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Resenha: Stationary Traveller (1984)

Álbum de Camel

Acessos: 98


Acertada combinação de prog e new wave nos anos 80!

Por: Expedito Santana

22/03/2021

Sou um tanto suspeito para comentar os discos do Camel, já que a “fanzice” muitas vezes pode corroer o juízo e levar a avaliações equivocadas ou mesmo lenientes. Dito isto, a primeira coisa que gostaria de ressaltar (na verdade, pedir!) é que me perdoem se eventualmente cometer excessos para mais, ou seja, enxergar elementos positivos além da conta. Bem, o fato é que esse disco realmente me impressiona, e visto agora de maneira retrospectiva o considero um legado de respeito dessa estupenda banda num período em que o rock progressivo, como todos sabem, não estava mais em alta. E a onda (literalmente) era outra, aliás, diga-se, completamente diferente da que a banda surfou na década de 70.

“Stationary Traveller” é o décimo de estúdio dos ingleses e veio após a derrapada cometida em “The Single Factor” (1982). Assim como boa parte da discografia do Camel, esse álbum adota o formato conceitual. Desta vez as letras estão centradas nas diversas questões que envolvem a história da Alemanha durante o período do Muro de Berlim que dividiu a cidade de Berlim em duas, a fim de evitar a emigração da população de Berlim Oriental para o lado Ocidental, enfocando o problema dos refugiados, diferenças ideológicas ente os dois regimes etc. O disco foi gravado no Riverside Studios na Inglaterra e saiu pela Decca Records. Há versões remasterizadas lançadas em 2004 e 2009 que incluem como bônus as canções "In the Arms of Waltzing Frauleins" e "Pressure Points". 

Andy Latimer, fundador e único membro remanescente da formação original, que toca aqui guitarras elétricas e acústicas, baixo, flauta, sintetizadores e piano, sendo ainda o principal compositor e vocalista na maioria das canções, tem a companhia de Ton Scherpenzeel no órgão, piano, acordeão e sintetizadores, do baterista Paul Burgess e do vocalista Chris Rainbow, que canta duas músicas. Registro também a participação pontual dos músicos convidados David Paton (baixo) e Mel Collins (sax). 

Latimer, como sempre, é o grande destaque dessa empreitada do Camel, usando sua técnica primorosa na construção de belas melodias e também de seções incisivas, nas quais a guitarra protagoniza momentos mágicos. Aliás, talvez seja esse aspecto instrumental que evita a total descaracterização do som do grupo em toques de produção de plástico brilhante oitentista. Apesar de me considerar um admirador da new wave, vejo que não são poucos os grupos de rock clássico ou progressivo que se perderam nas suas fronteiras tentando soar mais moderninhos, cujo resultado acabou sendo uma massa sonora disforme que não é nem uma coisa nem outra.  
	
A impressão de que estamos de fato na década de 80 já vem logo na “primeirona” do disco, a instrumental "Pressure Points", sintetizador pulsante e ostensivo criando uma cama para um solo de guitarra sensacional de Latimer. Prato cheio para os fãs daquelas seções de guitarras gilmourianas, como é o meu caso. 

"Refugee" vem logo em seguida e soa muito pop anos 80, remete a Alan Parsons Project (“Eye in the Sky”), canção deliciosa para os amantes da new wave, mas não garanto que os fãs prog tradicionais vão sentir a mesma coisa. Um Piano elétrico inquieto dá um ritmo balançante e encontra o seu preenchimento perfeito no baixo mais cheio. Os vocais de Latimer passeiam soltos e deixam essa canção com ares de um tema radiofônico qualquer do Dire Straits. Eu adorei! 

Já "Vopos", pasmem!! chega a lembrar as camadas sombrias do Depeche Mode em “Black Celebration”, disco que, por sinal, aprecio muuuuuito!  A combinação dessa atmosfera synth-pop com uma guitarra meio bluesy é fantástica, sem esquecer um baixo rugoso e firme. Andy executa solos impressionantes nessa canção que mistura o prog viajante minimalista com o pop climático. Por falar em Latimer, seus vocais agradam bastante, digamos que uma espécie de Sting introspectivo (não levem isto a sério!)  

