha!! faleceu ano passado vítima da covid-19), que comecei a apreciar a fúria do RDP, a qual considero uma das mais importantes bandas da história do punk nacional. E a fissura foi tamanha que logo depois acabei adquirindo o disco de vinil. 

Pois bem, o som raivoso que saía daquela potente caixa me levou ao êxtase, inclusive, adorava deixá-la posicionada perto da janela de casa para que todo mundo na rua ouvisse aquela pancada (funcionava como um grito de revolta). E não era só aquela energia punk que chamava a minha atenção, mas também aquelas letras que retratavam a realidade política da nação. Embora ainda não tivesse maturidade suficiente para compreender com maior clareza os complexos meandros do quadro social do País, de alguma forma aquelas mensagens mexiam comigo, era como se dissessem pra mim: “acorda, rapaz, sua vida tá uma merda e há muita coisa errada nessas engrenagens do sistema”.   

Sem sombra de dúvida, o fato histórico mais emblemático daquele momento foi o impeachment do “mauricinho” Fernando Collor de Melo, o suposto “caçador de marajás” que eleito presidente haveria de se tornar apenas mais um político a iludir o povo brasileiro. A “juventude cara pintada” mostrou a sua força e invadiu as ruas gritando Fora Collor. A verdade é que a crise econômica (todo mundo com mais de 40 anos deve lembrar do fatídico Plano Collor que sequestrou valores da poupança, entre outras aberrações), a falta de apoio no Parlamento bem como a ira do povo cristalizada na face dos jovens do Brasil terminou por criar as condições para deposição de Collor. Bem, o resto é história e não vem ao caso aqui entrar em detalhes.   

É bom que se diga, encontrei nesse disco a trilha sonora perfeita para dar vazão a uma revolta que não sabia bem de onde vinha, e, desse modo, o garoto tímido, apático, fã de Kurt Cobain e integrante de uma geração sem esperança e pouco engajada, passou a admirar os punks com seus moicanos, coturnos, calças rasgadas e, sobretudo, pela atitude e resistência.    

Desta forma, ouvir um bando de loucos vociferando em português sobre os problemas do meu país terminou sendo uma considerável vantagem para alguém que não conhecia muito bem o idioma inglês e que se esforçava para traduzir as letras políticas e relevantes, mas, às vezes, um pouco descontextualizadas das bandas de punk gringas (Dead Kennedys, Sex Pistols entre outras) 

Saído dos esgotos do movimento punk paulista que explodiu em 1981, o Ratos de Porão estava no auge da carreira no final da daquela década e vinha no vácuo da ótima repercussão gerada pelos álbuns Brasil (1989) e Anarkophobia (1991). Este registro ao vivo, portanto, acabou sendo a oportunidade de captar a energia e podridão que os caras ostentavam nas apresentações e shows, e, com certeza, pegou a banda no seu melhor momento.    

Além do vocalista e “soltador de impropérios” João Gordo, a trupe ainda tinha o guitarrista Jão, o baixista Jabá e o batera Boka, que, juntos e ao longo de cerca de 50 minutos distribuídos em 22 petardos, vomitam críticas ácidas e sarcásticas em meio a uma sonoridade bestial que transita sem dar trégua entre o punk, thrash e hardcore. A bolacha saiu pelo Estúdio Eldorado e possui até uma boa qualidade para os padrões de discos punk, os quais eram, em alguns casos, intencionalmente mal gravados.  

Desde a abertura com os riffs cortantes e a bateria seca de “Morrer” que você sente que aquilo ali não ia dar em coisa boa (rsrsrs). A thrash “Mad Society” já segue emendada na sequência, são riffs sensacionais e João Gordo cantando em inglês (ou seria ingrês!). “Crianças sem Futuro” denunciava o descaso das políticas públicas e a falta de perspectivas das crianças do nosso Brasil varonil. Seu ritmo frenético e o solo distorcido deixam a insanidade em níveis estratosféricos. “Ascensão e Queda” é de uma brutalidade absurda, com Boka espancando a bateria.  
 
“Beber até Morrer” é um clássico que eu não deixava de repetir, riffs arrepiantes e aquela vontade irresistível de pogar. À epoca, as letras faziam sentido (rsrsr), embora na verdade propusessem mais um questionamento (conforme Gordo indaga no início da execução: será que beber até morrer é a solução??) que um mergulho de cabeça num oceano etílico. A embolada de João Gordo antes do refrão (lalala...) e o solo de guitarra distorcido são impagáveis. Oohh! tempo que não volta...

