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Resenha: Black Gives Way To Blue (2009)

Álbum de Alice In Chains

Acessos: 70


Uma linda homenagem que representou o retorno após um longo tempo sem gravar

Por: Expedito Santana

06/04/2021

Em 20 de abril de 2002, quando o vocalista Layne Staley foi encontrado morto em seu condomínio vitimado por uma overdose decorrente da combinação de heroína e cocaína, parecia que estaria decretado ali, de uma vez por todas, o fim do Alice In Chains (AIC). Na verdade, antes mesmo de falecer, a relação de Staley com o restante da banda havia se tornado bastante problemática e, ao que tudo indica, após morte de sua ex-noiva em 1996, o frontman tornou-se muito recluso, raramente deixando seu apartamento em Seattle e afundando-se desenfreadamente nas drogas como uma válvula de escape para os problemas pessoais.  

O fato inconteste é que a morte de Staley mexeu muito com a banda, principalmente com o guitarrista Jerry Cantrell, que era amigo de longa data do vocalista e com quem chegou a morar junto num velho estúdio de ensaios decadente e fedorento logo que se conheceram nos idos de 1987, antes mesmo do vocalista entrar para banda. A perda de Staley foi muito sentida no mundo da música e, com certeza, sem o seu peculiar timbre o Alice In Chains provavelmente não teria estourado na cena grunge que irrompeu na década de 90.  

Em 2005, depois de um período de inatividade, já que a banda nunca encerrou oficialmente, os membros remanescentes Jerry Cantrell (vocal e guitarra), Sean Kinney (baterista) e Mike Inez (baixista) reuniram-se para um show beneficente em prol das vítimas do tsunami que atingiu a Ásia no ano anterior. E foi justamente nesta apresentação que eles tiveram a oportunidade de tocar com o então desconhecido William DuVall, que viria a se tornar o novo vocalista e guitarrista do Alice In Chains. 

O timbre levemente parecido com o de Staley (acho o de Cantrell muito mais), a maturidade profissional bem como a possibilidade de fazer a guitarra rítmica tornaram DuVall a luva perfeita para o AIC. Somado a isso, a ótima resposta dos fãs acabou também empolgando os demais membros e, especialmente, Cantrell, mostrando que era possível continuar a trajetória da banda. Dizem, inclusive, que o próprio pai de Staley aprovou a atuação de DuVall nos vocais. Entretanto, é bom lembrar que Cantrell passou a cantar a maior parte das músicas, inclusive no disco em análise, deixando William apenas no apoio, ou seja, quem pensou que o AIC estivesse à procura de um vocalista se enganou profundamente.  

Felizmente, todas essas boas vibrações e conjuntura acabaram levando a banda aos estúdios para gravarem um novo disco entre outubro de 2008 a março de 2009, e com a produção de Nick Raskulinecz (Foo Fighters, Rush, Deftones), depois de um longo hiato de 14 anos desde o autointitulado álbum de 1995, nasceria "Black Gives Way to Blue", lançado no dia 29 de setembro de 2009 pela Virgin/EMI. 

O álbum foi rapidamente para as cabeças e estreou na 5ª posição dos mais vendidos da Billboard 200, ganhando certificado de ouro pela RIAA em maio de 2010 com vendas superiores a 500 mil cópias. Chegando, posteriormente, à marca de 1 milhão de exemplares em todo o mundo, o que não é nada desprezível em tempos que já eram inegavelmente difíceis para o mercado fonográfico. 

A recepção dos fãs a "Black Gives Way to Blue" não podia ser melhor, até porque estavam há muito ávidos por algum material inédito da banda. Já a crítica especializada não chegou a ser unânime, contudo, a avaliação geral foi bastante positiva. 

Em cerca de 54 minutos de duração, as 11 faixas de "Black Gives....” mostrariam ao mundo aquilo que todo fã nunca duvidou que o grupo pudesse voltar a fazer, ou seja, um som pesado e melódico que une a refinada técnica à emotividade. Decerto, a mistura de hard rock e heavy metal continuava sendo a linha mestra da sonoridade do AIC.  Asseguro (apenas para os desavisados, obviamente) que a ideia de que o grunge é formado somente por bandas com baixo virtuosismo instrumental, rapidamente será desfeita após a audição desse álbum, mormente pela inventividade e precisão dos ofícios da guitarra de Jerry Cantrell, sem falar na cozinha competente de Inez e Kinney. A propósito, quase todas as composições são assinadas pelo guitarrista, com algumas colaborações dos demais integrantes nas canções "Last Of My Kind" e "A Looking In View". 

Por tudo isso, não me furtaria a analisar minuciosamente cada faixa desse extraordinário disco.    

“All Secrets Known” não é exatamente uma canção para fazer a abertura dos trabalhos, mas que isso não deixe a impressão de que considero essa faixa ruim, muito pelo contrário, trata-se de uma música muito boa, que seria ótima para o fechamento dado o seu temperamento mais moderado. Falo isso ciente de que no geral o som da banda encapsula partículas “down”, porém, na análise da segunda faixa será mais fácil entender este comentário. Se o instrumental não impacta tão fortemente, a verdade é que suas letras são praticamente uma declaração do momento psicológico da banda, apontando para um desejo de recomeço, de acreditar novamente na vida e olhar para o futuro: “Esperança, um novo começo / É hora de começar a viver / Exatamente como antes de morrermos / Não há como voltar aos sonhos de onde começamos.” Aqui a sonoridade segue calcada em riffs arrastados e numa bateria cadenciada dispersando uma aura meio misteriosa que encontra o encaixe perfeito nos vocais introspectivos de Cantrell.       

