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Resenha: Félicité Thösz (2012)

Álbum de Magma

Acessos: 54


Excelente produção e composição em um clima positivo, misterioso e aventureiro

Por: Tiago Meneses

31/03/2021

Quando o assunto é Magma. Sempre estaremos falando de uma mistura perfeita de música feita com graça e força, combinando linhas de baixo estrondosas e uma enxurradas de ritmos de bateria com vocais sobrenaturais e crescentes, além de várias linhas melódicas em espiral. Félicité Thösz, como eu já inclusive li anos atrás, pode ser melhor caracterizado como um desenvolvimento rococó na produção tipicamente barroca de Magma: florido, elegante, em camadas, cheio de cores e energia, além de possuir uma soberba gravação de estúdio.  

Toda a instrumentação encontrada em Félicité Thösz, faz com que eu me lembre um pouco do período Wurdah Itah, através do piano, voz e a bateria parecendo sempre estar por cima dos outros instrumentos principais. Porém, é claro que sempre que falamos de Magma, estaremos falando de músicas onde o baixo também vai ter um papel significativo. Sem esquecer de mencionar que algumas guitarras elétricas foram muito bem integradas nas composições.  

Considero sem sombra de dúvidas Magma uma das bandas mais originais da história do rock progressivo, assim como também uma das mais surpreendentes, sendo capaz de mudar o rumo direcional do seu som e ao mesmo tempo manter tudo aquilo que a faz tão singular. Christian Vander sempre deixou claro que gosta de mostrar vários lados diferentes das suas habilidades de composição, sendo que aqui não foi diferente. Em vez de criar um álbum técnico e operístico sombrio, a celebração musical parece focar em algo mais angelical da vida. Para muitos, fazer isso poderia ser bem arriscado, mas quando falamos de uma banda como o Magma, tudo acaba ficando natural. A suíte “Félicité Thösz” deve ser encarada como uma composição única com pouco mais de vinte e oito minutos, mesmo que cada uma das suas dez partes se encontrem como faixas separadas no CD.  

“Ëkmah” é a faixa que abre o disco através de uma natureza clássica e muito dramática. Como muito do que pode esperar da banda, pode soar meio estranho para ouvidos menos familiarizados, mas mesmo assim é muito legal. Mais à frente ela se transforma em um tema musical mais suave. “Ëlss” possui uma sonoridade de rock progressivo mais tradicional acrescido a alguns bons elementos sinfônicos. É uma peça curta com pouco mais de um minuto e que lembra um pouco até Renaissance.  

“Dzoï” é um movimento em que é possível notar alguns elementos da música asiática. Estes elementos são incorporados ao mesmo tipo de som que em encontramos nas duas primeiras seções da suíte. “Nüms” possui alguns aspectos mais dramáticos do que os encontrados nas faixas anteriores, sendo possível notar até um toque meio jazzístico. Porém, a música também faz um ótimo trabalho em dar continuidade aos conceitos e sons musicais centrais. A diferença mesmo aqui estar apenas nas tendencias mais parecidas com o jazz que emergem.  

“Tëha” através dos seus mais de cinco minutos, este é o movimento mais longo da peça. Também é o movimento que representa a maior mudança até o momento. Carrega uma verdadeira exuberância alegre e até lembra da música feita na segunda metade dos anos sessenta. Um movimento enérgico, poderoso e muito acessível.  

“Waahrz” também faz parte de um dos movimentos mais longos. A mudança que ocorre aqui se trata de um solo instrumental, sendo basicamente um solo de piano de boa base clássica. Uma excelente e dramática maneira de mais uma vez mudar a direção do disco. “Dühl” se trata novamente de um rock progressivo mais tradicional, sendo um movimento curto – menos de um minuto e meio -, mas também é bastante melódico e acessível.  

“Tsaï!” segue com os conceitos musicais do movimento anterior. Se trata de uma jam muito bem conduzida e poderosa. Algumas pequenas rajadas de som criam uma tensão que é muito bem acentuada pela bateria. Considero encantadores e evocativos os vocais dessa parte. Então que por volta de um minuto e meio a faixa cai para uma linha suave e de natureza clássica. Os vocais masculino trazem um som teatral, quase operístico. Depois de um momento de drama, a faixa retorna para o som anterior antes de chegar ao fim.  

“Öhst” é mais uma peça dramática e poderosa, fazendo com que a Renaissance seja novamente lembrada – desta vez com algumas pitadas de Nektar. A partir disso o que temos é uma seção mais sinfônica, despojada e depois se tornando meio teatral – como alguns musicais da Broadway. Se trata de um movimento incomum se comparado a base do disco, mas não deixa de soar muito eficaz. A seção final da peça combina muito bem com um estilo de rock 60’s, além de jazz e elementos teatrais da Broadway. “Zahrr” é o movimento que finaliza a suíte,” Félicité Thösz” e também o mais curto com os seus menos de cinquenta segundos. Se trata de uma música bombástica e estranha que se funde com cânticos e criam um cenário musical perturbador. Vozes femininas por cima adicionam e beleza antes que o épico termine abruptamente.  

“Les Hommes Sont Venus” é a última e única faixa que não faz parte da suíte central. Se trata de uma música suave e intrincada. Vocais femininos vão se juntando por cima e vão aumentando gradualmente. Ainda que os elementos musicais aumentem um pouco conforme a faixa se desenvolve, o que realmente carrega a faixa são seus vocais em múltiplas camadas.  

Basicamente tudo o que o Magma produziu eu considero obrigatório, sendo que este, além de obrigatório, considero ser a porta de entrada mais fácil em sua discografia. A produção é excelente, composições brilhantes e o clima que o álbum carrega é muito positivo, misterioso e aventureiro. Talvez somente fãs mais hardcore de Zeuhl e suas facetas mais sombrias possam se sentir um pouco desapontados – mas até mesmo eles deveriam ouvir este álbum algumas vezes seguidas.

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