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Resenha: Sceneries (2011)

Álbum de Sylvan

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Rock progressivo de excelência num dos melhores discos da banda

Por: Expedito Santana

25/03/2021

Fazer uma grande obra nem sempre pode ser considerado um fato apenas positivo para uma banda. Já que a responsabilidade de continuar replicando a excelência doravante acaba, muitas vezes, tendo um papel decisivo para a construção de fragorosos fracassos. Com o Sylvan, felizmente, tal peso parece que surtiu o efeito contrário. 

Embora “Posthumous Silence” (2006) tenha se tornado um dos maiores feitos dos alemães e fosse praticamente impossível pensar que eles poderiam alcançar tamanha estatura novamente, de maneira surpreendente “Sceneries” quebrou a banca e chegou também à condição de pedra fundamental na discografia do grupo. Não esquecendo, porém, que “Presets” (2006) e “Force Of Gravity” (2009), dois bons álbuns, sofreram injustamente ao serem comparados a “Posthumous Silence” (2006), e seguiram solapados num contexto em que seria mais válido olhar o valor do conjunto da obra que se esforçar tão somente para eleger as pérolas e desvalorizar o resto.
 
De certa forma, a extraordinária qualidade de “Sceneries” deu a alguns críticos e fãs, sempre sedentos para reviver um momento clássico do passado exatamente da mesma forma, a resposta mais adequada: “sim, é possível repetir o sucesso do passado, ainda que sem seguir necessariamente pelos mares antes navegados.” Vale lembrar que esse não é um álbum conceitual ao contrário de registros anteriores da banda. 

Para aqueles que ainda acreditam, erroneamente, que toda e qualquer sonoridade que recebe a alcunha de neo-prog pode ser resumida a um mero plágio de clássicos do progressivo que assume eventualmente tonalidades mais palatáveis e comerciais, recomendo pensar melhor sobre esta concepção. Nesse sensacional registro de cerca de 90 minutos de duração, que marca o oitavo álbum da Sylvan, dividido em cinco longas suítes em 2 CDs, será possível conferir um rock progressivo moderno e absolutamente encantador feito por uma banda no auge da sua forma.  

Ainda que estejamos vivendo tempos de música biodegradável e de pouco apreço pelos álbuns, e mesmo com a longa duração desse disco, que requer audição atenta ou, melhor, quase uma imersão (não pense que irá usá-lo como música de fundo para outra atividade), acredito fortemente que nada impedirá o fã de música de experimentar uma jornada sonora incrível e prazerosa, que valerá cada segundo de tempo empenhado. 

Todos que conhecem minimamente a banda alemã sabem muito bem da capacidade dos caras de criar melodias imparáveis, acompanhamentos cuidadosos e conexões instrumentais engenhosas. Aliás, esta última virtude outrora foi um pecado nos primeiros trabalhos (notadamente em ‘Deliverance”, que já comentei no 80 Minutos), mas, felizmente, devidamente banido com a evolução e maturidade que a banda adquiriu ao longo da estrada.     

Voltando a falar especificamente de “Sceneries”, aqui as texturas de metal são levemente abandonadas, exceto por uma ou outra incisividade, a exemplo de paisagens sonoras vistas em “The Waters I Traveled'. Neste sentido, na maior parte do tempo o ouvinte deparar-se-á com timbres mais melancólicos e comoventes construídos na forma de canções mid-tempo que se alternam, comumente, em passagens semiacústicas e performances vocálicas de refrãos altissonantes belíssimos. Não hesito em dizer que a preocupação basilar do conjunto instrumental é criar climas emocionais e edificantes, com os solos de guitarra fazendo entregas precisas e sem cair em exageros, mas não deixando também de enriquecer as melodias sedutoras das composições.

As performances proeminentes nesse álbum, embora toda banda seja muito competente, são os impressionantes vocais de Marco Glühmann, que prova aqui de uma vez por todas ser um grande cantor da cena neo-prog, lembrando inclusive, em alguns momentos de matizes dramáticos, o versátil Steve Hogarth do Marillion. A verdade é que Marco consegue espantosas modulações, indo do grave para o agudo com precisão, força e emoção, transmitindo sentimentos de uma forma absolutamente tocante, tanto nas passagens mais intimistas e acústicas quanto nas seções mais fortes e cheias.  

