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Resenha: In Sudden Walks (2009)

Álbum de Aisles

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O clássico e o contemporâneo andando de mãos dadas e muito bem sintonizados

Por: Tiago Meneses

21/03/2021

Quando ouvi o primeiro disco desta banda chilena de neo progressivo, ao mesmo tempo em que não me impressionou muito, tinha a impressão de que eles ainda teriam algo mais a oferecer, fato que ocorreu em In Sudden Walks, segundo álbum da banda. Trata-se de um registro mais consistente através de uma ótima abordagem de rock progressivo melódico.  

As principais influências estão entre Marillion e Genesis. Com o conceito de melódico levantado para definir a música aqui encontrada, podemos pressupor que estamos diante de um som facilmente acessível, porém, não é bem isso que acontece. As faixas mais envolventes aqui percorrem muitas ideias musicais, cruzando uma grande quantidade de terreno ao longo de seu curso sendo necessário algumas audições para absorvê-las. Isso às vezes pode levar a uma falta de coesão da música, que foi algo que percebi na estreia e continuo a sentir aqui – mas desta vez com bem menos intensidade.  

“Mariachi” é certamente uma introdução perfeita para o disco. A boa mistura entre a música latina e progressiva e o que deixa tudo único. As narrações possuem vozes perfeitas enquanto que a música tem um ar de muita elegância entre o psicodélico e o progressivo, além de um bom tom jazzístico. Cada passagem instrumental é muito bem elaborada e consegue fazer com que o ouvinte se entregue a uma imersão se inúmeras sensações quase oníricas. Apesar de muita delicadeza, o trabalho de guitarra é de grande impacto para que a faixa ganhe uma boa projeção. 

“Revolution Of Light” é onde de fato a banda mostra uma linha muito neo progressiva. O lado mais melódico e otimista da banda toma de conta da faixa. A banda consegue criar uma excelente atmosfera que faz com que o ouvinte lembre Marillion era Fish.  

“Summer Fall” mantem o álbum no clima da faixa anterior, mas menos pop e mais sinfônica. Possui alguns momentos de violões bastante influenciados por Genesis – ou mesmo por Steve Hackett em sua carreira solo. Os vocais possuem um trabalho muito harmonioso enquanto que a parte instrumental realça muito bem a música graças às pontes progressivas desenvolvidas com uma grande destreza.  

“The Maiden” é a música para qual eu daria o título de mais original do disco. Podemos perceber uma espécie de homenagem ao progressivo do passado – leia-se 70’s. Conforme vamos desconstruindo a faixa é possível notar entre vários elementos musicais, um grande virtuosismo na execução de violões que novamente nos remete ao Genesis. Não sou um conhecedor da música folk chilena, mas creio que também utilizam dela em determinados momentos. Apesar de influências notáveis, a banda nunca deixa de mostrar sua linha própria. No geral tem de tudo um pouco e muitas partes diferentes, teclados new age, partes rápidas, momentos acústicos e sinfônicos entre outros.  

“Smile Of Tears” é outra das faixas mais curtas do álbum, mas ao contrário do que aconteceu em “Revolution Of Light” que é ótima, aqui eu confesso que não desceu muito bem. Talvez possa parecer algo até apenas da minha cabeça, mas é de uma atmosfera que mais parece algo que o Kitaro faria – mas sem os vocais.  

“Hawaii” é onde o disco chega ao fim. Aqui acho importante dizer que temos todo um conceito por trás da música. Se trata de um conto de ficção científica onde a raça humana está prestes a ser erradicada. No ano de 2300 e após 8 guerras, 200 pessoas foram escolhidas para uma viagem espacial de destino desconhecido. A música consegue encaixar de forma perfeita na história. Esta jornada sonora de mais de quatorze minutos é inclusive mais aconselhável ser feita de olhos fechados – acredite, você não vai se arrepender. A influência em Pink Floyd aqui é bem evidente através de passagens cósmicas muito intensas. Um space rock sinfônico que traz uma conclusão atmosférica perfeita para o álbum e ilustra bem todas as sensações sentidas até aqui.  

In Sudden Walks no fim das contas é um ótimo e sólido registro. Não é um disco em que é possível perceber todos os seus detalhes com apenas uma ou duas audições, pois possui muita meticulosidade na sua música. Há de se destacar também a transparência da sua instrumentação. Uma banda de raízes clássicas, mas de estilo própria, fazendo com que o clássico e o contemporâneo andem de mãos dadas e muito bem sintonizados.

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