“Cloak and Dagger Man”, cantada por Chris Rainbow, tem sintetizadores tremeluzentes disputando espaço com a guitarra uivante de Latimer, que faz um trabalho magnífico para variar. Essa canção chega até a lembrar um pouco de AOR (Survivor etc). Mais anos 80 impossível! E a cereja no bolo aparece quando um solo de guitarra flamejante é seguido por rajadas faiscantes de sintetizadores, com ambos instrumentos finalizando de maneira espetacular.  

A faixa-título resgata a beleza das peças instrumentais de textura prog do Camel, todavia, advirto desde já para não esperar outra “Ice”. Pense nessa canção como uma irmã que, embora não muito assemelhada, faz um esforço tremendo para ficar igualmente formosa. Os sintetizadores aqui são bem discretos, a bateria executa um compasso mais lento e espontâneo, havendo até clima para uma flauta delicada e singela. As passagens de guitarras clássica e elétrica são simplesmente estupendas, evocam aquele romantismo à Dire Straits, com Latimer fazendo seu instrumento solar chorosamente. Bela peça! Dá pra matar a saudade dos tempos mais gloriosos do Camel. 

O manto dos anos 80 volta a ser vestido em “West Berlim”, que mistura o refrão crescente a versos pesados e é capitaneada pela voz aprazível de Latimer. A tela emoldurada no fundo parecer levar, novamente, a Alan Parsons. Os sintetizadores de Ton Scherpenzeel fazem a festa e a bateria de Paul Burgess aposta naquela batida repetitiva de caixa altiva oitentista. "Fingertips", por sua vez, é uma canção suave e deleitosa acompanhada de piano, o baixo fretless elegante de Paton e tendo alguns sons de sintetizadores mais comportados ao fundo. Segue abrilhantada pela participação mais do que especial de Mel Collins num solo de sax sensualíssimo.  

Em sequência aparecem duas outras faixas instrumentais, a aventureira "Missing", que poderia frequentar a trilha sonora de qualquer longa metragem dos anos 80, e a emotiva "After Words", com seu piano melancólico e acordeão igualmente jururu tocados por Scherpenzeel, que assinou sozinho a composição. 

"Long Goodbyes" encerra o álbum num clímax sentimental. Seria uma equivalente para "Follow You Follow Me" do Genesis, "Comfortably Numb do Pink Floyd ou mesmo "Hotel California" do Eagles (rsrsr). Deixando de lado a analogia galhofenta, essa canção possui uma qualidade genuína e soa bem honesta. Ainda que os versos e o refrão, cantados por Chris Rainbow, pareçam um pouco incompatíveis, a narrativa parece aproximá-los. 

Chegando ao fim desta revisão cabe responder a algumas questões: a) esse disco vai mudar a sua vida? não; b) há nele aquela inspiração típica do Camel? não; c) ele é comparável aos maiores clássicos da banda, tais como “Mirage”, “Moon Madness” ou “Rajaz”? também não. Apesar disso tudo, não deixa de ser uma obra bastante digna do Camel, que consegue aqui um meio-termo interessante, construindo uma sonoridade que reflete basicamente o que se vivia naquele momento musical, mas que não cai nas armadilhas do exagero pop e nem tampouco no ridículo insosso, como tantos lançamentos dos anos 80 de bandas de rock progressivo, a exemplo do grandioso Yes. A combinação de prog e new wave de Latimer & cia produz canções acessíveis, mas com profundidade e texturas sedutoras. Em última análise, se você for compreensivo com o minimalismo mecânico dos ritmos e entender o contexto em que esse trabalho foi concebido, garanto que apreciará muito "Stationary Traveller" e talvez até comece a ter uma regularidade de audições. Afinal de contas, fã que é fã sempre dá um descontinho!

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