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Resenha: In The Wake Of Poseidon (1970)

Álbum de King Crimson

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Um esforço soberbo e dentro das possibilidades da banda naquele momento.

Por: Tiago Meneses

05/03/2018

Imaginem o que foi pra a banda lançar um disco pra ser o sucessor de In The Court Of The Crimson King apenas sete meses e cinco dias depois. Após de uma estreia tão impressionante, pareceu improvável que uma formação um pouco alterada e instável poderia acompanhar a promessa da banda. Deixando as comparações de lado, In The Wake Of Poseidon é um esforço soberbo e dentro das possibilidades da banda naquele momento. Superficialmente, o ouvinte vai encontrar aqui, por exemplo, uma sonoridade jazz rock bastante rápida com incursões de sax e um “épico” com mellotron. Por tanto, mesmo que não estejamos falando de uma obra-prima como In The Court Of The Crimson King, não deixa de ser um disco digno de figurar em qualquer coleção de rock progressivo. 

Durante o álbum, existe o que chamo de os três seguimentos da paz. O primeiro, “Peace – A Beginning” é o que abre o disco através de um vocal de Greg Lake que faz com que ele pareça distante e umas goteiras de guitarra acústica no final. “Peace – A Theme" é toda instrumental e executada de forma acústica por Robert Fripp, uma faixa agradável, mas sem nada de mais chamativo. "Peace – An End"  é a que finaliza o disco de uma maneira bonita, bom vocal de Lake, uma linha acústica um pouco minimalista de Fripp e liricamente interessante. Mas a realidade é que em meio a estas pequenas faixas são onde temos o que a de mais chamativo no disco. 

O disco abre com, “Pictures Of A City”, ótima música, com baterias surpreendentes e linhas de guitarras bem legais. Os vocais são gritados, mas logo depois silenciam e a guitarra vai crescendo até que iniciasse uma impressionante seção jazzística e de camada dupla. O sax então logo se junta à banda, ele então alcança um clímax fascinante, no qual sempre me surpreendo quando escuto. Em seguida a música evolui pra um momento mais tranquilo, bateria e baixo vão dando o tom, a guitarra de Robert Fripp oferece algumas pinceladas, a bateria vai ficando mais rápida e o baixo mais alto. Em seguida os vocais retrocedem novamente e terminam esta música maravilhosa. 

“Cadence And Cascade” é belíssima, o violão é lindo e edificante, os vocais soam bastante suaves e são exatamente o que a música pede. A bateria é delicada e ao mesmo tempo muito expressiva. Impossível não mencionar o lindo trabalho de flauta. Uma faixa de uma simplicidade que somente quem tem enorme sensibilidade musical é capaz de compor. 

A faixa título é completamente deslumbrante. Fortemente cadenciada por um mellotron belíssimo e alguns dos melhores vocais de toda a carreira de Greg Lake. Robert Fripp faz um trabalho de guitarra magnifico e a bateria, principalmente a caixa, dá uma sonoridade bastante pesada, porém, adequada ao momento. A flauta também contribui muito bem pra criar a atmosfera linda que a faixa carrega. Mas nada é colocado mais à luz aqui do que o mellotron, ele entrega alguns dos mais elevados e belos acordes de todo o disco. Uma daquelas faixas que terminamos de ouvir e simplesmente falamos, “que obra de arte”. 

Sei que são facilmente encontrados momentos jazzísticos no disco, mas em “Cat Food” é onde está o ápice dessas sonoridades. O piano é meio maluco, Greg Lake canta de forma enérgica e penetrante. As linhas de baixo são excelentes e a guitarra elétrica de Fripp é tocada de maneira limpa. Há também um momento acústico executado pelo guitarrista com o piano sempre incomum o acompanhando, assim como a cozinha bem executada. O final da música também tem maior ênfase no piano, mais algumas batidas de prato e acordes de guitarra. 

Ao escolher a melhor faixa do disco, “The Devil's Triangle'', é o nome o qual me aparece em mente sem que eu tenha que pensar nem mesmo um segundo, por mais que até aqui tenha existido outros momentos memoráveis, eles não estão no mesmo nível do apresentado nesta faixa, indiscutivelmente a melhor de todas. Quando se fala de faixas caóticas da banda, também pode ser vista como uma das mais. Começa de maneira quase muda, mas vai acelerando e crescendo através de belos acordes de mellotron e uma bateria narcótica, a seção continua crescendo até que a sonoridade começa a dá uma sensação fantasmagórica e assombrosa em passagens que mantém a agressividade e caos em torno da música. Acordes diminutos de piano também se juntam aos demais instrumentos e aumentam ainda mais a experiência musical. O mellotron que parece só aumentar a atmosfera da música fica novamente mais discreto em determinado momento, eventualmente com “chutes” agressivos e assustadores. Ruídos de ventos e um relógio batendo em tic e tac transformam a música em uma experiência de terror. O caos reaparece com novos acordes de mellotron e a bateria agora se cadencia mais rápida do que antes. Vários tipos de sons que é difícil definir entrelaçam entre os acordes e vai transformando a música em algo que parece ir além da compreensão de um simples mortal como eu. A bateria sai um pouco do padrão e entra mais em improvisação e o piano continua caótico, inclusive mais do que antes. Quando cerca de cinco segundos de guitarra acústica anuncia o final da música, nos resta agradecer, pois se as coisas continuassem poderiam dar algum distúrbio, seus pouco mais de onze minutos e meio é o limite pra que não faça o ouvinte entrar em um colapso movido pela “desordem” apresentada. 

Certamente que o King Crimson tem discos mais valiosos e bem estruturados que In The Wake Of Poseidon, e com base nisso, o comparando com os demais seria mais justo que eu lhe desse uma nota 4, porém, “The Devil's Triangle'' não me permite fazer isso, sendo assim,  se o disco não soa a ponto de merecer nota 5 como por exemplo as obras primas Red, In The Court Of The Crimson King ou Larks' Tongues In Aspic, possui muitas boas faixas e uma que não o deixa receber menos do que 4.5. Excelente. 

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