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Resenha: Three Of A Perfect Pair (1984)

Álbum de King Crimson

Acessos: 73


Entre um bom art rock pop e experimentações no último disco da trilogia anos 80

Por: Expedito Santana

02/04/2021

“Three of a Perfect Pair” marca o fim da trilogia new wave que havia começado em “Discipline” (1981), que considero o melhor dos três justamente por ter mergulhado menos profundamente no lago popularesco. Já “Beat”, de 1982, analisado por mim aqui no 80 Minutos, quando marquei posição no sentido de reconhecê-lo como uma empreitada frustrada no quesito combinação prog/pop, “parecia” mostrar que a praia do Rei Escarlate não era habitada por ares mais comerciais. As aspas que acabei de usar no verbo parecer não foram à toa, uma vez que, enfim, Fripp e sua trupe acertaram a mão nesse aspecto (nunca é demais lembrar que em matéria de rock progressivo ninguém discute a maestria deles), resultando num álbum no qual podem ser encontradas, de forma equilibrada, canções pop art rock de apelo mais radiofônico (sim, é verdade!) bem como experimentos abstratos que, geralmente, os caras fazem como um processo natural e sem o menor esforço.    

Esse décimo álbum de estúdio da banda, lançado em 1984, reserva ao lado A da versão LP as faixas mais palatáveis e comerciais, podendo ser visto no lado B o velho e experimental Crimson aflorando toda a sua inventividade e ousadia em peças excêntricas às quais todo bom fã, incluo-me nesse grupo, já está mais do que acostumado. Desta forma, se o ouvinte-raiz desejar pular direto para a segunda parte pode ficar à vontade, deixando a primeira metade para os menos preparados (não quero que soe pedante!) para os concertos intrincados do quarteto Fripp/Belew/Levin/Bruford. Aliás, esse registro seria o último com essa formação que percorreu toda a década de 80, uma vez que o sucessor, THRAK (1994), teria o famoso “trio-duplo” abrindo os anos 90 para o Crimson, após uma breve pausa.     

Falando em formação, Adrian Belew, que muitas vezes parece não ter o devido reconhecimento por seu trabalho de guitarra, destaca-se ao conseguir tocar e cantar muito bem por sinal, deixando Robert Fripp mais livre para degustar do seu instrumento de cordas de estilo inigualável bem como criar suas ricas atmosferas de sintetizadores. Tony Levin, por seu turno, apresenta a costumeira excelência no baixo, usando-o na maior parte do tempo por meio de notável técnica, produzindo aqueles sons de “estalo” resultantes dos populares “tapas” que deixam as linhas com timbres diferenciados. Fechando a cozinha o talentoso Bill Bruford, de quem esperava um pouco mais, embora suas baquetas continuem precisas.   

A faixa-título abre a primeira metade do disco, com Belew em ótima performance vocal nessa faixa pop de ritmo sedutor e refrão elegante, puxada pelas guitarras e baixo, tendo os bips de sintetizadores colorindo as coisas um pouco mais. “Model Man” é outro exemplar acessível e igualmente garboso (sim, eles acertam em cheio!), as guitarras partem de riffs sinuosos acompanhados de uma linha de baixo cheia de Levin, mas o destaque mesmo é Belew, que deixa para trás de uma vez por todas as pequenas derrapagens cometidas em “Beat”, quando não se sabia ao certo aonde ele queria chegar.  

Seguindo a trilha de fácil digestão aparece a funky “Sleepers, que serpenteia em cima de uma baixo marcante e sintetizadores um tanto misteriosos. Logo em seguida surge “Man With an Open Heart”, de textura pop acentuada e que, sem dúvida alguma, é a mais new wave do disco, sendo possível ver um Belew transitando em zonas vocais extremamente relaxantes e despojadas.    

A partir desse ponto do álbum e ainda fechando o primeiro lado o velho e complexo King Crimson ressurge das profundezas em Nuages (That Which Passes, Passes Like Clouds), uma peça instrumental obscura que segue em batidas sintetizadas com a guitarra clássica quase atonal do mestre Fripp em evidência.    

O segundo lado abre com a emblemática “Industry”, outra faixa instrumental de cadência arrastada que começa com um sintetizador de batida dura, mas conforme as coisas evoluem, os sons de baixo, bateria e guitarra vão sendo sobrepostos gradualmente em camadas e o King ensaia as suas corriqueiras seções paroxísticas, com cada instrumento sendo realçado por vez. Adoro isso aqui, mas sei que há muita gente que não suporta (vão todos ouvir Europe então.....rsrsr).  

“Dig Me” parece ser o King Crimson tentando emular algo como Captain Beefheart e sua Magic Band por meio de acordes desconexos, quase atonais, com Belew numa performance meio caótica, mas até conseguindo tirar da cartola um refrão contagiante que dá um charme esquisito à música. 

“No Warning” funciona basicamente como um prelúdio para a faixa que fecha o disco, “Larks' Tongues in Aspic, Part III”, mais uma continuação da famosa “Lark's Tongue in Aspic” do clássico disco homônimo de 73 e, apesar de basear-se numa estrutura claramente sintetizada, consegue capturar a atmosfera das Partes I e II. Ainda há bônus na reedição de 2001 que seguem listados, juntamente com a “tracks listing” regular, ao final desta resenha. 

Foi assim então que o King Crimson deus adeus aos anos 80 e, se por um lado “Three Of A Perfect Pair” pode não integrar a estante de cima das obras da banda, por outro é a demonstração inequívoca de que, mesmo não tendo como foco fazer música de apelo comercial, a competência do Rei Carmesim é tão acima da média que o fez conseguir se sair bem num terreno onde outros grandes do prog falharam feio. Tudo bem que não é das melhores fases, mas aproveite, pois a partir daqui as experimentações voltariam com toda força nos trabalhos subsequentes.


Songs / Tracks Listing
- "Left Side" -
1. Three of a Perfect Pair (4:11)
2. Model Man (3:56)
3. Sleepless (5:20)
4. Man with an Open Heart (3:00)
5. Nuages (That Which Passes, Passes Like Clouds) (4:42)
- "Right Side" -
6. Industry (7:22)
7. Dig Me (2:59)
8. No Warning (3:28)
9. Larks' Tongues in Aspic, Part III (6:01)

Total Time 40:59

Bonus tracks on 2001 Virgin edition:
- "The Other Side" -
10. The King Crimson Barber Shop (1:37)
11. Industrial Zone A (1:44)
12. Industrial Zone B (4:33)
13. Sleepless (Tony Levin mix) (7:26)
14. Sleepless (Bob Clearmountain mix) (5:24)
15. Sleepless (François Kevorkian dance mix) (6:17)

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