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Resenha: Marscape (1976)

Álbum de V.A.

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Excelente disco conceitual instrumental no estilo música visual

Por: Tiago Meneses

05/04/2021

Jack Lancaster e Robin Lumley são dois músicos clássicos que cruzaram a linha entre o jazz e o rock progressivo dos anos 1970. Lancaster tocou com o ex guitarrista de Jethro Tull Mick Abraham na sua banda Blodwyn Pig e Lancaster e Lumley tocaram juntos em uma banda chamada The Soul Searchers, que incluía uma formação cheia de estrelas, com John Goodsall (guitarra), Gary Moore (guitarra), Percy Jones (baixo) e Bill Bruford (bateria). 

Em 1975, Lancaster e Lumley estavam trabalhando juntos para lançar dois álbuns com uma incrível riqueza de músicos convidados e que permanecem únicos nos livros de história progressiva. O primeiro seria a versão rock de "Peter and the Wolf" - inclusive já resenhada por mim aqui no site -, baseada na obra do compositor russo Sergei Prokofiev, na qual a dupla – ao lado de um time de músicos de peso - criou uma versão moderna eclética que foi lançada em cinco idiomas diferentes com narradores diferentes para cada um.  

Em 1976 a dupla prepararia uma nova surpresa, porém, desta vez baseado em um tema completamente diferente. Marscape se trata de um disco basicamente instrumental – tendo no máximo algumas vozes usadas como efeito. O disco é famoso por apresentar os músicos que formariam a Brand X ainda no mesmo ano, logo, podemos encontrar aqui as sempre muito boas guitarras de John Goodsall, as brincadeiras do subestimado Percy Jones em seu baixo fretless, além, claro, de Phil Collins exibindo o que há de mais técnico na bateria. Lumley foi quem lidou com todos os tipos de teclados do álbum, enquanto que Lancaster forneceu os instrumentos de sopro.  

Tematicamente, Marscape assume exatamente o que insinua, ou seja, uma viagem ao planeta vermelho, onde a vida supostamente existiu. Cada faixa é como uma homenagem a diferentes aspectos do planeta vermelho e são refletidas por uma lista diversificada de ritmos, tons, timbres, tempos e dinâmicas de compasso. Nota-se uma parte de rock progressivo e parte jazz-fusion, porém, o disco expande seus horizontes muito além dos rótulos limitadores, sendo que assim também exibe o seu quinhão de sons até da world music étnica e do uso de uma balada cafona como é o caso de “Realization”. No geral o brilho do álbum permanece vivo quase que a todo instante através de uma música de mistura intrigante e de habilidades técnicas que evocam perfeitamente o tema do disco.  

A beleza dessa corrente única de talentos é que ela percorre toda a gama do que há de mais vanguardista em faixas como a de abertura, “Take Off”, que consegue criar um ótimo clima através de uma crescente de sons, “Sail on Solar Winds” possui uma boa influência espacial e doses de experimentação. Em “Hopper” encontramos um clima muito mais dançante, que a princípio não me agradou muito, mas depois passei a achar que funciona bem. Os elementos de rock e jazz estão sempre sendo usado para pintar a tela de sons do disco. Todos os sons do disco são criados para representar os temas e soam sempre de maneira muito eficaz. Seja da escassez minimalista de, “Phobos and Deimos”, aos ataques instrumentais bombásticos de, “Olympus Mons”, Marscape sempre desfila sua música com excelência.  

Tudo bem que estamos falando apenas de um pontinho quase invisível dentro de um cenário musical tão rico e vasto que foi o dos anos setenta, porém, considero isso inclusive mais um motivo para que Marscape seja mais reconhecido, afinal, o álbum carrega com ele uma atemporalidade que até mesmo muitos clássicos 70’s não têm. Tenho uma opinião pessoal que esse disco também sofreu uma boa influência em The Planets de Gustav Holst, mas devido a sua formação, é impossível de não achar algo que não nos remeta à Brand X, sendo a faixa, "Homelight (Reflecting on Distant Earth)", um bom exemplo disso, já que ela aponta para sons futuros que a Brand X iria fazer. Embora o álbum seja brilhante, nem sempre transmite a missão de Marte em questão e, portanto, fica aquém da perfeição por algumas faixas que realmente não combinam bem com o resto do pacote.  

No fim das contas, o que é entregue ao ouvinte se trata de um excelente disco conceitual instrumental. Considero este um disco de música bastante visual. As inclinações de jazz de Lancaster combinadas com os teclados de rock progressivo de Lumley faz com que o resultado obtido seja maravilhoso. Isso unido ao time de músicos mencionados mais acima simplesmente não deixa dúvida de que Marcape é essencial.

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