“Máquina Militar” é um crossover ferino, e as curtinhas “Guerrear”, “Políticos em Nome do Povo” e “Caos” são divertidas demais. Em “Sofrer” os riffs de guitarras são afiados como lâmina, ótimo momento disco. Adoro a variação de andamento meio funky protagonizada pela guitarra na segunda parte. “Crucificados pelo Sistema” mostra o ciclo cruel da estrutura social em exatos 49 segundos de um punk rock ensandecido.   

“Vida Animal” abre o lado B e é outro destaque. Novamente a mudança de andamento chama a atenção. Plano Furado – Partes 1 e 2 ironizam os Planos Cruzados do antecessor do Presidente Collor, o “nobre” José Sarney. Por falar nisso, é estarrecedor constatar que o nível dos políticos praticamente não mudou, quando não são os próprios a se locupletar na política são os filhos ou herdeiros que permanecem fazendo a farra. Instrumentalmente, vale dizer que são duas boas canções.  

“Anarkophobia” é uma das melhores, guitarra vigorosa, bateria dinâmica e João Gordo mais técnico (rsrsr) nos vocais. A diminuta “Aids, Pop, Repressão” coloca no mesmo balaio três itens proeminentes da época dignos de aversão. Parece uma vinheta, mas gosto muito da batida desta música. 

“Realidades da Guerra” tem vocais incompreensíveis de Gordo (cantar em português nesse caso não fez a menor diferença).  “Work for Never” é uma cover da banda punk Extreme Noise Terror, em que João Gordo canta quase em gutural (loucura pura!) e que faz uma constatação alarmante relacionada ao labor entediante e sem sentido: “Acumule o seu dinheiro inútil, eu não preciso disso / Só tenho uma vida e eu vou vivê-la”. 

“Velhus Decreptus” é uma velha crítica (atualíssima, por sinal) ao nosso problema crônico de não saber escolher corretamente os nossos representantes. “Herança” é uma bomba sônica de letras doentias que relatam o assassinato de uma família por um dos próprios membros. As letras de “Paranoia Nuclear”, infelizmente, não a deixam ser uma peça datada (estão aí Irã, EUA... para não me deixar mentir). 

A clássica “Crise Geral” ê mais uma atemporal ao abordar o inquestionável ópio do povo: “a apatia é grande e a crise é geral, todo mundo trabalha e se fode o ano inteiro, chega no carnaval é globeleza, globeleza...” Seus riffs emulam um motosserra, já a bateria é impiedosa, e o ritmo, meu amigo, alucinante até a medula.    
   
A mordaz e demente “Que Vergonha” é uma versão da música da banda punk Olho Seco, já V.C.D.M.S.A, de apenas 43 segundos, dispensa comentários de tão nonsense. A sombria “Cérebros Atômicos” parece uma sessão de espancamento com direito a socos e chutes simultâneos. 

No thrash de riffs espetaculares e boa linha de baixo “Sentir Ódio e Nada Mais” o Ratos retrata um mundo completamente sem perspectivas, cinzento e repleto de ódio. A afirmação tem contorno pessimista e nebuloso: “Cercado de canalhas não pode raciocinar/ Ficar desesperado também não vai adiantar / O ódio lhe domina e embrutece o coração / Você está preparado pra enfrentar a solidão / E assim sentir ódio e nada mais / Viver feliz é ilusão, nada mais.” 
      
“Igreja Universal” parece que foi escrita ontem de tão contemporânea. Quando vejo líder religioso em pleno 2021 se aproveitando da fé do povo para faturar (venda de feijão milagroso entre outras bizarrices) dá um sentimento de asco quase incontrolável. A solução, sem dúvida, é voltar no tempo e ouvir novamente o alerta vindo dessas cáusticas letras: “Você acredita em Deus e nos seus milagres? / Em troca de dinheiro, ele te fará feliz! / Você chorou de emoção em nome da verdade / Nas mãos de um charlatão, você é um imbecil!” 

Chegando ao final desta análise falta até fôlego (rsrsr). Mas vamos lá! De tudo que foi abordado até então em termos líricos e musicais, fica claro que não é possível deixar de reconhecer a relevância política e cultural que o movimento punk ainda tem no mundo e, sobretudo, no Brasil atual. O Ratos de Porão deixou aqui uma verdadeira bomba atômica transbordando fúria e rebeldia. A propósito, vi outro dia o crítico de música Regis Tadeu afirmando que punk é muito mais atitude que outra coisa (estética, vestimenta etc). E é justamente essa atitude mais libertária e corajosa que talvez esteja faltando para que as pessoas se levantem contra as iniquidades perpetradas por aqueles que deveriam estar promovendo a justiça e o bem estar da população. 

O punk não morreu!! O rock jamais morrerá!! Salve RDP!!

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