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Resenha: Banco Del Mutuo Soccorso (1972)

Álbum de Banco Del Mutuo Soccorso

Acessos: 78


Um testemunho real feito por mestres da música progressiva evocativa e emocional

Por: Tiago Meneses

26/03/2021

Esse disco de estreia e autointitulado da Banco Del Mutuo Soccorso deve aparecer sem a menor dúvida em qualquer lista dos dez melhores discos de rock progressivo da história produzidos na terra da bota – na verdade, todos os três primeiros da banda merecem. Tudo apresentado no disco é de extrema qualidade e indicado a qualquer fã de rock progressivo – obviamente, quem for fã da escola italiana vai gostar mais ainda. Músicas incríveis sendo executada por instrumentistas fora de série, além da sempre apaixonada e marcante voz de Francesco Di Giacomo.   

Quando falamos de uma banda como Banco, falamos de algo essencial e ponto final. Se você tem um apreço por Emerson, Lake & Palmer, certamente vai se render a eles, se você tem um apreço por Yes, certamente vai se render a eles, sendo infinita as outras bandas que seus fãs também muito provavelmente vão – caso não os conheça - se render a eles, e caso os conheça, certamente já se encontram rendidos.  

“In Volo” abre o disco de uma maneira que podemos considerar enganosa, podendo ser melhor descrito como uma espécie de paisagem sonora espacial em teclados analógicos. Então que a pequena peça assume um toque medieval com alguns vocais falados e uns tons de teclados que se assemelham a flautas. Esta breve introdução é realçada com um toque de mellotron que desaparece em meio um floreio de teclado/coral que à liga na próxima faixa.  

“RIP (Requiescant In Pace)” é onde de fato o disco começa de verdade. Uma faixa incrivelmente otimista e de vocais bastante emocionais – quase operístico - através de uma das vozes masculinas mais impressionantes de toda a história da música progressiva. Possui alguns trabalhos agressivos de guitarra, além de texturas incomuns de teclado que dominam muito bem a peça. Uma das performances vocais e instrumentais mais impressionantes já feita por uma banda do rock progressivo italiano.  

“Passaggio” nos mostra uma faixa muito mais delicada e de pouco mais de um minuto, com algumas lindas linha de cravo e alguns barulhos de alguém caminhando, diálogos também são levemente ouvidos. Os vocais de Di Giacomo aqui são mais contidos e descansam depois de tanta energia usada na faixa anterior, adequando-se muito bem a essa breve retomada de fôlego.  

“Metamorphosi” começa através de um trabalho intenso de guitarra e um órgão muito bem ornamentado. No início - antes de chegar na seção de piano - de certa forma é possível notar um pouco de semelhança com “Knife” do Genesis. Então que o piano se muda para algumas rajadas de órgão - com algumas notas de baixo profundas e vibrantes – e guitarra cheia de brilhantismo. A evidência de uma tendência da banda para uma construção clássica e de texturas de jazz é bastante grande. Se trata de uma música muito dinâmica, tendo alguns interlúdios de órgão sendo explodidos violentamente em entradas intensas de toda a banda através de um rock matador, às vezes puxando tudo de volta para um groove de jazz simplesmente fervescente. Os vocais só entram na faixa por volta dos oito minutos e meio, quando a música dá uma mudada de batida, ficando mais lenta, com um órgão melancólico. Mas antes do fim, a banda ainda tem tempo de mudar o andamento mais uma vez e finalizar a faixa através de um ótimo desempenho conjunto e extremamente hábil dos músicos.  

“Il Giardino del Mago” com mais de dezoito minutos é a faixa mais longa do álbum. Se inicia através de um órgão silencioso e de atmosfera sinistra, enquanto que batidas ocasionais de címbalos e na caixa de caixa aumentam a tensão. A seção rítmica vai aumentando lentamente. As vocalizações evoluem para uma excelente e emotiva exibição, algo quase operístico. Enquanto isso, as várias partes do teclado permanecem ameaçadoras e sombrias. Em termos de mudanças são uma infinidade as quais a música passa, mostrando uma banda de um excelente comando e senso de direção e que nunca se perde em meio a seus arranjos intrincados. Um elogio simples e direto para essa música é que em seus mais de dezoito minutos, esta faixa tem mais mudanças que alguns álbuns completos.  

“Traccia” é a faixa que finaliza o disco, possui apenas dois minutos, mas consegue destilar toda a essência da banda. Intensamente otimista, a faixa é implacável através de uma guitarra bastante agitada e um piano muito tenso, além de uma seção rítmica bastante forte e alguns vocais corais bem encaixados. Órgão e piano são incríveis, sendo o destaque dos momentos finais da música antes que ela chegue ao fim deixando um vácuo silencioso para o ouvinte recuperar o fôlego.  

Um dos discos mais completos e complexos não apenas do rock progressivo italiano, mas do rock progressivo em geral. Um testemunho real feito por mestres da música evocativa e emocional. A forma como tudo se desenvolve é simplesmente mágica, sendo um daqueles discos com o poder de mostrar o quão excitante pode ser um gênero musical.

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