Em “Check My Brain” a coisa começa a esquentar, e agora vai ser fácil perceber o porquê do comentário feito na faixa anterior. Essa sim deveria ter dado a largada, o peso vem na forma de riffs que parecem zumbidos altissonantes de abelha, remetendo ligeiramente ao grande Black Sabbath nos acordes iniciais. Ótimo solo de Cantrell. As famosas harmonias vocais do AIC começam a aparecer e tanto o pré quanto o refrão são simplesmente inesquecíveis: “California, I'm fine / Somebody check my brain / California's all Right / Somebody check my brain / Check my brain”. Só uma palavra: Musicaço!! 

 “Last of My Kind” é furiosa e ludibria a todos com sua introdução tímida. Temos aqui um exemplar poderoso de metal que até chega a emular aqueles riffs cortantes do Anthrax de “Among The Living”, obviamente que a velocidade de rotação é um pouco mais baixa, afinal de contas estamos falando do AIC. DuVall encarna o vocal principal nessa faixa e o faz com muita competência, sendo mais ácido quando necessário e Cantrell, para não perder o hábito, entrega mais um potente solo. Outro grande destaque! 

“Your Decision” integra o rol daquelas canções de vocação mais acústica e serena do AIC. Não chega a ser uma nova “Nutshell”, mas é bem digna. Para falar a verdade, carrega mais incisividade nas guitarras elétricas, tendo Cantrell a função de adorná-la com licks airosos e de verter mais um solo maravilhoso. Que peça vistosa, meus amigos! Vale o “repeat”.

Na sequência aparece “A Looking in View”, primeiro single do disco, nessa aqui o negócio gira mais ou menos em torno de um new metal à Pantera de “Cowboys From Hell”. As harmonias vocais de Cantrell e DuVall são impagáveis e há momentos em que penso que Staley renasceu na voz alucinada de Cantrell. A bateria de Sean Kinney está firme e aumenta ainda mais a densidade da faixa. Pra quem acha, erroneamente, que o AIC é uma bandinha inofensiva, recomendo escutar essa música e garanto que os pré-conceitos serão revistos imediatamente.    

A acústica “When The Sun Rose Again” dá uma descansada aos ouvidos e aposta, novamente, naquele roteiro fleumático entalhado no EP "Jar of Flies". Não sei bem o motivo, mas me faz lembrar o Foo Fighters de “In Your Honor” (lado acústico), até os vocais de Cantrell deixam tal impressão.

“Acid Bubble” é uma espécie de pseudo-doom, tendo em vista que começa em compasso lento e pesado para depois imprimir andamentos mais audazes que surgem repentinamente em riffs enérgicos quase como uma canção progressiva, cujo ciclo volta a se repetir antes de encerrar. Boa música! 

“Lesson Learned” mostra um Alice In Chains um tanto rapidinho, criando um padrão mezzo heavy baseado em riffs ostensivos, bateria firme e tendo mais um solo arrasa-quarteirão de Cantrell. 

“Take Her Out” é um hard rock musculoso que mescla passagens velozes a instantes viajantes protagonizados pelas notas da guitarra elétrica de Cantrell. Daquele tipo de música de DNA “guitarrístico” que fascina!! Também remete a Foo Fighters nas canções de textura bombástica. Outro destaque!!  

“Private Hell” é uma peça incrível, consegue ser um mix de rock vigoroso e melodias delicadas, graças principalmente aos riffs elétricos e às preciosas harmonias vocais que alcançam o seu ápice. Mais uma vez eu juro que Stanley está aqui mais vivo do que nunca, embora reconheça que DuVall e Cantrell são perfeitos juntos. Falar que o solo de guitarra é bom virou uma redundância a essa altura dos fatos. As letras fortes abordam os inquietos recônditos do ser humano: “Eu me desculpo / Estou acostumado com minha pequena cela / Eu me divirto / No meu próprio inferno particular”. Em uma palavra: viciante! 

A faixa-título é uma balada de partir o coração e trata de dar o ponto final. Com suas guitarras chorosas e uivantes, acompanhamento luxuoso de um piano tocado por ninguém menos que “The Sir Elton John” e o vibrafone majestoso de Lisa Coleman faz arrepiar todos os pelos do corpo. Cantrell entoa de forma comovente nessa canção dedicada ao falecido amigo Staley: “Eu não quero sentir mais / É mais fácil me manter caindo / Imitações são pálidas / O vazio de todos os amanhãs / Assombrados por seu fantasma / Deixe de lado, luto dá lugar a tristeza / Deixe de lado, eu me lembrarei de você”. 

“Black Gives Way to Blue” é, sem sombra de dúvida, um tributo à altura da grandeza de Layne Staley. Em meio às sombras do passado, os caras construíram uma inspiradíssima homenagem que parece contar com a onipresença do homenageado. Um feito impressionante cuja carga emotiva, de tão grande, parece transbordar a todo momento. Às vezes chego a me culpar por ter demorado um tempinho para escutar esse disco, já que, mesmo sendo admirador do som da banda desde os primórdios, acreditava que a morte de Layne seria de fato o fim, felizmente, não foi. Tenho certeza agora de que ele deve ter dado um belo sorriso quando ouviu isso aqui aonde quer que esteja. 

Viva o inesquecível Layne Staley!! Vida longa ao Alice In Chains!

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