Sem falar nas incursões feitas pelas guitarras de Jan Petersen, sempre ciente das possibilidades que o seu instrumento é capaz de fornecer, quer seja na arquitetura de melodias suaves quer na elaboração de riffs, que mesmo em formas mais contundentes não perdem a brandura. E por falar em Marillion, por diversas vezes Petersen lembra muito o jeito de tocar de Steve Rothery, justamente naquilo que este último tem de melhor, a saber: tornar a técnica escrava da emoção. 

E, ainda, seria uma tremenda injustiça não reconhecer a relevância dos trabalhos do tecladista Volker Söhl, já que temos um disco praticamente centrado nas teclas, onde o piano está no coração de quase de tudo ao redor e em flerte constante com o sentido de onipresença. Desta forma, a partir de tons delicados que parecem plumas, Söhl consegue soar surpreendentemente intenso e emocional. 
 
Dada a magnitude dessa obra, embora ciente de que qualquer análise e descrição escrita jamais conseguirá captar a real essência e tampouco substituir a formidável experiência de audição dessa fantástica jornada progressiva, farei abaixo uma sucinta análise dos 5 capítulos que estruturam o disco.   

“Chapter 1: The Fountain of Glow” – tem uma bela abertura com piano e voz, com essa Primeira Parte transitando num sinfônico acalentador. O ponto alto fica por conta de um solo de guitarra estupendo. Na Parte 2 ocorre uma mudança estilística considerável, que às vezes cansa um pouco, mas a finalização por meio de um belo solo mais do que compensa. A incisividade continua na Parte 3, porém, dessa vez com uma trilha cativante com direito a mais um excelente solo. Uma canção que mostra a versatilidade e boa técnica dos integrantes da banda.  

"Chapter 2: Share the World with Me” – inicia na calda de uma linda balada em palhetadas delicadas e Marco uivando sobre riffs pegajosos. Logo em seguida uma seção de piano fantástica toma conta da cena (lembra o que eu falei de Söhl??), até que um solo de guitarra matador explode e você pede para não acabar, simplesmente emocionante. As Partes 3 e 4 repetem o mesmo roteiro das duas anteriores. Tudo perfeito e, sem dúvida alguma, um dos melhores momentos!    

"Chapter 3: The Words You Hide” - o piano suave e a voz quente de Marco no início escondem o jogo, já que a face pesada do Sylvan reaparece com força, mas deixando ainda espaço para interlúdios mais otimistas e acústicos de violão, acompanhados de ótimas linhas de baixo. Instantes introspectivos e também pujantes, cadenciados na bateria, na guitarra floydiana e teclados macios voltam a ser vistos antes de uma seção final belíssima de clímax sentimental. Se ficasse por aqui a conta já estava paga! 

"Chapter 4: “The Waters I Traveled” – mostra um Sylvan mais denso, sombrio e dinâmico, com a presença de riffs levemente cortantes. Todavia, não deixa de ser uma exibição irrepreensível, na qual a combinação de heavy metal e symphonic prog causa arrepios. Excelente composição do início ao fim, que não perde o viço e sedução em nenhum instante sequer. Enfim, tudo no seu devido lugar e funcionando sinergicamente: linhas de teclado, performance vocal, incursões de guitarra (solo e rítmica), trabalhos de baixo e bateria.  

“Chapter 5: Farewell to Old Friends” – um violão acústico dá início seguido pela voz de Marco em agudos cristalinos, até que o clima fecha repentinamente e uma atmosfera de suspensa se instala.  Há uma enormidade de ritmos ao longo desta faixa, riffs swingados e paisagens meditativas, tudo bem equilibrado. É até difícil de acreditar que os caras conseguem andar nessas linhas tênues e alinhavar tudo muito bem (mas eles não só alcançam êxito, como também fazem com maestria). As duas últimas partes são uma despedida e tanto. 

Contando com uma produção excelente, ótimo lirismo, canções fluidas e nem um pouco entediantes, assim como melodias engendradas pela mais pura criatividade, “Sceneries” transpira emotividade e é um disco imperdível. Coloque o som para tocar, pare o que estiver fazendo e viaje nas ondas progressivas do Sylvan, garanto que não haverá arrependimento.

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