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Resenha: Meantime (1992)

Álbum de Helmet

Acessos: 81


Um dos discos de metal alternativo mais pesados e chocantes da década de 90

Por: Expedito Santana

21/04/2021

O Helmet nasceu em 1989 nos EUA, Nova Iorque, como projeto de Page Hamilton (vocal e guitarra), então estudante de jazz e violão clássico, logo após ter saído do grupo de noise rock Band Of Susans, com o qual gravou apenas um álbum, “Love Agenda”, de 1989. As influências de Hamilton são bem ecléticas, indo do rock de America, Cheap Trick, Led Zeppelin, AC/DC e Killing Joke a artistas de jazz, tais como Milles Davis e John Coltrane.  

Lembro de ter visto uma matéria sobre o Helmet numa revista na banca de jornais (não me recordo precisamente se foi Rock Brigade ou Bizz) e de ter ficado interessado naquilo que o colunista comentava sobre o som da banda formada por jovens que quebravam o estereótipo do visual metaleiro (camisas negras e cabelos longos), já que usavam camisas simples e de cores diversas, bermudas e tênis, além de cabelos curtos. No entanto, a década de 90 não era um tempo fácil para curtidores de rock e headbangers em geral, já que nem sonhávamos ter à disposição os famigerados serviços de streaming. Desta forma, adquirir disco de banda gringa underground era tarefa similar a buscar “perna de cobra”, as alternativas ficavam entre importar pagando quantias vultosas ou rezar para sair aqui no Brasil, o que geralmente demorava e quase sempre frustrava a expectativa do ansioso comprador.    

Bem, mas o fato é que, posteriormente e com um pequeno atraso em relação ao período de lançamento, consegui chegar a esse petardo intitulado “Meantime”, aliás, primeiro disco do Helmet que ouvi, por meio de uma fita cassete (atire a primeira pedra quem nunca cometeu esse ato de pirataria) e, apesar de naquela época já estar acostumado a rockões pesados e sujos (punk, thrash...), minha reação pode ser resumida à seguinte frase: “que barulheira é essa??!!”. A partir dali então passei a acompanhar a carreira da banda e vou logo antecipando que este aqui, na minha modesta opinião, é o melhor deles, ainda que os outros trabalhos também sejam muito bons e valham a pena.

“Meantime” é o segundo álbum do Helmet, antecedido pelo debut “Strap It On”, de 1990, que havia saído pelo selo de noise rock Amphetamine Reptile Records, conhecido por lançar bandas no estilo de Melvins e The Jesus Lizard. Neste disco os negócios da banda iriam atingir uma dimensão superlativa, uma vez que rendeu logo de cara um contrato de 1 milhão de dólares com a Interscope Records. Completaram o time, ao lado do vocalista e guitarrista Page Hamilton, o baixista Henry Bogdan, o baterista John Stanier e o guitarrista Peter Mengede. 

Embora seja um disco de rock/metal alternativo denso e nada pop, que aposta num estilo minimalista e dissonante, “Meantime” tocou nas rádios e na MTV, que potencializaram a divulgação do trabalho e ajudara o álbum a se tornar, doravante, uma obra emblemática e influente no rock pesado mainstream feito no final da década de 90. Ademais, ele ainda serviria como uma espécie de resposta nova-iorquina para o movimento grunge de Seattle, que estourava na mesma época na calda de bandas como Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam e Alice in Chains. Vale lembrar que este é o único álbum do Helmet a obter a certificação de ouro nos Estados Unidos, tendo vendido mais de 2 milhões de cópias. Atingiu também o primeiro lugar da Heatseekers e a posição 68ª da Billboard 200.  

Os trabalhos de mixagem do aclamado Andy Wallace, inquestionável entendedor do riscado e que tinha no currículo experiências com bandas de sonoridades mais pesadas, a exemplo de Slayer, Faith No More e Nirvana, foram irrepreensíveis e geraram um som meio cru e arrastado, mas de uma cristalinidade que salta aos olhos. A música do Helmet segue geralmente um padrão mais repetitivo, riffs sincopados e dissonantes de guitarra, tempos estranhos por vezes, bateria com caixa seca e altiva e refrãos insanos e gritados.

Essas características da sonoridade do Helmet podem ser conferidas logo na abertura com a parede monstruosa criada por “In the Meantime”, calcada em riffs alongados e escaldantes e marcações de bateria formidáveis que parecem deslizar e ocupar todos os espaços, enquanto Page Hamilton canta furiosamente. Uma entrada cheia de distorção e poder de fogo. As puxadas guitarrísticas de “Iron Head” fascinam de imediato, mostrando a coesão e pujança que vai poder ser sentida ao longo dos quase quarenta minutos de duração e que têm continuidade na terceira faixa, “Give It”, cujo baixo gorduroso e bateria aguerrida abalam as estruturas.

Ainda que o disco seja majoritariamente abrasivo, “Unsung” apresenta uma melodia discreta encapsulada em riffs cativantes e ganchudos que emulam coisas chegadas ao grunge e hard rock, com baixo retumbante, bateria ensandecida e altíssona e os vocais de Hamilton lembrando ninguém menos que Mr. Ozzy Osbourne. O Helmet volta à carga na potente “Turned Out” exibindo riffs curtos e empolgantes, baixo groove até o tampo com direito a jam na metade e solo distorcido e sujo estilo garage rock, além de uma mudança de andamento esquisitona levada pelas guitarras em chamas e a voz gritada de Hamilton.  
 
Avançando temos ainda “He Feels Bad” recuperando um pouco da cadência mais contida de “Unsung” e trazendo junto aqueles riffs estendidos, “Better”, esbanjando uma linha de baixo groove, riffs matadores e vocais agressivos de Page (vide o grito seco: “So get out”), eventualmente recorrendo a passagens melódicas vocais que novamente remetem ao Príncipe das Trevas.  

As três últimas mantêm o grosso caldo sonoro, em “You Borrowed” a voz mais suave de Hamilton encontra um instrumental carregado e levemente swingado, marcado por um solo maravilhoso em que você fatalmente pensará: “isso é que é rock de verdade”. “FBLA II” repete o roteiro de “Iron Head” e também consegue êxito na sensação caudalosa de distorção e balanço ao mesmo tempo, soltando outro solo minimalista, mas não menos animalesco. “Role Model” encerra o disco e tem um baixão voraz e grosso, guitarras encharcadas de barulho e variações jazzísticas que nos fazem lembrar as fontes em que Hamilton costuma beber.   

Assim como foi minha porta de entrada, recomendo “Meantime” para ser o ponto de partida daquele que tem pouco ou nenhum conhecimento da obra do Helmet, aqui o ouvinte terá a oportunidade de se deparar com um metal alternativo honesto e da melhor qualidade, cristalizado num álbum sem quaisquer deslizes e que, sem sombra de dúvida, é um dos mais pesados e chocantes da cena mesmo após quase trinta anos do seu lançamento.

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