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Resenha: Honeymoon (2015)

Álbum de Lana Del Rey

Acessos: 64


Novamente, em lua-de-mel com Lana Del Rey

Por: Roberto Rillo Bíscaro

29/03/2021

Quando Lana Del Rey emergiu, não faltou quem dissesse que era armação, que a moça era fantoche. La Del Rey sabe bastante bem/controla para onde vai sua carreira. Com variações de entonação, ela tem batido na tecla do ennui glamuroso dos corações partidos e cabeças entupidas d’algum narcótico.

Há quem diga que tem feito a mesma coisa desde que Video Games bombou no Youtube (2010). Não é bem assim e o contra-argumento para essa acusação é corolário da defesa anterior. Por definir uma personagem e comandar os caminhos estéticos de sua jornada, Del Rey escolheu o nicho retrô, evocando imagens idealizadas de uma América anos 50 (portanto, bem careta), O que faz em seus álbuns é enfatizar certos aspectos, mas sempre batendo na mesma tecla. O disco de estreia por uma grande gravadora, Born to Die (2012) e sua metamorfose em Born to Die: the Paradise Edition (2012) são anos 50 temperados com trip hop. Ultraviolence (2014) serviu-se de clima mais ameaçadoramente rock’n’roll e o presente Honeymoon tem sonoridade mais tradicionalmente cinquentista. Não dá para tirar 100% da razão dos detratores dessa ala, mas há que se considerar essa mudança na ênfase de cada álbum.

Honeymoon, a faixa-título, abre o álbum, sublime, parece trilha de filme de 1958, com orquestração de violinos, vocal à La Bacall. Lana Del Rey tem fã jovem? Salvatore é convite ao drama, como resistir ao "Ah-ah-ah-ah/Ah-ah-ah-ah/Cacciatore/La-da-da-da-da/La-da-da-da-da/Limousines/Ah-ah-ah-ahAh-ah-ah-ah/Ciao amore/La-da-da-da-da/La-da-da-da-da/. Soft ice cream com aquela voz angelical e atmosfera de filmes de Dean Martin?

Essa é a ênfase de Honeymoon, no caso da escolha estética da cantora, uma volta às origens, que jamais existiram. Ouça 24 e terás vontade de mudar o penteado para uma coisa assim, Lana Turner sofrendo!

Mas, Del Rey sabe que está em 2015 e mesmo seu público mais maduro ainda é jovem demais para ficar só nos anos 50. Por isso, o primeiro single é o trip hop cinquentizado de High By the Sea, com seu vocal de ninfeta chapada de boca suja, refrão viciante e ritmo hipnotizante. Puro fetiche, a mais perfeita tradução de Lana. Music to Watch Boys To e Art Déco, embora não tão viciantes, são da mesma lavra fetichenta e moderninha travestida de retro-50’s.
A mitologia da Califórnia como terra das possibilidades e liberdade – afinal, Hollywood fica lá – é reafirmada no trip hop sexy de Freak, mas Lana dispôs-se a alargar um bocadinho suas referências, antes centradas na Americana de Elvis e Monroe. Em Religion ela evoca o pacifista Bob Dylan e Terrence Loves You concede a existência de algo externo ao universo ianque, com sua referência ao Bowie de Space Oddity. 

Honeymoon não é igual aos demais álbuns, mas desperta a questão de por quanto tempo a artista conseguirá manter essa fórmula, apenas mudando uma variável. Sinais de fastio de alguns ouvintes já existem e a própria Lana – que de inocente nada tem – abre o álbum desferindo “ambos sabemos que me amar não está na moda”.

Ultraviolence desinteressara-me um pouco, mas com Honeymoon voltei a ser súdito de Lana!

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